futuro do presente ao mar

parece que agora me demoro aqui em excesso, de frente pra ele de novo, de frente pra esse horizonte conhecido meu. querem me tirar daqui às vezes, me perguntam se não mudo de cidade, se não mudo de ares, se não vou embora, e nem cogito. nem cogito nada. na verdade mal faço planos. sei que o concreto virá atrapalhar os planos esplêndidos para pôr no lugar soluções imediatas e drásticas e o que tiver de ser. escrota demais essa expressão, o que tiver de ser. acho covarde. mas sei que essa hora virá, esse tempo daí, esse futuro do futuro meio pra ontem, que me apressam. eu fico aqui e me demoro. finjo que ele não vem. fico de novo frente ao horizonte frente ao mar frente a esse azul que às vezes é claro às vezes é bem escuro às vezes é meio verde. a coisa mais bonita do mar talvez seja essa. ele é belíssimo e muda a cada dia. ele é belíssimo porque muda a cada dia. ele dá medo e abraça. ele dá medo enquanto abraça. grita e assopra a ferida recém aberta. me recebe e me abraça enquanto eu sou inteira uma ferida recém aberta. uma pele exposta muito franca muito rósea muito frágil e que até brilha um pouco, devido à nova pele.

agora penso num será, num será se estou me fazendo nova, e portanto esse novo agora em que me demoro tanto olhando em frente olhando o nada olhando pra dentro de mim — faço esses três ao mesmo tempo. só se pode fazer esses três ao mesmo tempo, digo, exijo.

me demoro.

e sinceramente penso se me consigo sair daqui. se me consigo levantar e pôr de volta a vida no lugar. pegar nos braços pegar no colo feito criança muito nova e arrumá-la para o dia. tenho dúvidas se consigo arrumar novamente a minha vida para o dia, para os dias. há mais desânimo e apatia que desespero, e sinceramente (outra vez) (na verdade num sempre) não sei qual fase pode ser melhor para mim, para o agora, para o futuro do presente. o que certamente virá.

se desespero busco em excesso e quero o resolver do tudo. aproximo corro peço refaço e, claro, erro em demasia. ansio. nem existe esse verbo, vejo que me corrige aqui. ansio. não? eu ansio, tu ansias, ele ansia. todos ansiosos no discurso. pois quando não desespero eu faço o oposto que a própria palavra anuncia: não espero. sem desespero não tenho espera nem esperança dum nada. sigo o baile que nem existe. mas não peno nem ansio nem fico insone nem choro largamente. choro silenciosamente. é um quadro que consola.

permaneço ainda aqui num tempo que já não sei quanto tempo faz. peço um tudo dando certo mal sabendo que tudo pode ser esse. repenso as decisões que tomei e mais ainda as que deixei prum depois. o pedido de volta e o tamanho atraso. o tamanho baque cara no chão. ainda dói excessivamente mas parece que as feridas expostas, a carne crua, a pele rósea, acostumaram-se ao agora e até me deixam em paz. mas ardem. e quando deito toda noite me lembram estarem ali, roçando nos lençóis que me lembram o quanto ainda vou só.

aí permaneço. aqui. mais só mais eu mais nada mais lugar sem espera enquanto se finge que vive e existe. enquanto se acredita em algo que nem se sabe sê-lo. confiante num futuro do presente que possa vir que possa me dizer o que fazer. se me levanto e pra onde vou. se penso demais nisso quase desespero. quase. o desespero parou de caber.

permaneço.

mar à frente areia pouca e tempo que penso infinito. talvez haja uma ressaca. um afogamento. um chamado. ou até mesmo um retorno ao concreto,

e uma sequência de mais movimento nesse futuro do presente que já vem.

Foto: Pedro Andrade