Te amar foi te deixar ir | História boba

Se lembra daquelas noites que ao invés de aprontar loucuras e pingar de suor, nós dois ficávamos deitados olhando pro teto branco e falando das nossas histórias bobas? Parte de mim já sabia que a razão de você não me “procurar” nunca foi falta de desejo. Era sua forma de dizer que, de vez em quando, você só queria estar ali do meu lado, só queria contar e ouvir. Eu decifrei em segredo a maioria dos seus sinais. Dos seus pedidos não verbais de “deixa eu cuidar de você”. Você procurou de todas as formas me falar e me fazer esse pedido, e eu fingia não entender.

Mas tem uma história boba que eu esqueci de te contar. Não sei onde você está agora, só fecha os olhos e pensa que nós estamos deitados de novo debaixo daquele teto branco. Eu tinha uns seis anos de idade, talvez mais. Meu maior medo (além de palhaços, isqueiros e gafanhotos) era de agulhas. Tinha fobia mesmo. Só de ver a cruz do hospital se aproximando pela janela do carro, meu coração pulava pela boca. Eu andava nervosa nos corredores e apertava a mão da minha mãe com força. Tentava disfarçar ao máximo, mas eu estava em pânico. Assim que nos sentávamos na sala de espera, o meu limite estourava: abria o berreiro, me acabava em lágrimas, implorava para que minha mãe me poupasse de algo que eu, naquela idade, não poderia entender o quanto era necessário. Naquele dia, eu caí com um vidro de remédio na mão. Mas o susto, a dor, e a quantidade de sangue que eu imaginava estar perdendo não foram nada comparados ao desespero da notícia que eu havia acabado de receber: eu teria que levar alguns pontos. Eu me lembro dessa cena como se fosse ontem, já deitada em uma maca, tremendo e entre lágrimas, perguntando à minha mãe: “Espera um pouco. Eles vão… COSTURAR A MINHA MÃO???!!”. A ideia de ter uma agulha entrando e saindo da minha pele dezenas de vezes, ao invés de uma simples injeção, me levou aos gritos, antes mesmo de começar. No fim da história foram 18 pontos, um médico bastante estressado, um hospital inteiro atento aos meus berros de desespero, duas enfermeiras segurando meus braços e um segurança sentado sobre as minhas pernas, com minha mãe do lado de fora, esmurrando a porta trancada, por não aguentar o excesso de dor que a minha cena pra lá de dramática fazia parecer que eu estava sentindo.

Depois dessa história, eu poderia te contar mais de mil outros dramas. Alguns ridículos, como esse, por pura imaturidade. Outros por não ter tanta sorte ou não conhecer a sorte dos outros. Mas de todos que me conheceram, dos que se foram e dos que eram obrigados a ficar, a opinião é unânime: nunca foi fácil, e parece que nunca fica.

Eu quero que você saiba que não ter você durante esses momentos, onde eu tenho que enfrentar agulhas maiores e problemas mais sérios, é bastante difícil. Mas o que eu fiz com você é o que eu tenho feito com todos os outros. Te deixei ir pra que você não precise sofrer o que todos sofrem quando eu os permito chegar perto demais e ficar tempo demais. Quando a gente gosta muito, a gente sente a dor. E quando eu gosto um pouco, eu quero proteger, assim como você queria.

Os outros, o mundo, podem ter a visão sobre mim que eles quiserem. Podem dizer que é tudo mentira e que o que eu quero mesmo são as relações vazias que eu procurei. Que eu gosto de afastar as pessoas porque eu sou fria e ponto. Mas pra você, que eu amei, é necessário dizer a verdade: te amar foi te deixar ir. Te deixar livre pra encontrar alguém com a alma mais leve, com a sorte sorrindo, com a vida ajustada, alguém que não se desmancha em lágrimas por causa de uma agulha, ou de um problema que ainda nem aconteceu. Ao contrário dos conselhos dos poetas, te amar foi não lutar pra que você ficasse, foi não insistir. E se em mil anos você ainda não acreditar em mim, não tem problema. Eu sei que meu coração que parece ser de gelo vai sorrir quando você estiver finalmente, feliz.

Se cuida, Take Care.