Adoção à brasileira

Adoção à brasileira: O que é?

Maria está grávida de 2 meses. O namoro de anos com João resultou em um filho. Ao saber da novidade ela corre para contar para o futuro pai, esperando comemorar junto com ele. João, ao saber do bebê, se apavora, diz que é muito novo e não quer ter filhos no momento. Ele fala que não vai ajudar nem assumir o papel de pai e acaba sumindo da vida de Maria. Apesar de decepcionada, Maria não desiste de seu filho e decide criá-lo sozinha. Um mês depois ela reencontra Marcos, seu antigo namorada. Eles se aproximam e começam um relacionamento. Marcos declara que Maria é o amor da vida dele e já ama a criança que está por vir, decide que assumirá o papel de pai biológico, registrando a criança como seu filho. Depois de 6 meses nasceu Pedros registrado como filho biológico de Maria e Marcos.

Essa história não é real, mas casos como esse acontecem diariamente ao redor do mundo. São muitos Pedros que são registrados de forma irregular no nome de mães e pais adotantes, como biológicos. Essa prática é chamada de “adoção à brasileira”. A “Adoção à brasileira” ou “adoção à moda brasileira” ocorre quando o homem e/ou a mulher declara, para fins de registro civil, o menor como sendo seu filho biológico sem que isso seja verdade.

O desejo de constituir família faz parte dos anseios dos brasileiros. A família é considerada a base da sociedade e ter filhos significa dar continuidade à entidade familiar. A partir disso, nasce a “adoção à brasileira”, uma forma ilegal, porém, mais rápida e fácil de adoção realizada pelas pessoas para garantir a construção da família.

Adoção dentro das leis

No Brasil, quem procura um filho para adotar no processo dentro da lei, descobre que a espera leva bem mais do que os nove meses de gestação. Os possíveis pais adotivos precisam ter mais de 18 anos e pelo menos 16 anos de diferença do adotado. O primeiro passo a ser tomado é procurar a Vara de Infância e Juventude e entrar com um pedido de adoção. Depois, os pais são encaminhados ao setor técnico da Vara, onde assistirão palestras, serão avaliados e entrevistados por psicólogos. Se aprovados, o Ministério Público recebe um parecer técnico com as condições da futura família, analisa o caso e faz o seu próprio parecer. O processo volta para o juiz da Vara, que decide se os pais estão habilitados para a adoção, quando, então, são registrados no Cadastro Nacional de Adoção.

A partir desse momento o juiz procura as crianças disponíveis para adoção que correspondem ao perfil especificado. Se os pais concordarem com a sugestão do juiz, começa a fase de “aproximação”, onde aos poucos os pais vão conhecer a criança. As visitas começam de longe, em grupos. Depois de vários encontros os pais podem levar a criança para passear, e mais tarde dormir na casa da família. Acompanhado sempre por psicólogos, o próximo passo do processo é o período de convivência, onde a criança vai morar com os pais e no momento em que a família é considerada “estável” a adoção é formalizada e a criança é considerada filha, com todos os direitos de um filho biológico.

Situação Atual

Em 2016, existiam cerca de 36,5 mil crianças vivendo em instituições de acolhimento à espera de uma família para chamar de sua. Apenas 6.567 podiam ser adotadas. São quase 30 mil crianças que não estão dentro da lista de adoção. Isso acontece por causa do processo de destituição do poder familiar.

Os direitos previstos as Crianças e adolescentes na Constituição Federal de 1988 no artigo 227, são.

“Dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”

A destituição familiar acontece somente quando esses direitos não são respeitados. O ECA estabelece que deve ser feita uma petição inicial pelo Ministério Público. Caso exista um motivo grave, o juiz poderá determinar a suspensão do poder familiar por meio de uma medida liminar até o julgamento definitivo da causa, confiando a criança ou adolescente a uma pessoa idônea ou a uma casa de acolhimento. Os pais serão ouvidos e poderão defender-se perante a Justiça. Nesse caso, o juiz deve determinar a realização de estudo social da família envolvida, ou perícia por equipe interprofissional. Na audiência, são ouvidas as testemunhas e o juiz tem o prazo máximo de 120 dias para proferir a sentença.

Apesar do prazo estipulado pela lei, a prática se mostra diferente. O processo leva até cinco anos para ser concluído, de acordo com a advogada Silvana do Monte Moreira, presidente da Comissão de Adoção do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM). Acaba se perdendo um tempo precioso à procura de parentes biológicos sem vínculo afetivo, e as crianças vão envelhecendo nas casas de abrigo. A falta de estrutura do poder público como a falta de juízes, psicólogos e assistentes sociais em número suficiente para suprir a demanda prejudica a eficácia do processo. “A legislação prevê revisão da situação da criança de seis em seis meses. Muitas delas, no entanto, ainda não foram destituídas por falta de pessoal para emitir o laudo”, conta a psicóloga Suzana Schettini, presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção.

Famílias para adotar

Em 2016, eram 35571 famílias habilitadas para adotar, inscritas no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). Uma criança estava na fila de adoção para cada seis adotantes. Apesar dos números, as crianças continuam a espera da adoção. Isso acontece porque os futuros pais criam um perfil do jovem que querem adotar, quanto mais restrito esse perfil, mais tempo na fila de espera. Enquanto 84% dos pais estão em busca de filhos até cinco anos, 81% das crianças têm entre seis e 17.

Com a palavra, a Lei

O artigo 242, do Decreto-lei nº 2.848, de 07 de dezembro de 1940, do Código Penal, define que é crime: “dar parto alheio como próprio; registrar como seu o filho de outrem; ocultar recém-nascido ou substituí-lo, suprimindo ou alterando direito inerente ao estado civil”. Atualizado na lei nº6.898, de 30 de março de 1981, a pena é de reclusão de dois a seis anos e, se praticado por motivo de reconhecida nobreza, de um a dois anos, podendo o juiz não aplicar a pena. Mesmo com a lei assim determinada, a adoção irregular ainda é uma realidade no Brasil.

Conhecida pelo nome de Adoção à Brasileira, consiste quando um parente entrega a criança para outra pessoa, fora do círculo familiar, à margem da legalidade. Em alguns casos, o jovem é registrado em nome dos adotantes, como se fosse filho biológico. Essa conduta é vedada por lei e, por isso, se considera crime.

O Juizado da Infância de Porto Alegre possui um termo de cooperação com as maternidades para evidenciar qualquer situação de vulnerabilidade, para mães que não realizaram o pré-natal ou que tem um histórico de drogadição durante a gestação. “É feito um encaminhamento ao juizado, tendo como prioridade manter a criança na família extensa, alguém que tenha condição de se responsabilizar por ela”, explica o juiz da Infância e Juventude, Marcelo Mairon. Outro cuidado realizado é a declaração de nascido-vivo, que vem com a identificação da gestante. Mesmo com esses fatores, ainda existem irregularidades no registro.

Um dos principais motivos para que as pessoas busquem a adoção à brasileira, é a demora no Cadastro Nacional da Adoção. Mairon salienta que essa lentidão é decorrente do perfil procurado pelos adotantes. A maioria dos interessados procuram um recém nascido ou com, no máximo, três anos. “Em Porto Alegre, cerca de 90% dos jovens para adoção tem mais de 10 anos. Se eu for pegar o universo dos pretendentes habilitados, não vou conseguir 2% ou 3% que aceitam crianças com essa idade. Então, o perfil almejado não bate com o real”. Outras circunstâncias também tornam a adoção demorada, como quando é um grupo de irmãos e não se indicou separação, ou quando a criança tem uma doença mais severa. Porém, esses casos são a minoria.

No áudio ao lado, o juiz explica sobre o projeto do Tribunal de Justiça, Deixe o amor te surpreender.

Para o juiz, adoções à brasileira ocorrem pela falta de controle. “Existem situações de boa ou má fé no momento que a pessoa faz o registro”. A boa fé seria quando existe identificação com o caso e a pessoa se solidariza com a mãe, não querendo deixar a criança sem o nome do pai na certidão de nascimento. Porém, em determinados casos, que são considerados isolados, o registro de um pai, que não é biológico, é feito justamente com a intenção de ter aquele jovem como filho e não precisar passar pelo processo de habilitação para adoção.

Essa não é uma conduta generalizada, mas o juiz conta que apurou casos deste tipo. Passado certo tempo do registro, a esposa do homem que registrou a criança entra com uma ação em juízo de adoção unilateral. Segundo Mairon, a questão deste tipo de adoção é normal e na maioria das vezes são casos verdadeiros, mas já foram identificadas situações em que quando se ingressou com esse pedido foi uma forma de legitimar o pedido de adoção para aquele “pai biológico”, que não teve nenhum relacionamento com a mãe da criança. “Esse pedido unilateral é feito justamente para que seja substituído no registro o nome da mãe pelo cônjuge do pai”, esclarece. Mairon explica que durante a audiência é possível identificar se existe vínculo entre mãe e pai, ou se foi criada uma situação artificial.

Existem circunstâncias em que a mãe entregou seu filho e passado um tempo o casal vai a juízo e propõe a adoção, sem ter uma avaliação prévia ou aguardar na lista para conseguir adotar. O Juizado vai avaliar o estado da criança e procurar saber como ela está sendo tratada. “Nós não vamos simplesmente tirar ela se já está a muito tempo com aquele casal, pois seria uma agressão”. Em atenção a este interesse, Mairon relata que até pode ser concedida a adoção, mas também precisa ser verificada se houve objeto de vantagem oferecida, podendo ensejar uma responsabilização criminal. Independente do caso, adoções irregulares, quando chegam à justiça, são avaliadas individualmente. “Principalmente quando o vínculo entre as duas partes é muito recente, então será necessário o recolhimento do jovem”.

No áudio ao lado, o juiz explica o processo quando é necessário o recolhimento da criança

O juiz Marcelo Mairon deixa claro que em nenhum dos casos a pessoa que adotou irregularmente será considerada criminosa, mas que é necessário ir à justiça e contar como tudo ocorreu. Segundo ele, o Juizado precisa saber de fato qual a história. Se o adolescente foi entregue ainda pequeno pelos pais biológicos a pessoa tem direito de ir ao judiciário, provar o fato, e pedir a adoção. “O maior prejuízo é a criança o reconhecer como pai, a pessoa querer adotar, mas não regularizar isso. O menor deixa de exercer muitos direitos em relação aos seus pais de fato ao não ter a situação regular”. O adotante vai dar razões e motivos para querer regularizar aquela criança ou adolescente e vai ser apurado se houve alguma vantagem no momento em que o menor passou aos seus cuidados. Mairon reitera que, se for identificado que o jovem está bem cuidado e que aquele autor da ação é a sua referência como família, provavelmente o desfecho vai ser favorável a uma adoção. “Essa é uma situação que não pode ser incentivada justamente pelas grandes consequências que podem vir tanto para quem adota, mas principalmente para quem é adotado”, finaliza.

Família Lipus

“Como eu queria muito mais um filho, partimos pro processo de adoção”

Soraya Lipus tem 54 anos e exerce há 20 anos o papel mais importante da sua vida, ser mãe. Bruno é o filho mais velho, que como ela explica, nasceu da sua barriga. Enquanto Brenda é a caçula, a filha que nasceu do coração. Sentada no sofá de casa, não contém a emoção ao contar a experiência que viveu 13 anos atrás, quando decidiu adotar a Brenda e percebeu que o amor de mãe é igual para qualquer um dos filhos.

Em 2002, surgiu uma nova questão dentro da família Lipus: Ter mais um filho, ou não? Soraya e o ex-marido, Roberto, tentavam decidir se iriam aumentar a prole. Bruno, o único filho até então, não tinha dúvidas, ele pedia todo dia para que os pais trouxessem uma irmãzinha. A decisão foi tomada. O casal decidiu que iriam dar esse passo e tentariam ter mais um filho.

A gravidez do primogênito não foi fácil, houve complicações e Soraya chegou a perder um pouco da audição. Mesmo sabendo dos riscos, ela decidiu teria mais um filho biológico. Eles tentaram a inseminação artificial algumas vezes, Soraya nem lembra quantas. Em uma delas, conseguiu engravidar, mas acabou perdendo o bebê. A família ficou muito chateada, porém a vontade de ter uma nova criança era maior. Nesse momento, eles perceberam a possibilidade da adoção.

“As pessoas falavam pra mim que isso era um processo muito demorado”

O casal foi até o fórum, fizeram a inscrição e deram início ao processo legal de adoção. Soraya sonhava com a adoção de uma menina recém nascida, e descobriu que esse processo poderia levar muito tempo. Ela começou a tentar adotar por outras vias. Ligava para hospitais atrás de informação. Ligava para cidades portuárias porque foi informada que nesses locais existe um grande número de crianças para adoção, pois quando os navios atracam, a tripulação se relaciona sexualmente com as mulheres da cidade e depois vão embora, deixando algumas grávida que acabam por fim, dando as crianças.

Sem encontrar resultados eficientes, Soraya decidiu falar para todos que conhecia e nos lugares onde ia que queria adotar, esperando alguém que encontrasse uma solução. Em uma dessas tentativas, ela estava no salão de beleza e comentou sobre o desejo de adotar uma criança. Foi então que uma das moças que trabalhava no local, disse que conhecia uma pessoa que estava grávida e queria dar a criança. No mesmo momento, ela respondeu “Se for uma menina, é minha”.

Eles foram conhecer os genitores, um casal que morava em Canoas e já tinham tido cinco filhos, todos dados para a adoção. Essa família era bem humilde e passava por diversas necessidades. Soraya e Roberto decidiram fazer a ecografia para saber o sexo do bebê. Então, souberam que a nova integrante da família estava a caminho. Soraya mostra que até hoje mantém guardada a ecografia em 3D da Brenda. A partir de então, a família começou a ter contato com os genitores, auxiliaram com alimentação, conheceram os avós paternos e fizeram questão de levar a mãe biológica na ginecologista que a família Lipus conhecia.

“Não podíamos dizer que ela seria adotada porque se soubessem que ela ia ser adotada, o conselho tutelar pegaria ela”

Meia noite do dia 7 para 8 de maio, Roberto recebeu uma ligação. A genitora tinha dado início ao trabalho de parto e dado entrada no SUS de Canoas. Ele foi para o hospital e passou a noite toda no local como pai do bebê.

Às 11 horas da manhã do dia 8 de maio a Brenda nasceu. Cerca de 20 horas depois a genitora e a criança foram liberadas e a Brenda foi entregue na saída do hospital para o seu novo pai, Roberto. Soraya e Bruno saíram de Porto Alegre e foram para Canoas encontrar a nova integrante da família. “Eu falei pro Bruno, adivinha quem nós vamos buscar? Ele respondeu: A Brenda. Ele foi daqui até Canoas agradecendo o papai do céu por ter dado a irmãzinha pra ele”, conta Soraya.

A nova mãe desejava muito essa criança, por isso, decidiu que queria amamentar e ter um momento de mãe e filha, recuperar aqueles 9 meses de contato que elas tinham perdido. O pediatra ofereceu um remédio e Soraya começou a produzir leite. Durante 2 meses elas conseguiram estar juntas no processo de amamentação, tendo mais contato e criando essa referência de mãe e filha. A shantala, uma massagem milenar indiana foi outro modo de manter um momento do dia para afeto somente entre as duas.

“Todos receberam a Brenda muito bem”

Dentro da família, o bebê foi recebido do melhor modo. “A família não viu como uma criança adotada, mas sim, como mais uma criança que estava chegando para a família”, conta Soraya. De acordo com os tios, ela sempre foi uma criança muito carismática, alegre e comunicativa. Nem Soraya, nem Brenda, lembram de algum momento em que passaram por qualquer situação de preconceito pelo fato da menina ser adotada.

“Eu falava pra ela que ela era uma florzinha que tinha sido de dentro do coração”

Desde que a Brenda nasceu sempre foi deixado claro que ela era a filha do coração. “eu falava pra ela que ela era uma florzinha que tinha sido de dentro do coração, que eu amava muito essa florzinha, que eu muito quis essa flor. Conversava com ela pra tornar a coisa da maneira mais tranquila e com muito amor”, conta Soraya.

Aos dois anos de idade, Brenda já estava na escolinha. Nesse momento, as professoras começaram a explicar as formas de ter filhos e a menina acabou levando um livro sobre adoção para casa. “No livro, onde os pais escolhem as crianças e as crianças escolhem os pais, é uma escolha mútua. Não é só porque eu escolhi, porque ela também nos escolheu. De alguma forma ela nos escolheu. Chegou no final do livro E ela falou, mamãe essa aí é a minha história que você me escolheu e eu te escolhi”, fala Soraya.

A família genitora não teve mais contato com a Brenda, nem com nenhum dos familiares após a adoção.

“Não existe diferença de um filho que sai da barriga pra um do coração”

A mãe conta que o amor é incondicional, e declara que não consegue ver uma diferença entre a Brenda e o Bruno. Afirma também que a dor de qualquer coisa com um filho e a mesma. Não consegue dizer que gosta mais de um que saiu da barriga do que o outro não, que saiu do coração. Ela diz “O amor é igual, a dor é igual”.

Família Ferraz

“Filho a gente ama incondicionalmente, não interessa como chegou na gente”, é assim que Cláudia Ferraz*, 72 anos, descreve o sentimento por seus dois filhos, Helena* e Bernardo*. Os dois foram adotados, sem os processos e burocracias de uma adoção legal, ou seja, são casos de adoções à brasileira.

Cláudia conta que sempre quis ser mãe, mas que casou em uma idade avançada e não conseguia engravidar. Ela e seu marido, de comum acordo resolveram adotar e entraram na fila de adoção. “Eu não queria esperar, então sai falando para as pessoas que queria adotar para ver se alguém não me arranjava um bebê, naquela época (1981) era comum fazer isso”, conta. A sua estratégia deu certo. Claúdia era professora de uma escola, lá uma colega conhecia uma pessoa que estava grávida e precisava dar a criança.

Por meio desse intermédio o casal conseguiu Helena, sem nunca ter conhecido a mãe biológica dela. No dia do nascimento, os dois estiveram presentes, mas conheciam toda a equipe médica. Helena ficou dez dias no hospital por burocracias, mas o dia de ir para casa foi uma emoção só. Cláudia conta que duas amigas próximas foram buscar a filha enquanto ela e a família inteira esperavam com uma festa em casa. “O meu marido, que era um homem de 1,90 até desmaiou de emoção quando ela chegou”.

A chegada Helena teve um efeito tão positivo na vida do casal e seus amigos só na escola que Cláudia trabalhava mais 8 pessoas resolveram adotar também. “Eu puxei a fila, pois todas tinha receio de adotar, quando elas viram que o meu caso deu tão certo, foi um incentivo”, conta. Então em 1984, casal também sentiu a necessidade de repetir o ato e ter outro filho, mas dessa vez nem cogitou tentar a fila de adoção.

A adoção de Bernardo foi mais rápida do que a de Helena e aconteceu graças ao marido de uma amiga de Cláudia, que era juiz. Este ficava sabendo de algumas pessoas que não podiam criar os filhos e contava para a mulher, que contou para a Cláudia. “Minha amiga me disse em uma sexta que o meu filho ia nascer na próxima segunda”, lembra emocionada. O menino nasceu no mesmo hospital de Helena, com a mesma equipe médica, mas novamente o casal não esteve presente no dia do nascimento. Só puderam conhecer o filho quando ele foi para casa, naquela mesma semana. O casal também não conheceu sua mãe biológica.

“Tivemos essa felicidade de contar para os nossos filhos desde o momento em que eles chegaram. Eu historinhas nos ouvidos deles sobre o lugar que eles vieram, o meu coração”, fala Cláudia quando perguntada a respeito de como introduziu o assunto adoção na educação de Helena e Bernardo. Ambos nunca quiseram procurar as mães biológicas, mas a entrevistada afirmou que se esse fosse o desejo de algum deles ela moveria mundos para encontrá-las.

“Adoção para mim é uma troca. É um bem que tu faz para um criança, mas principalmente um bem que ela faz para ti” declara Cláudia. Hoje ela se diz muito realizada com sua decisão de adotar e faria tudo como fez. Acha que os processos de adoção no Brasil eram muito lentos naquela época, por isso todos adotavam da mesma maneira que ela “minhas amigas adotaram da mesma maneira que eu, era mais rápido”.

Hoje Helena é mãe de um menino de 6 anos, é casada e trabalha na área farmacêutica.. Bernardo Mora no Rio de Janeiro e é Engenheiro. Cláudia tem muito orgulho dos filhos. “É algo que levarei comigo quando partir daqui, o fato de eles terem feito esse bem para mim” afirma.

  • Todos os nomes foram alterados a pedido da entrevistada

Da adoção à maternidade

Juçara Angela Barros — Becker, depois de casada — lembra de um único contato com seus pais biológicos. Uma memória vaga, feita antes dos 4 anos de idade.Sabe que nasceu na região de Novo Hamburgo, por a terem contado. Viveu em um orfanato e teve duas tentativas frustradas de adoção, antes de ser escolhida extra-judicialmente por sua mãe adotiva Mercedes Bueno Ribeiro, quando ia completar o quinto ano de idade. Juçara lembra de ter uma irmã, também deixada para adoção, e sem contato desde a primeira infância.

Seus registros legais são dos pais biológicos. Ela conta que sua adoção se deu através de um amigo do pai adotante que tinha contato com o juiz responsável e os administradores do orfanato. E só. Nenhum trâmite judicial, nenhum protocolo, processo nem supervisão legal. Apenas uma visita — informal — por ano da família ao juiz, para certificar que Juçara estava sendo bem cuidada. Nada oficial. Questões de possíveis heranças da família adotiva fizeram que nem o sobrenome fosse repassado a Juçara. O irmão mais velho não a aceitava bem, e o pai se separou para sair de casa meses depois de sua chegada. Tias e avós a aceitavam, entretanto, Juçara Angela escondia sua história na escola até o fim da adolescência, usando o sobrenome Bueno Ribeiro, e carregando os tabus silenciosamente.

Sua criação firme a fortaleceu para passar pelas dificuldades da vida com o rótulo de adotada. Recorda que quando chegou na casa adotiva, negava que era filha daquela família. “Eu não chamava ela de mãe. Ela não era a minha mãe”, explica. Com o passar do tempo, Juçara entendeu que a relação entre pais e filhos era diferente na época, e é grata pela acolhida que a tirou do orfanato e proporcionou uma vida mais completa. “Eu procurei fazer tudo que eles queriam, para que eu não tivesse que voltar para aquele lugar”, lembra, contando sua saída do orfanato e chegada a nova família.Juçara cita a preocupação da mãe, que muitas vezes escondia fatos e evitava suas investidas de curiosidade. “Ela não queria que eu soubesse, que eu me sentisse mal por aquilo, mas ela não tinha culpa”, relembra.

Quando fala de sua família, o carinho pelos seus dois filhos toma conta. Fazendo carinho no cachorrinho Titi — também adotado — durante toda entrevista, relembra os desafios na gravidez do mais velho e na infância do mais novo. Renan, com 26, e Pedro Henrique, com 23, são os alvos de toda sua dedicação desde as gestações. Misturando emoção e bom humor, se mostra orgulhosa por ter conseguido passar adiante a criação rígida que teve aliada ao seu toque pessoal de ternura.

Hoje, Juçara mantém contato com apenas algumas primas e tias da família adotiva. Sua mãe adotiva, Mercedes, faleceu em 2007. À época, pensou em ir atrás de sua família biológica para conhecê-los. Porém, percebendo a burocracia e dificuldades na busca de documentos e registros, desistiu. “Disseram que era muito difícil de encontrar essas coisas. Papel estraga com o tempo, né”, ponderou. Ela diz que ainda gostaria de ter um tipo de contato com sua irmã biológica. “Gostaria de ver alguém da família, mas de longe, e sem ela saber quem eu sou. Também tenho medo de saber quem é essa pessoa, o que ela faz”, revelou.

Juçara teve um dos momentos mais felizes da vida em dezembro, quando viu seu filho mais novo, Pedro Henrique, 23 anos, subir ao palco do prédio 40 da PUCRS como formando para buscar o diploma de Relações Públicas. A naturalidade de Juçara Angela Becker para enfrentar e contar os percalços está presente também nas lembranças da infância turbulenta. Um caso diferente de adoção, uma lição de perseverança e gratidão.

Um caso na mídia

Atualmente, o “Vale a pena ver de novo”, da Rede Globo, está transmitindo a novela Senhora do Destino. Original de 2004, a trama, escrita por Aguinaldo Silva, é inspirada na vida de Jayro Tapajós e Maria Auxiliadora Braule Pinto, que tiveram seu filho roubado na maternidade. O casal nunca desistiu de encontrar o menino e a história ficou conhecida como “Caso Pedrinho”.

Essa reportagem foi produzida pelos alunos da disciplina de Produção em Jornalismo Online Bárbara Debeluck, Bharbara Hack, Júlia Fernandes, Luana Nyland, Márcia Tomás e Roger Silva.