céu

pintaram meu céu de vermelho
uma cor tão forte, tão chamativa, tão trágica
suas nuances me lembravam da guerra
das marcas na sua perna
do batom da minha avó
das unhas daquela mulher
quando azul, meu céu tinha tranquilidade
mas não tanta
sempre gostei do caos, da mudança, do instinto de sobrevivência
da luta diária que é sobreviver a mais uma dose de ignorância
eu tenho medo de quem não sai do lugar
o cheiro da sua colcha num domingo de manhã
é bem parecido com o cheiro da sua coxa num sábado à noite
o cigarro aceso, queimando, sozinho
a janela bate e eu ouço alguém praguejar de longe
não, eu não sou aquela moça que eles contaram
na maior parte do tempo eu sou brava
meu corpo é cheio de marcas
visíveis e invisíveis
e a maciez da minha pele não diz que ela já passou por poucas e boas
a janela bate de novo
agora sou eu que praguejo:
maldito seja quem pintou meu céu de vermelho
