Londres / Parte 1: Olá, Inglaterra! Ou o dia em que atravessei uma rua com Axl Rose

Seria injusto dizer que fui a Londres só para ver futebol, como seria impreciso dizer o contrário. Afinal, vi o vocalista do Guns N’ Roses

Fachada do Stamford Bridge, casa do Chelsea, um dos primeiros pontos que vi em Londres (Crédito: arquivo pessoal)

A minha relação com Londres começou bem antes da minha visita à capital inglesa, em abril de 2013. Foi uma relação que teve início com o Arsenal — desde sempre e para sempre o maior clube londrino — lá por volta de 2003/2004. Mesmo que a cidade esteja a quase 10 mil quilômetros de São Paulo, o futebol tem a capacidade de nos aproximar de lugares longínquos. Aliás, acompanhar o futebol que rola pelo mundo é uma das formas mais legais de aprender geografia. Ele encurta distâncias. Torcer para — ou ter apreço por — uma equipe de outro país então, te coloca ainda mais perto, mesmo a um oceano de diferença como é o caso de São Paulo-Londres.

Tenho como primeira grande memória dessa relação com o Arsenal um domingo no qual almoçava com a família na cozinha de casa. Thierry Henry chutou de longe e a bola foi no meio do gol. Em um primeiro momento, parecia falha do goleiro. Mas na câmera de trás, dava para perceber que a bola foi batida com efeito, e o arqueiro do Manchester United, Roy Carroll, pensou que ela iria para o canto. Mas não. Indicou o canto, fez a curva, morreu no meio das redes. E foi gol. Para mim, naquele dia, um golaço. Fiquei impressionado com a facilidade de Henry para marcar de tão longe, mas de maneira tão simples. A partir dali, nascia um ídolo. Não para a torcida dos Gunners, que já morriam de amores pelo francês, mas o meu ídolo, o jogador que eu mais admirei e torci a favor em toda a minha vida. É óbvio que tive e tenho ídolos do meu clube de coração, mas nenhum atleta de futebol no mundo conseguiu me impressionar como ele.

Naquela temporada, 2003/2004, o Arsenal se sagrou campeão invicto da Premier League. Um feito impressionante na liga mais forte do mundo. Era o team de Wenger, de Vieira, de Lehmann, de Pires, de Bergkamp. De Henry, que fez 30 gols e foi o artilheiro do torneio. Ao fim do Campeonato Inglês, eu já me considerava um seguidor do clube. E um soldado de Thierry Henry. Pelos próximos anos, acompanhar os passos do time virou rotina. Todo sábado, TV ligada na ESPN para ver a Premier. Na internet, qualquer notícia sobre o Arsenal merecia o meu clique, até porque na época as notícias em geral mereciam mais o nosso clique do que hoje em dia. Assisti à despedida do Highbury na temporada 2005/2006, em uma vitória por 4 a 2 em cima do Wigan, com hat-trick de Henry. Foi um jogo lindo, apesar da frustração em saber que eu não teria a oportunidade de assistir a uma partida no estádio, demolido parcialmente para virar um condomínio residencial. E a frustração enorme da final da Champions contra o Barcelona, em Paris. Achei que naquele caso, Deus ou qualquer força que rege o mundo não atuou com justiça. Era para terem sido campeões, coroando um dos times mais fantásticos da história do futebol — sem exageros. Na temporada seguinte, o Arsenal inaugurou o Emirates Stadium, e a militância seguiu firme.

Da patrulha virtual e televisiva em relação ao time, meu foco passou a ser o Henry. Queria que todos os passes fossem em direção a ele. Seus gols eu comemorava como se fossem meus. Inclusive pela seleção da França. Certa vez, gritei tão alto um gol contra a Lituânia — no dia em que ele se tornou o maior artilheiro dos Bleus — que o vizinho do quarto andar ouviu. Eu moro no primeiro. Henry deixou o Arsenal para o Barcelona, mas segui fiel ao clube de Londres. Assistia aos jogos do Barça para ver o francês e os do Arsenal para torcer pela equipe. Foram tempos difíceis, com o início da incômoda seca de títulos que marcou a última década de Arsène Wenger à frente do time. Henry, que depois do Barcelona foi encerrar a carreira nos Estados Unidos, ainda jogaria mais dois meses pelo Arsenal antes de pendurar as chuteiras. Foi emocionante vê-lo marcar na reestreia diante do Leeds. Porém, todas essas emoções foram vistas pela TV, pela internet, pelos jornais e revistas que dedicavam algumas palavras para falar dele. Não pude vê-lo ao vivo e isso é uma frustração. Que só não foi maior pois, em abril de 2013 (uma semana depois de voltar de Santiago) fui a Londres e, enfim, consegui ver o Arsenal de perto. Não em campo e nem com seu maior ídolo jogando lá, mas a estrutura do clube e toda a história de mais de 100 anos construída por seus jogadores. A história do Arsenal construída, entre outros, por Henry.

Logo na chegada à Inglaterra, tive problemas na imigração. Um funcionário do aeroporto me fez pelo menos umas 20 perguntas: o que meus pais fazem, por que não estava estudando, por que não estava trabalhando, por que eu queria visitar museus e estádios, por que isso, aquilo, quis ver meu dinheiro... Nervoso, por pouco não sugeri que meu objetivo lá era explodir tudo, inclusive o aeroporto. Depois de muita canseira, pude finalmente entrar em Londres

Seria injusto dizer que fui a Londres para ver apenas futebol, assim como é impreciso dizer o contrário. Fui também para ver futebol, sentir futebol e consumir futebol. Londres é talvez a capital do futebol no mundo, concentrando vários clubes na cidade: Arsenal, Chelsea, Tottenham, West Ham, Millwall, Fulham, Charlton e Leyton Orient —só o Charlton, o Millwall e o Leyton Orient não jogavam a Premier League naquela temporada. O cardápio é vasto, algo que provavelmente só encontre semelhança em Buenos Aires, e ainda tem o Estádio de Wembley. Mas eu não seria trouxa de jogar no lixo a oportunidade de conhecer mais a fundo a terra do Big Ben, das cabines de telefone vermelhas, do fish and chips, do sotaque britânico, do metrô infinito, das lojas de disco de vinil. A ideia era dosar e a lista de things to do e places to visit era extensa.

No dia da chegada, já sabia que estaria aterrissando em Heathrow na hora de um Chelsea x Sunderland. Mesmo hospedado no bairro dos azuis, não tinha chance alguma de conseguir pegar o jogo. Fui de metrô do aeroporto até a estação próxima do hotel, uns 40 minutos de viagem, minimizados pela comodidade de o metrô te levar do aeroporto até qualquer ponto na cidade. (A Piccadily) É uma longa linha, a mesma que vai até o Emirates Stadium, no norte londrino. Quando cheguei, coloquei minhas coisas no quarto e saí para caminhar um pouco e conhecer os arredores. A intenção era saber o que tinha perto e também tirar um pouco do que havia de avião em mim. Cheguei na King’s Road, uma avenida importante de Chelsea e que nos seus anos de ouro foi a principal via da moda e uma das principais do comércio londrino. Mesmo perdendo esse posto, por exemplo, para a Oxford Street, a King’s Road não perdeu a compostura e segue com seu reinado, ao menos na região. Em linha reta, senti que chegaria em algum lugar importante, mas não fazia ideia de onde. Não me recordo exatamente se essa caminhada por Chelsea foi acompanhada de um mapa ou não. Acho que foi.

Já longe do hotel, vejo duas pessoas com a camisa do Chelsea caminhando na minha direção. Bom, a proximidade com o Stamford Bridge era uma possibilidade real, mas no momento não me empolguei com o fato. Claro, era legal ver gente com camisas de futebol na rua, sempre um sinal positivo. Mas segui a caminhada. Mais para frente, outro torcedor do Chelsea, dessa vez com um cachecol. Pensei: “A camisa, tudo bem. Mas camisa e cachecol? Esse aí está voltando do jogo”. Andei, andei e achei uma barraca que vendia camisetas, cachecóis, chaveiros e todos os tipos de tranqueira que se vende em porta de estádio. A barraquinha me deu a certeza de que o parque de diversões de Roman Abramovich era virando a esquina. E era praticamente isso mesmo. Andando mais alguns metros na mesma avenida, a casa do Chelsea se revelou, pouco imponente. Foi menos empolgante do que imaginava quando planejei uma ida ao Stamford Bridge. Por ser antigo (é estádio da equipe desde 1905), imaginei um edifício rústico que preservasse o ar clássico. Pelo contrário: é moderninho até demais para ser tão velho. Parece um pequeno shopping e o pátio da entrada principal, onde há um hotel bem em frente, reforça ainda mais essa impressão de falsa modernidade. Não gostei. Preferia ver, mesmo que de fora, um pouco mais de história naquelas arquibancadas. Um pouco mais de romantismo naquele estádio.

Os corredores e cantos de Stamford Bridge. Por fora, um estádio que pouco impressiona (Crédito: Arquivo pessoal)

A movimentação de torcedores já era pequena. A exceção foi um grupo de jovens com seus pais esperando pelos carros dos jogadores, que deixavam o estacionamento. O único que consegui ver enquanto estive por lá foi o lateral-esquerdo Bertrand, saindo em um Aston Martin escuro. Parou, deu alguns autógrafos e foi embora. Não peguei autógrafo do Bertrand. Mas cogitei esperar para ver se Oscar ou David Luiz passavam. Queria ver a reação dos pequenos fãs do Chelsea com os brasileiros. Não veio nenhum carro e desisti de esperar, então fui dar uma volta ao redor do estádio. Passei por um corredor com imagens de grandes ídolos, encontrei uma loja oficial na parte de trás e terminei o “tour” externo no mesmo pátio de antes. Nenhum canto daquele lugar me encantou. Talvez fosse o jet lag, para usar uma palavra em inglês e uma desculpa para o meu desencantamento com o Stamford Bridge.

Na volta para o hotel, parei no mercado e comprei algumas coisas para comer, já que não vi um restaurante aberto sequer depois das 20h. Era hora de dormir. Dali a algumas horas, começaria, de fato, a minha viagem.

Tite Street, que fica em Chelsea. Baita coincidência (Crédito: Arquivo pessoal)

Acordei já cansado no dia seguinte. Tomei um banho e saí para a rua, parando para tomar um café no Paul’s, uma padaria próxima de onde estava hospedado. Pedi um café médio e o garçom me trouxe uma xícara enorme, quase um balde de cafeína para começar bem ligado aquela segunda-feira. No roteiro, não tinha visitas a estádios de futebol programadas. Dei preferência a lugares importantes do bairro de Chelsea, como a Saatchi Gallery, uma das galerias de arte mais importantes da cidade, e o Museu Nacional do Exército. Durante a andança entre museu e galeria, encontrei a Tite Street. Era impossível não associar o nome da rua a uma tremenda ironia: a “rua do Tite” ficava justamente em Chelsea. Meses antes, o Corinthians vencera os Blues no Mundial de Clubes no Japão. Achei graça na coincidência e até tirei foto.

À tarde, fui ao Victoria & Albert Museum, visita imprescindível quando se está em Londres. O que eu não esperava era encontrar gente conhecida no caminho para o museu. Mas não gente conhecida minha e sim gente conhecida do mundo! Um grupo atravessou a rua e outro ficou no aguardo do próximo farol para atravessar. Na outra calçada, umas duas pessoas falavam com um cara que estava ao meu lado, provavelmente brincando com ele para que atravessasse logo e não ficasse parado lá. Dei uma olhada no cara: cabelo claro, entre o loiro e o ruivo, anéis nas mãos, casacão, bota e chapéu. Parecia o Axl Rose, vocalista do Guns N’ Roses. Parecia muito. Os supostos amigos do cara não paravam de falar do outro lado, até que o farol abriu. Andei, com certa pressa para chegar rápido ao V&A e preocupado em otimizar meu tempo, quando o figurão que esperava comigo do outro lado resolveu abrir a boca. Saiu uma voz grossa, inconfundível para quem sabe que o vocalista do Guns N’ Roses não vivia só de berros estridentes. Olhei para trás e confirmei. Era mesmo Axl Rose. Eu nunca gostei de Guns. Mas posso dizer que já atravessei uma rua com Axl. Era mais ou menos viver na pele o Caetano estacionando o carro no Leblon, mas com uma estrela do rock — e sem carro.

Cheguei ao Victoria & Albert, andei por boa parte do museu e me encantei com a variedade do acervo, que contemplava desde grandes colunas gregas, colocadas em um salão com pé direito altíssimo, a obras de Rafael e uma seção com a história da moda. Na época, o V&A estava com uma exposição sobre o David Bowie, que depois viria ao Brasil, no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo. Fui me informar e me disseram que só tinham ingressos para o dia seguinte, com hora marcada. Comprei um ingresso e assumi o compromisso de estar lá na hora determinada, seguindo o padrão britânico de pontualidade. Entre a visita ao museu e a compra da entrada para a mostra do Bowie almocei em um restaurante libanês. O preço era justo e a comida era boa, um frango bem temperado com arroz sírio. Meu medo era gastar muito com comida e não sobrar dinheiro para outras coisas, mas o libanês me deu um alento. Era possível não falir almoçando em Londres.

Depois do V&A, fui ao Museu de História Nacional, tirei fotos do Royal Albert Hall e andei pelo Hyde Park, onde o Red Hot Chili Peppers, minha banda favorita, já fez um dos shows mais sensacionais que ouvi deles. Cansado, peguei o metrô em uma das pontas do parque e voltei para o hotel. Naquele dia, nada de estádio de futebol ou lojas de artigos esportivos.

Como disse anteriormente, seria injusto dizer que fui a Londres somente para isso. Afinal, atravessei a rua com o Axl Rose. Serve?


Este é o sexto texto de uma série de relatos de viagens com experiências futebolísticas que contarei aqui no Medium. A inspiração para escrever os relatos veio do livro 11 Ciudades, do jornalista espanhol Axel Torres. Nos links abaixo você confere o post sobre o livro de Axel e os outros relatos da série: