Maria

Quando garotinha, Maria queria ser astronauta. Ela adorava sentar-se na calçada de noite e observar as estrelas. Ela as admirava sempre que podia, e por incrível que pareça não por seu brilho ou sua beleza nata, mas por sua independência de estar noite sim, noite não no céu azul escuro. Mas, como na maioria das vezes, Maria perdeu o olhar esperançoso e ambicioso de sua infância. Talvez por rotina ou por simples distração, ela esquecera seu sonho tão rápido quanto uma estrela cadente passando no céu. E seguiu sua vida.

Nunca havia sido completamente infeliz, mas também nunca plenamente realizada. Havia se formado em enfermagem, como seu pai queria e agora estava noiva. Noiva de alguém que sequer amava genuinamente, mas que por conforto e acomodação, pareceu a escolha certa. Seus dias tinham um tom acinzentado e ela simplesmente os sobrevivia (há muito já não sabia o que era viver realmente), mas ela seguia em frente. Não podemos ter tudo, ela pensava. No fundo sabia que não deveria se contentar com pouco, mas se sentia ingrata ao reclamar da vida que tinha.

Então ela se casou. Com 30 anos, como se espera de uma boa mulher. Seus dias de felicidade estavam cada vez mais escassos e quando vinham, eram como uma anestesia. Porque vocês não têm um filho? Todos perguntavam. Vai te fazer feliz, eles diziam. E então, como se fosse fraca demais para recusar, ela aceitou a sugestão e tentou até conseguir. Subitamente, todos pareciam ser especialistas em gravidez, com todos os olhares reprovativos e críticas mascaradamente construtivas. Mas, apesar disso, a criança nasceu bem.

Quem não ficou bem foi a mãe.

Uma boa mãe cuida do filho, eles diziam. Porque você não é feliz? Olha tudo que você tem, eles diziam. Sai dessa cama. Porque você não é uma esposa melhor? Você acha justo colocar esse peso em seu marido? Coitado.

E cada dia parecia pior. Maria se sentia figurante no filme de sua vida. Nada mais valia a pena. Não via motivo para sair da cama e nem para se alimentar. As pessoas se distanciavam. As lágrimas vinham mais vezes e ela se amava cada vez menos. Os antidepressivos não funcionavam e sua figura foi sendo cada vez mais deixada para trás. Mas apesar de o tempo não curar, ele ameniza.

Com muitas sessões no terapeuta, depois de duas tentativas quase sucedidas de suicídio e incontáveis mudanças nos antidepressivos, Maria parecia melhor. Não estava curada, porque até os melhores pontos deixam cicatrizes, mas já estava levemente acima do ponto do poço em que se encontrava. Mas, para o censo geral, ela havia perdido sua vida. Que vida, afinal? Seu filho já tinha sete anos e ela já tinha 45. Já não tinha em seu olhar a inocência dos 20 nem a sabedoria dos 50, mas ela seguia.

E então chegou o dia. O dia em que tudo mudou. Tinha uma consulta no terapeuta naquela tarde amena, mas foi cancelada. Então, pensou em voltar à sua casa e fazer uma surpresa ao marido.

Quem se surpreendeu foi ela.

É de praxe que muitos homens procuram reviver sua juventude perdida em mulheres mais novas, mas Maria achou que fosse diferente. Carregava um vaso com uma violeta que se quebrou, mas nenhuma lágrima saiu de seus olhos. E de uma hora para outra, tudo fez sentido. Era uma epifania.

Pegou suas chaves, um casaco no quarto e se recusou a ouvir as desculpas esfarrapadas. Saiu de casa com um sorriso no rosto. Ela libertou-se. De tudo e de todos. Dos julgamentos, críticas, ordens, opressões. Arrancou as amarras que desde que nasceu a impediam de voar. E então ela descobriu.

Descobriu que seria como aquelas estrelas das noites quentes e úmidas de verão. Seria independente. Ela seria o próprio brilho de seu céu azulado, porque no fundo, nós nascemos e morremos sozinhos, e seria um desperdício gastar tempo não amando a sua única e mais verdadeira companhia.

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