Ser mãe de dois é uma delícia!
Em meados do ano passado, minha vida mudou drasticamente. Eu estava começando a morar sozinha — com visitas da minha mãe três vezes por semana, e experimentando um pouco daquele sonho que sempre tive. Pode parecer estranho mesmo, mas desde bem novinha eu sempre quis morar sozinha, ter uma casa, algum lugar só meu.
Acho que, na verdade, o que eu sempre quis ter era a minha liberdade pessoal. Poder comer — e beber — ‘o que’ e ‘a hora em que eu quisesse’, sem ter que ouvir algum tipo de sermão sobre vida saudável, poder usar a roupa que eu quisesse pra dormir ou ficar à vontade, e às vezes, não usar roupa nenhuma, são coisas que me acalentam o coração. Passar na Lojas Americanas e ver aquele monte de produtos pra cozinha e comprar, mesmo que você não vá usar nenhum depois, é de uma satisfação indescritível. Morar sozinho é tão bacana, que até a faxina se torna prazerosa… Uma experiência pela qual todo mundo deveria passar, na minha humilde opinião.
Pois bem. Minha vida estava incrível, caminhando promissoramente. Até que um dia, de manhã, indo pro trabalho, algo me atrasou. Esse algo era uma criaturinha indefesa, caída de um carro. Um gatinho que deveria ter, no máximo, dois meses de idade, todo machucado, sangrando e gritando muito. Pensei rápido e calculei que o animalzinho não iria aguentar o dia, se ficasse ali sozinho. Com muito custo, consegui atrai-lo pra perto de mim, e levá-lo até um veterinário que havia no bairro. Chegando lá, o veterinário viu que o rabo do animal estava comprometido e teria de ser amputado. A pata estava quebrada e dilacerada, e levaria bastante tempo para cicatrizar. Um amigo me ajudou, e por fim, levei o gato pra casa. Depois descobri que era uma gata, a pobrezinha. Iria ficar com ela até encontrar um lar definitivo. Só que ela foi ficando. Cresceu, curou pata, rabo, tudo. Ficou linda e gordinha. E acabou me convencendo de que o lugar dela era ali comigo. E então, eu virei mãe.
Eu, que facilmente me acostumei a sair sexta, sábado e domingo, tive que aprender a me organizar. A gata precisava de comida, água, areia limpa, sol… Não dava pra sair na sexta e voltar domingo à noite, como se nada me prendesse. E mais importante, a gata precisava de amor. Muito amor. Animais de estimação não tem esse nome a toa. Eles são estimados pela gente e nos estimam também. Carinho é uma exigência diária pra quem tem um companheiro desses.
Por causa dela, eu passei a apreciar sonecas da tarde e sextas à noite em casa. Sem contar que eu virei uma habilidosa massagista — gatos amam massagem, e são bem críticos se não está legal. As idas ao mercado significavam também lembrar da comida dela, e o moço da loja de ração já tinha gravado meu número e pedido semanal. Morar com a gata virou uma aventura. O primeiro cio, o dia em que ela descobriu a janela, o dentinho de leite que caiu, a companhia pra ir dormir, a curiosidade pra mexer no meu celular…. Desse jeito, eu passei a morar não tão sozinha. Eu e a gata, que acabou ficando sem nome, mas nunca sem beijo na testa ou ração no pote.
Acontece que me mudei, vim morar numa casa que tem quintal. E nesse quintal, eu estava mantendo água, ração e paninho para um gato que estava na rua. O tal gato praticamente me abordou, um dia quando eu estava chegando da faculdade, e começou a miar querendo puxar assunto. Eu já tinha visto o mesmo algumas vezes, mas nunca parei para olhar mesmo. Ele estava carente e com fome, então eu disse “Olha, eu moro ali. Posso te dar comida e um paninho pra passar a noite, se você quiser”. Ele disse “Miau”, que traduzindo deve ser “Quero sim, muito obrigada!” e foi me seguindo até em casa.
Ficamos nesse esquema por quase duas semana. Ele curioso querendo saber quem estava miando dentro da casa, a minha gata curiosa querendo saber quem estava miando do lado de fora, e eu tentando apenas não deixar eles se encontrarem e brigarem. Foi difícil. Meu pai, que é meu vizinho, com quem eu divido o quintal, reclamava diariamente sobre o gatinho, porque a ração dele atraía outros gatos da vizinhança e por ser carente, ele queria ficar se roçando nas pernas da gente o tempo todo, proporcionando tombos ou quase tombos. Gatos realmente não são indicados para pessoas que não se equilibram bem.
No fundo do meu coração, eu queria ficar com o gato. Mas eu sabia que minha gata não iria aceitar. Fiquei preocupada com arranhões, machucados, brigas, ciúmes. Minha gata era filha única e extremamente mimada. Da vez que ela viu o gato pela frestinha da porta, cheguei a confundi-la com uma panela de pressão, de tanto que ela chiou. Por fim, me contentei em ter essa vida dupla, criando um gato pra mim e um pro mundo.
Só que, esse sábado, quando estava entrando em casa, algo aconteceu. Eu estava com dor de cabeça, cansada, chegando da casa de uma amiga. Abri a porta para entrar e quando olhei, vi que o gato estava do meu lado. Perto de nós, minha gata com olhos bem arregalados. Como eu não estava afim de me indispor com nenhum dos dois, pensei “Ótimo. Chegou a hora da verdade”. Tranquei a porta, coloquei ração em dois potes e rezei baixinho para que eles não se matassem enquanto eu dormia.
Hoje já é quarta-feira, enquanto eu escrevo esse texto, e posso dizer que está tudo indo muito bem aqui em casa. Já rolou estresse, já rolou unhada, rosnados sem fim e até insônia a gata teve. Como o gato vivia na rua e é crescidinho, estava acostumado com outros animais e levou a situação numa boa. Ela, por outro lado, teve dois baques, o de conviver com outro animal e o de perder o posto de filha única. Deve ser difícil, mas acho que agora ela está se acostumando com a ideia de ter um irmão.
Para mim, ser mãe de dois não está sendo fácil. Cada um tem uma personalidade, um horário de querer brincar, comer e dormir, e eu tenho que atender aos dois, sem deixar rolar ciúme. É difícil, porque por mais que eu tente explicar, eles não entendem… Gato só entende aquilo que quer mesmo, e de preferência, entendem melhor se tiver patê sabor atum envolvido.
Essa coisa toda, porém, me fez perceber algo eu já sabia, mas que tinha ficado esquecido por aí: que quanto mais você divide seu amor, mais ele aumenta em você. E é engraçado perceber o quanto isso vale para um monte de situações na nossa vida, algumas até mais difíceis que simplesmente ser mãe de dois gatos.
Originally published at brendaharrisblog.blogspot.com.br on July 26, 2015.