Segurança da informação nunca fez tanto sentido
No final do mês passado, eu tive meu celular furtado, num show. Foi de um jeito que eu nem reparei, simplesmente olhei e vi que a bolsa estava aberta, sem meu celular. Na hora fiquei com raiva, bastante assustada, mas depois aliviada por ter sido um furto e não um assalto, com grosserias ou armas que me impusessem medo. A triste verdade da violência urbana é que a gente descobre depois que poderia ser pior.
No dia seguinte, após chorar bastante, coloquei minha cabeça no lugar e comecei a pensar no que poderia tentar fazer para recuperar os dados daquele aparelho. Tentei rastrear meus dados pelo gmail, pela samsung, até por simpatia do João Bidu. Nada funcionou. O máximo que consegui foi tentar emitir um pedido para resetar as informações do celular, que também não sei se foi bem sucedido. O celular ainda consta como inativo quando tento rastrea-lo. Dá pra imaginar o quanto fiquei arrasada? Então…
Perder algo material é sempre chato, especialmente quando é um presente, no caso, da sua mãe. A única coisa que me deixou tranquila foi saber que ela entendeu que perder o celular foi uma fatalidade, e não culpa minha. Saber que eu tenho condições de comprar outro celular também me confortou. Quer dizer, não sendo um IPhone, pelo menos.
A questão que realmente me fez refletir nessa situação foi me dar conta de que perdi minhas informações pessoais. Muitos textos e pensamentos no bloco de notas, contatos do whatsapp, conversas e fotos. Muitas fotos. Eu tinha foto da minha viagem para Santa Catarina, quando fui visitar uma amiga, fotos da minha gata filhote, fotos com matéria da faculdade, fotos das festas e passeios em que fui, sem contar as imagens que tinha salvo do facebook e instagram. As tatuagens que eu queria fazer se perderam junto com meus dados nos aplicativos de banco. Torço para terem apenas apagado tudo que havia naquele celular antes de venderem em uma boca de fumo.
Várias pessoas me perguntaram “mas Brenda, você não salvou seus contatos no Google?”, “Poxa, e o dropbox?”, “como assim você nunca fez backup?”. Por incrível que pareça, na semana anterior, eu pensei em passar todas as minhas fotos para um pendrive e levar para imprimir no Wallmart, mas acabei enrolando e decidi que faria isso no final de semana. Só que não deu tempo. O show foi numa sexta e no sábado só havia lágrimas de recordação.
Se eu estava sentindo que ia perder meu celular? Claro, que não! O furto foi uma fatalidade, culpa de um delinquente que achou justo tirar algo de uma pessoa distraída. Talvez fosse algo que eu pudesse evitar, naquele momento, não sei. Analisando friamente, quando se anda de ônibus e se faz faculdade à noite, é bem esperado que isso aconteça alguma vez. Vivo em uma cidade com muitos problemas sociais, onde assaltos e furtos se tornaram tão frequentes que viraram banalidades. Aprendi que algumas ruas devem ser evitadas, e pessoas devem ser analisadas e estereotipadas com intuito de prever potenciais perigos.
Ser vítima de furto não é algo da qual eu possa ser culpada. Mas a verdade é que eu sou culpada por não ter me preparado para perder minhas informações. E se fosse uma queda ao invés de furto? Meu celular poderia ter caído e quebrado ou ter caído em uma poça com água. Imagina se eu simplesmente esquecesse o celular em algum lugar? Muitas coisas estão fora do meu alcance, mas ter feito o backup era algo simples que eu realmente poderia ter feito.
Não foi uma questão de ignorância desses meios, que inclusive são super acessíveis. Foi um misto de preguiça e a velha arrogância de achar que nada de ruim vai acontecer conosco. Alguns amigos meus já tinham sido roubados e/ou furtados, e tantos outros estão com o celular em cacarecos devido à quedas, então eu conhecia bem o transtorno que era perder um celular e tudo aquilo que está guardado nele. Não foi mesmo por falta de aviso.
Eu percebi também, que muitas vezes na minha vida eu agi desse jeito, ignorando conselhos vitais ou repetindo erros bobos que eu já tinha visto outra pessoa cometer. “Vigie seu copo”, “Leve um casaco”, “Não pegue carona com quem bebeu”, “Não saia com estranhos” são apenas alguns dos conselhos que eu acabei ignorando por algumas vezes. Não só eu, mas um monte de gente também, que embora tenha consciência, tem preguiça de se resguardar o mínimo possível que seja.
A vida adulta é de uma rotina tão enfadonha, que por vezes, a adrenalina da inconsequência é ativada só para nos lembrar que estamos vivos. Gostamos de agir por impulso, porque pensar nas consequências é chato. Implica em planejamento, em análises, em perder um tempo que poderia ser gasto com outras coisas. Viver riscos é ótimo, mas a verdade é que vivemos alguns riscos que não valem tanto assim.
Perder dados de um celular é pouco, quase nada, quando penso nas coisas perdidas por aí que realmente são sérias: saúde, bem estar, relações familiares e amorosas, dinheiro, a tão estimada imagem social… Quantas pessoas eu conheço que perderam algo pela inocência de não pensar em como lidar com as consequências das suas atitudes. Quantas coisas não poderiam ser evitadas se ao menos a gente pensasse mais um pouco…
Não é e nem deve nunca ser uma questão de medo ou de privar-se dos prazeres mundanos, da vida louca que levamos. É apenas uma questão de perceber que lidar com as consequências é uma obrigação natural, e então buscar maneiras de suaviza-las deve ser automático em nossos pensamentos. Faz parte da maturidade, também. Talvez seja um ponto de vista um tanto quanto estóico demais, mas é fato que coisas ruins podem acontecer conosco o tempo todo, muitas vezes, inevitavelmente. Só cabe a nós aprender a lidar com isso da melhor forma possível.
Originally published at brendaharrisblog.blogspot.com.br on July 26, 2015.