Leo

Eu não lembro das coisas exatamente como foram, porque faz muito tempo que isso aconteceu, e por isso vou contando do jeito que lembrar. Alguns amigos me falavam, à época, “escreve essa história, ela é muito estranha pra deixar passar”, mas a gente vai botando de lado e perdendo os detalhes até que não se lembra de quase mais nada. Se encontrar meus históricos de MSN (sim, eu salvava tudo, mas é possível que tenha posto a mão na consciência por um minuto e apagado a maioria), apuro as informações e atualizo este post.

se eu der google no nome dele, aparece isso

Minha história de catfish durou dois anos e, 14 anos mais tarde, começo a suspeitar que fui enganada. Ou será que fui mesmo? Crença é uma maldição.

Era entre março e junho de 2003, lembro porque eu trabalhava numa agência de publicidade imobiliária no Alto de Pinheiros, um lugar horroroso que me pagava mal e me obrigava a conviver com os piores espécimes humanos. Era a época em que o Fotolog saiu do modo beta e eu fiz uma conta. Eu não sei exatamente porque relaciono o surgimento do Leo na minha vida ao Fotolog, porque tenho quase certeza de que ele me pediu amizade pelo MSN; talvez as coisas tenham acontecido no mesmo dia. Aceitei rapidamente, e explico porque: na época vivia um relacionamento onde o cara não me dava lá muito valor, e eu gostava de ter cartas na manga pra fazer o proverbial “ciuminho”, na esperança dele me valorizar. Risos.

Leonardo Zagaia* era um rapaz mais ou menos da minha idade, que morava em São José dos Campos e trabalhava na Johnson & Johnson. A namorada dele, Ana Carolina Bittencourt, era filha do braço direito do diretor internacional, e por isso ele desfrutava de um bom cargo na empresa. O relacionamento deles era bastante conturbado, ele apresentava ela como uma menina mimada, filha única, egoísta e teimosa. Ele, era um coitado que anuía a todos os caprichos da mocinha. Tinha um lance dela ficar entre S. José e Nova York, ou New Jersey, que era onde o pai passava a maior parte do tempo a trabalho. Ela estava grávida e logo teria o bebê, uma menina que ele decidiu batizar com o meu nome alguns dias depois de me “conhecer”.

Começamos a conversar diariamente pelo MSN, às vezes flertando, às vezes um ouvindo os problemas do outro. E os problemas eram diários, da parte dele. Na tentativa de confirmar se ele realmente era quem dizia ser, cheguei a pedir para que me mandasse produtos da lojinha interna da Johnson’s, coisa que um amigo que trabalhava no escritório de São Paulo fazia sempre, e ele cumpriu. Pedi produtos caros, que normalmente sairiam mais baratos para os funcionários, e ele me enviou como presente — ou seja, ou ele realmente trabalhava lá, ou tinha grana pra bancar esse hoax. Claro, eu também pedi fotos, mas elas eram sempre as mesmas, quando não eram tiradas de sites de festas. Se eu ainda tiver alguma coisa, jogo no Google pra confirmar.

Conhecer a Carol foi uma história à parte, dessa vez eu sendo o catfish do catfish. Eles estavam mais uma vez brigados e eu, com minha vocação pra me enfiar em treta alheia, me dispus a conversar com ela para acalmar os ânimos. O motivo era ciúmes de mim, então queria mostrar que eu não oferecia perigo, que era “casada” e não tinha interesse no Leo. Então eu a adicionei no ICQ e me passei por uma pessoa qualquer que a encontrou naquela ferramenta para encontrar amigos aleatoriamente ao redor do mundo. Conversamos por alguns dias e eu resolvi abrir o jogo. Ela ficou puta comigo, mas depois nos falamos por horas ao telefone e tudo ficou bem.

Cheguei a falar com o Leo por telefone, também, e curiosamente ele tinha voz de… menina. Na época, era somente um dado engraçado. Hoje, pra mim é a prova cabal. Falávamos até que regularmente, e eu convidava ele e a Carol para virem a SP, para sairmos, quando eles estavam de boa. Nunca dava certo. Às vezes, ele até aceitava o convite, mas de última hora uma briga, ou uma febre do bebê o fazia cancelar o programa.

Teve a época em que o pai do Leo morreu e, claro, ele ficou muito abalado. A família dele era de Florianópolis, mas morava em SP. Já meus pais, era o contrário, então coloquei minha mãe à disposição para ajudá-los no que fosse necessário. Mais uma vez ele foi enrolando até a oferta perder a validade. Acho que era uma forma de eu não desconfiar, e funcionava muito bem.

A partir daí, as coisas começam a ficar mais nebulosas e lembro cada vez de menos detalhes. Mas foi meio assim: ele terminou com a Carol e ela virou o demônio. Foi embora do Brasil, o proibiu de ver a filha e, certa noite, mandou um capanga atropelá-lo na porta da empresa. Não lembro como fiquei sabendo, mas tinha alguma coisa na história que eu tive que resolver, seja falar pra ele ir ao hospital ou à polícia. Depois disso, ele começou a fazer fisioterapia e se envolveu com a fisioterapeuta. Nessa época, eu já tinha terminado meu relacionamento de 2003 e estava começando outro, naquela fase “estamos nos conhecendo e não vamos assumir nada” (até porque o cara era meu chefe). Um dia, conversando com o Leo, ele sempre reclamando que eu não dava chance pra ele (AH É, tinha isso, ele falava que se eu quisesse, ele largava tudo pra ficar comigo, mas eu nunca quis), e eu, um tanto manipuladora, o desafiei a me mandar alguma coisa no trabalho para provar que ele gostava tanto assim de mim. Ele me mandou um buquê de flores e uma caixa de chocolates imediatamente, e ficou aquele clima de MERDA no trabalho, pois todos achavam que era presente do meu chefe-namorado.

Depois disso, os contatos foram ficando cada vez mais raros, coisa de uma vez por ano. Ele vinha contar que ia casar com a fisioterapeuta, que nunca mais tinha visto a filha etc., eu às vezes não respondia, a coisa esfriou. Nunca mais nos falamos e nunca comprovei se ele existe. Quando jogo o nome no Google, não encontro nada. Ele não tinha Orkut, não tem Facebook, é estranho ser assim. A cada ano que passa, eu tenho mais certeza de que caí num conto bem mal-planejado, ao mesmo tempo genial, e a minha ingenuidade contribuiu bastante para que ele durasse tanto tempo.

Leo, se um dia você der Google no seu nome e cair aqui, conta pra mim o que foi isso?

*Usei os nomes inteiros porque, a princípio, são pessoas que “não existem”, certo?

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