Estive pensando qual foi o fator que desencadeou toda essa fixação que tenho por política.

Não cresci em uma família politizada. Na verdade, comecei a explicá-los política quando meu interesse surgiu.

Nunca tive alguém próximo que conversasse sobre esses assuntos. Pra não ser injusta, lembro-me apenas de minha mãe, funcionária pública, reclamando do governador de São Paulo, Kassab, certa vez.

Mas, se a política é de todos, como passei tantos anos sem ouvir as pessoas que me cercam discutindo sobre ela?

Simples: política é um assunto bastante elitista ainda.

Entendê-la, pelo menos de verdade, requer uma boa quantidade de informações prévias. Requer educação e, principalmente no início, muita paciência. Exige um bom domínio de história, pelo menos no Brasil, porque a história do nosso país é muito atrelada à história da nossa política. Tais fatores, especialmente devido à educação frágil que é disponibilizada à maioria da população, são raríssimos.

Comecei a gostar de política por causa do meu feminismo.

Em 2014, apaixonei-me por História em uma das épocas mais conturbadas de minha vida pessoal. Num período no qual eu me sentia desinteressada e incompetente em tudo, as aulas de história eram o ponto alto da semana; a única coisa que me trazia interesse.

Nesse período, conheci o feminismo.

Desde muito nova já era uma feminista, mas só hoje percebo isso. Certa vez, meu pai falava com uma motorista pelo Nextel e aconteceu o seguinte diálogo entre nós:

– É uma mulher?

– Sim, filha.

– E é motorista de caminhão?

– Sim.

– Yesssss!! Isso é pra mostrar que as garotas podem estar em todos os lugares!!!!

Hoje eu acho engraçado e bonitinho, mas também me questiono: como eu percebi, naquela idade, que algumas pessoas achavam que certos espaços só podiam ser ocupados por homens?

Enfim, o feminismo foi-me apresentado através de uma das minhas coisas favoritas da vida: a música. E digo mais: a música pop.

Apresentação de Beyoncé no MTV Video Music Awards, em 2014.

Na minha pré-adolescência, tornei-me uma consumidora assídua da cultura pop: participava de grupos de fãs, assistia premiações, sabia dados de vendas, datas de lançamentos…

Em uma dessas premiações, Beyoncé fez uma grande performance com diversas músicas de seu último álbum lançado até então. Entre elas, Flawless.

Em Flawless, Beyoncé critica a rivalidade feminina a qual somos submetidas desde cedo. Para dar ainda mais peso à sua mensagem, ela inseriu no meio da música um excerto de uma palestra de Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana muito conhecida por obras feministas.

Foi aí que pensei: “se Beyoncé tá erguendo essa bandeira, bicho, e eu concordo com tudo que ela diz, por que eu não tô erguendo também?”

Inclusive, por isso que é tão importante artistas se posicionarem: eles são veículos de informação gigantes. A opinião deles importa!

As aulas de história trouxeram Maio de 68 e a Queima de Sutiãs, que acarretaram em fortes discussões, que só me mostraram o quanto eu acredito na luta feminista e na importância de todo esse movimento.

Desde então, procurei me inteirar cada vez mais sobre as pautas e discussões feminista. Aprendi sobre as vertentes, percebi que eu reproduzia comportamentos machistas, mudei meus hábitos e pensamentos, passei a reconhecer com mais facilidade o machismo que nos cerca… foi uma porta de entrada bem importante, porque hoje o feminismo é uma característica quase inerente ao meu ser. É uma bandeira que não abaixo, nunca.

Meu feminismo e Dilma Rousseff

No meio de todo esse período de descoberta, no qual eu passava almoços com minhas amigas planejando a derrubada do patriarcado, foi iniciado o processo de impeachment da presidenta eleita Dilma.

A questão é que todo processo foi tão recheado de misoginia que foi humanamente impossível pra mim me abster.

Passei a acompanhar as votações na câmara, no senado, a participar de diversas discussões e, inclusive, a chamar de golpe.

Foi, provavelmente, nesse episódio que pra mim ficou muito clara a discrepância de tratamento entre homens e mulheres, especialmente quando essas fazem algo “errado”: a tolerância é muito menor e as cobranças são muito mais fortes, transcendendo para âmbitos pessoais, inclusive.

Dilma sofreu com comentários maldosos sobre sua aparência física, o que nunca sequer deveria ter sido questão. Teve de lidar com assédio moral, ameaças físicas, inclusive de estupro. Na votação na Câmara dos Deputados, um deles homenageou a memória de seu torturador, Carlos Brilhante Ustra — e esse deputado, hoje, é nosso presidente.

É por todas essas questões que defendo o posicionamento político de artistas, especialmente quando se trata de assuntos tão nocivos à sociedade. O machismo mata. É por isso, também, que todo movimento está atrelado à política e que é tão importante esta ser discutida e estudada. Ela nos afeta diariamente. E acredite: o que eles mais querem é que você não entenda nada sobre ela — assim é mais fácil deles te manipularem.