Arrumar a cama, amarrar o robe

Sabe, eu cansei de ficar deitada com as costas afundadas naquele sofá que já está envelhecendo, sentindo o cheiro de “cabelo” daquelas almofadas tortas e jogando Angry Birds, que nem é um jogo legal e ainda me dói o dedo. Em dias de depressão, era isso que eu ficava fazendo a tarde toda. Aí ia pra cama tarde, sem banho, sem lavar o rosto com meus sabonetes específicos e sem passar meu ácido retinóico que eu tanto pedi pra médica prescrever, pra dormir mal e acordar culpada. Quase todo dia isso, quase todo dia esse sentimento de fracasso.

Aí um dia eu li um texto da minha amiga no Buzzfeed, que falava de arrumar a cama diariamente e aquela ideia me deu um negócio. Porque eu fui ver que, toda vez que eu arrumava a cama, ou eu postava no Instagram ou, pelo menos, fotografava a cama arrumada, como se quisesse tapinhas nas costas pela minha realização. E quando eu ia dormir nessa cama arrumada, meu deus, como era bom!

Teve um dia que a Zelina saiu de férias e mandou a irmã no lugar. A irmã, Neide, arrumava a cama feito de hotel — travesseiros afofados dispostos verticalmente na cabeceira, mais travesseiros na horizontal, edredom com colcha por cima, NEIDE DO CÉU. Quis dormir imediatamente naquilo. Chamei ela no quarto, elogiei, comemorei o aprendizado e passei a arrumar a cama diariamente, mudando o estilo da arrumação a gosto. Aí notei que, quando arrumava a cama, dificilmente me deitava no sofá à tarde.

Eu não sei explicar o por quê. Ouso apostar que é porque minha cama ficou mais convidativa que o sofá, e eu acabava me programando para ter algumas horas de descanso à tarde, antes de voltar a trabalhar. É um caminho, dizia meu professor de (não lembro do que era a aula dele) na faculdade.

Muito bom recomendo

Aí outro dia eu tava lendo sobre como a nossa postura nos faz acreditar que nossa autoestima não é aquela bosta de sempre, até vi um TED a respeito, sugerido por uma colega, e fiquei matutando. Como é de costume nas minhas manhãs, estava usando meu roupão de banho, que amarro logo abaixo do peito e fico parecendo um barril. Naquele dia, olhei praquilo e pensei “uai, por que não amarrar na cintura?”, e foi o que eu fiz. O barril virou ampulheta, o decote abriu, mas que mulherão da porra estava embaixo daquele monte de pano. Foram alguns centímetros de mudança e eu não estava mais me sentindo aquela parturiente cansada de birote no cabelo, mas uma gostosa que prende os fios displicentemente e deixa um seio quase à mostra.

A gente fica rodando em volta de soluções miraculosas, remédios que irão nos tirar dessa lama que é a vida, e a resposta tá aí, naquele dever que a gente achava um porre quando a mãe mandava fazer. Na amarração do robe, meu deus do céu. Na amarração do robe.

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