Mais dois cafés, por favor

Bia Garcia
Aug 22, 2017 · 2 min read

Chegou ao local combinado e ficou de longe só esperando a hora em que ela iria aparecer.
Deixou escapar um suspiro e aquele risinho de lado que logo denunciaram o que trazia no peito.
Ela veio surgindo, andar meio torto, olhando pros lados, criança que procura a mãe na saída da escola.
Criou coragem, seguiu em frente. Abraço apertado, sorriso sem graça, coração em descompasso. Quem diria?
Minutos suspensos no espaço, descontrole: inspira, expira.
Tomou as rédeas e propôs que seguissem de mãos dadas - leve encontro de mãos suadas.
Dois adolescentes entre centenas de pessoas, como se não houvesse mais ninguém por ali.

Depois de anos, um primeiro encontro. Ele ria. Ela relembrava algumas passagens da história deles. Quem diria?
Restaurante lotado, tensão no ar... Pediram a comida, mas perderam a fome.
Piadinhas, conversa jogada fora, olho no olho e corpos separados pela bendita mesa de madeira.
Mãos coladas, carinho, bochechas rosadas, mais carinho.
Pediram a conta e saíram: casalzinho, corações a mil.
Café? Sim, por favor. Mesa pra dois? 'Sim, nós dois’.
Sentaram-se lado a lado, ótima pedida para um abraço. Rostos colados, respiração ofegante, suspiros.
Enfim os cafés: puro pra ela, 'inclusive nas limonadas’, ele riu. Dois sachês de açúcar pra ele, 'ainda não me libertei desse mal’, foi a vez dela rir.
Palavras sumiam, conversas sem nexo, desejo à flor da pele.
Ela não se continha ao se aproximar, ele tentava não se entregar, até que, saltando dos poros, café, paixão, nervoso... o beijo. Entre falas cortadas por roçar de rostos e lábios sedentos, do jeito que sabiam que seria.
O silêncio só era interrompido por sorrisos dele e frases dela, atrapalhada, tentando se justificar. Como se houvesse explicação, como se pedissem entendimento.
'Mais dois cafés, por favor’. Já não tinham mais a desculpa por estarem há mais de uma hora naquele lugar.
Outros abraços, mais beijos, infinitos carinhos. Gostos, cheiros, sensações, intensidade. E aquele momento isolado no tempo, distante de tudo e de todos.

Hora de ir, voltar pra realidade.
Com certa dificuldade se despediram: beijo na testa, beijo no rosto, mãos se separaram trêmulas.
'Então tá’, foi a frase. E agora o quê? Ela para um lado, ele para o outro.
No caminho de volta uma mensagem no celular dele: 'Eu não deveria ter deixado você ir.'
Bobagem... É que ela ainda não tinha se dado conta de que, independentemente daquele encontro, ele voltaria pra ela sempre. Pra sempre.

)