Salva vida
É como se eu precisasse ser salva, entende?, me dou conta desse insight e quase acordo, até, mas em seguida amoleço um pouco ao também ter o insight óbvio de que só eu posso me salvar, de que essa é uma situação em que não existe um Outro poderoso assim. Não existe nenhum Outro verdadeiramente poderoso sobre o que a gente é e sofre; quando deixamos que isso aconteça, a gente sucumbe num logo depois, e por causa disso.
E nessa sanfona de insights e sonos perfaço a mesma sanfona de tentar me salvar e desistir, de aproximar o nado à superfície ou de deixar que o afogamento cumpra logo o seu papel. É assim que me sinto nesse agora, em uma fadiga extrema como se eu nadasse em mar impossível, respirando num quase nunca com a cabeça para fora da correnteza; um fadiga ainda maior de acreditar que conseguirei emergir por completo algum dia, mais à frente; e um sufocamento absoluto.
É exatamente isso que me tem acontecido, um sufocamento, e há meses. Um sufocamento de futuros que já viraram passados — pois, como dito, já um tempo se faz; sufocamento de planos pessoas rotinas e um amor tão grande. É possível não sufocar depois de um amor grande inexistir?
Enquanto nado, afogo, sufoco, respiro sem calma, penso umas vezes infinitas se a existência se resumirá a esse quadro e se faz sentido permanecer nele, existindo dessa forma. Penso outras infinitas vezes se ainda sou capaz de ver futuro à frente e fora daqui, futuro em sono compartilhado, mesa de almoço, domingo sempre sereno do início ao fim. Num de novo. Penso se volto a existir de novo. É nisso que penso.
Preciso ser salva por uma única pessoa que anda cansada demais até para se perguntar se vale a pena tentar um ainda mais. E enquanto esse salvamento não se faz, nado afobadamente, atabalhoadamente, porque não sei nadar, até hoje. Eu sempre dizia e digo ‘não sei nadar mas não me afogo’, e é somente assim que tem sido.

