Um homem, um cachorro e um papelão.

Num desses dias normais de paulistana, estava andando pela avenida paulista e uma voz invisível me chamou a atenção. Na verdade essa voz não me chamou, mas eu pude vê-la naquela imensidão de gente, gritando por algum tipo de necessidade que eu nunca havia conhecido. Procurei entre os vários rostos que passavam nessa avenida que é a mistura de todo o povo de são Paulo e encontrei.

Era um homem no chão, de cabelos grisalhos e barba comprida que combinava com a cor do cabelo. Seus olhos castanhos estavam cansados e a sujeira em sua pele reforçava as rugas que ele ganhara com a idade. Suas roupas estavam rasgadas e provavelmente não só elas. Ele também provavelmente estava rasgado por dentro. Ao seu lado, estava seu fiel parceiro de papelão, um cachorro magro que de patinhas sujas e rostinho carente dava carinho ao dono. E o carinho do amigo parecia ser a única coisa que ele tinha.

Ironicamente, a cena me chamou a atenção e eu me aproximei. Ninguém mais olhava para eles, o homem nem pedia dinheiro, mas todos lhe viravam o rosto quando passavam. É o tipo de invisibilidade moral que nós, mesmo que inconscientemente praticamos todo dia com alguém. Nós evitamos o que consideramos feio porque dói. Dói sentir que somos privilegiados e dói ver apesar de podermos ajudar, na maioria das vezes não queremos ou fingimos não poder, e então nós fechamos os olhos para tudo numa tentativa desesperada de se redimir por uma realidade social maçante e podre.

Quando cheguei mais perto e comecei a acariciar o pequeno amiguinho, o homem parou e me olhou com um olhar de curiosidade e ao mesmo tempo de simpatia por mim. Tirando a mão do cachorro, ele me olhou e deu uma risadinha. Olhei para ele com interesse, um que ele não via há muito tempo e me lembro das exatas palavras que ele disse:

-Não tem medo de mim?

Olhei para ele com surpresa e também com certo receio da resposta que daria. Medo? Porque eu teria medo? Ele era uma pessoa, tinha carne e osso como todo mundo que eu conhecia e por mais que ele fosse tratado como se não existisse, eu o estava vendo, com uma carapaça de quem foi maltratado pelo tempo e pelas pessoas. Eu o via muito claramente e apesar da multidão de gente atrás de nós, eu via sua individualidade e eu a respeitava.

-Porque eu teria medo?

-Se não é medo, o que é? Porque fogem de mim? Porque os pais seguram mais forte a mão das crianças quando passam do meu lado?

Eu o olhei e não soube o que responder. Ou melhor, não soube como responder. Como se explica como alguns veem tanta humanidade em algumas coisas e tão pouca em outras? Como explicar que ele era um marginal nessa sociedade caótica? Vendo meu desconforto, ele tentou desviar o assunto.

-Sabe, deixa para lá, eu tenho tudo que eu preciso.

Mais uma vez surpresa, eu o analisei ainda mais e perguntei:

-Tem?

Ele me olhou e deu risada.

-Se eu tivesse um carro, uma família e uma casa eu teria tudo o que eu preciso?

Eu olhei para o prédio enorme que estava atrás dele e refleti. Será que alguém tem tudo o que precisa? Porque na minha visão, o sucesso sempre foi uma ilusão, mas eu sempre havia sido meio peixe fora d´água então não contava.

-Não foi o que eu disse- Eu afirmei- Só digo que acho que ninguém tem tudo o que precisa.

-Eu já tive tudo isso- Ele me respondeu sério- Carro, esposa, casa. De alguma forma, eu nunca tive nada, e agora eu tenho.

-Você está aqui por opção?- Perguntei com certo desdém não proposital.

-Eu me cansei da vida comum. Me cansei dos cumprimentos vazios e das vidas corridas. Me cansei de nunca ter o suficiente. Muitos não tem condições e os poucos que tem são movidos por essa sede de ter sempre mais e mais.

-Mas como você se alimenta? Como dorme no frio?- Perguntei preocupada

-Como dá.

Nessa hora meu telefone tocou e eu tive que ir embora. Aquele homem me fascinou de tal maneira que eu queria saber mais. Ele despertou em mim uma sensação de que não precisava de muito para ter tudo e aquilo me impressionava porque eu sempre fui atrás de mais por pensar ter pouco. Então depois de uma semana eu voltei naquele mesmo lugar em que o havia encontrado.

O papelão ainda estava lá, e o cachorro também, uivando em tom sofrido. Chocada e sentida, olhei e cheguei a única conclusão que se podia chegar. Mas não podia ser, ele estava lúcido e apesar de tudo não parecia ter nenhuma doença grave nem nada do tipo. Fui a uma loja que tinha lá perto e perguntei ao caixa o que tinha acontecido.

-Olha, o que aconteceu eu não sei. Outro dia ele estava deitado no chão e o cachorro não parava de tentar acordá-lo, mas ele nunca acordou. O carro da prefeitura passou por aqui ontem levando o corpo.

Eu estava horrorizada.

-Mas como? Como ele faleceu?

-Moça, ninguém se importava, você vai levar alguma coisa da loja? Porque tem uma fila atrás de você.

E então eu saí boquiaberta. Olhei o papelão, o cachorro e a multidão. Aproximei-me do cachorro que me reconheceu e veio meio choroso me oferecer carinho. Decidi ali que o levaria para casa. Olhei para ele com um amor que eu sabia que ele corresponderia e com minhas mãos em suas orelhas eu percebi que o homem havia morrido nas patas de quem o amava.