iracúndia

Eu não aguento mais as suas frescuras, você gritou. Deu um chute na porta que me fez encolher ainda mais no canto da sala. O sangue do meu nariz escorreu e sujou meu vestido novo. Aquele que eu quis tanto, juntei dinheiro pra comprar e você me deu de surpresa, porque você tá evoluindo e merece um presente, amor.

Meu coturno preferido tava jogado no meio do cômodo sujo, rodeado das suas coisas preferidas: bebida alcoólica e fumo. Você não serve pra ser minha mulher, olha como essa casa tá imunda. Eu trabalho e estudo longe, você trabalha e volta pra casa, mas os afazeres domésticos são meus, porque mulher serve pra isso, mesmo, né? Pra cuidar da casa. Minhas tias mesmo já diziam, a mulher sábia edifica o lar.

O cigarro queimava sozinho no cinzeiro, ao lado de algumas dezenas de latas de cerveja. Você pegou mais uma e bebeu quase tudo de uma vez. Eu previ que aquela noite ia ser longa, mas já não tinha medo. Era melhor você se desentender comigo, dentro de casa, do que com um desconhecido na rua. Eu não queria você morto. Você me faz tão bem, só tem um jeito meio torto de demonstrar.

02h57 da manhã.

O último golpe de misericórdia. Um soco no meu rosto, um apertão no meu braço e um dedo apontado na minha cara. Você não tem o direito de me desrespeitar. Mulher minha me obedece. Assenti. Um cigarro apagado na minha coxa, um empurrão e eu caí. O choro rolava sem a minha permissão, as lágrimas só escorriam: nem barulho tinha mais. Você me mandou parar de escândalo. Eu tentei. Você não gosta de apanhar na cama, vagabunda? Então tem que gostar fora dela, também. Sem chorar.

Não sei por quanto tempo apanhei. Não sei se perdi a consciência com os socos, se forcei um desmaio, se dormi de tanto cansaço. Não sei quem você me fez virar. No espelho só existe uma mulher desfigurada, cheia de hematomas e machucados. Não me vejo. Vejo você, vejo a marca das suas mãos, sinto o cheiro da bebida e do sexo forçado.

Meu primeiro pensamento é correr. Sair pela porta sem olhar pra trás. Mas você acorda e me puxa pelo cabelo. Ainda tá deitada, mulher? Cadê meu café? Vai. Faz o que você tem que fazer.

Eu não morri ontem.

Eu não morri hoje.

Mas com certeza vou morrer vítima do que você chama de amor.