Google, transtornos alimentares também precisam ser levados a sério

Todos os termos em itálico desse texto, quando pesquisados, resultam em sites com dicas pró-anorexia e bulimia


Há cinco anos, pessoas que pesquisam “suicídio” no Google em diferentes línguas se deparam com uma mensagem.

Need help?

Diferentes termos chegam ao mesmo resultado: “kill myself”, “painless way to die”, “how to die”, “suicidal thoughts” fazem aparecer o telefone da grande ONG de combate ao suicídio de diferentes países, dependendo da localidade de onde você pesquisa.

No Brasil, em parceria com o CVV, pesquisar “como me matar”, “suicídio”, “como se suicidar” faz aparecer uma caixinha com o número 141. “Precisa de ajuda?” aparece na página em português. Os dois primeiros links que seguem apresentam títulos que parecem matérias que incentivam o suicídio, mas, ao clicar, são textos sobre procurar auxílio para superar.

Ao pesquisar “dicas de bulimia”, “como vomitar”, “pró-mia”, “ser anoréxica” “como miar”, “miar emagrece”, “ser bulímica” — em português, francês, inglês ou espanhol — , não há qualquer indicação de que os resultados dessa pesquisa poderiam ser problemáticos nem oferta de ajuda: pelo contrário, os primeiros links são todos de sites e blogs com muitas dicas de como prosseguir. Muitos desses blogs são hospedados no Blogger (.blogspot.com), plataforma gratuita que também pertence ao Google.

Os blogs anônimos “pró-ana” e “pró-mia” se tornaram muito populares na internet. Lembro de já ter acessado muitos desses sites por volta dos 9 anos e vejo que nada mudou ao acessá-los novamente dez anos depois: “planos alimentares” de nf e lf (“no food” e “low food”), nos quais planeja-se dias com 100 calorias; metas de perda de peso gigantescas, uma enorme lista de exercícios aeróbicos por dia; frases e imagens de auto-depreciação; dicas para esconder da família; como vomitar sem que ninguém escute; dicas para não desmaiar de fome, etc.

E, em cada post, uma caixa de comentários lotada de garotas com 9, 10, 12 anos expressando que querem emagrecer, que são chamadas de gordas pelos colegas de classe, pedindo dicas, perguntando se conseguem perder x em n dias, deixando e-mail, cidade e telefone celular… na esperança de mais incentivo. São vários os grupos de WhatsApp para que falem o quão pouco comeram no dia e se apoiem.

(Comer compulsivamente também é um transtorno alimentar, mas esses são — por razões óbvias — pouco incentivados a não ser que venham acompanhados de induções ao vômito.)

O Tumblr é uma rede social conhecida entre jovens por conter muitas postagens sobre depressão, suicídio e transtornos alimentares. Muitas garotas se motivam a partir de páginas desse site, comparando seus corpos com corpos macérrimos postados por lá junto a frases, textos e fotos incentivando a auto-mutilação e a auto-depreciação.

Reconhecendo essa responsabilidade, o Tumblr passou a inserir a mensagem ao lado quando você pesquisa termos relacionados a transtornos alimentares, aconselhando a procurar ajuda por telefone, de maneira anônima em um chat ou desistir de pesquisar sobre aquilo e abrir uma página do Tumblr com postagens positivas sobre transtornos alimentares, esperança e conscientização. A pesquisa sobre suicídio traz sugestões correspondentes.

Uma explicação direta e fundamental

Outra rede social que aderiu à proteção de usuárias e usuários foi o Instagram. Ao pesquisar termos relacionados, surge uma mensagem parecida com a veiculada pelo Tumblr, porém, ao clicar em "saiba mais", o usuário é redirecionado para uma página de ajuda que contém informações longas e detalhadas sobre o que são transtornos alimentares, como reconhecer sinais, o que fazer para tratar e até desmistificando idéias.

O Pinterest não bloqueia as imagens ao buscar pelos termos, mas inseriu um pequeno banner de alerta.

A anorexia é o mais mortal dos transtornos mentais. Sim, é isso mesmo: morrem mais pessoas por complicações devido a anorexia do que a depressão, por exemplo.

De acordo com o Centro Nacional de Informações sobre Transtornos Alimentares do Canadá (Nedic, na sigla em inglês), a incidência mundial de mortes relacionadas à anorexia em mulheres entre 15 e 24 anos é 12 vezes maior que qualquer outra causa nessa faixa etária.

No Brasil e no mundo já se sinaliza amplamente a relação entre as "comunidades online pró-ana e pró-mia" e o agravamento das condições clínicas de transtornos alimentares. Segundo dados norte-americanos, 1 a cada 5 mulheres sofre com transtornos alimentares ou comportamento alimentar disfuncional; 90% das pessoas que sofrem com transtornos alimentares são mulheres entre 12 e 25 anos; 51% das garotas entre 9 e 10 anos se sentem melhor consigo mesmas quando estão “de dieta”. 20% das pessoas que sofrem com anorexia morrem prematuramente de complicações relacionadas a seu transtorno.

Além de tudo isso, ativar o filtro de “busca segura” do Google não bloqueia imagens que incentivam a autodepreciação. Crianças e adolescentes estão facilmente expostos a esses conteúdos caso joguem termos simples na busca.

O que era só uma vontade de emagrecer, com a vasta quantidade de incentivos de fácil acesso, se torna um transtorno mental sério e devasta a vida de muitas pessoas e famílias cotidianamente.

Ainda que o debate sobre a gravidade dos transtornos alimentares tenha menos alcance que a discussão sobre suicídio ou depressão, o Google tem a responsabilidade de filtrar seus resultados e a maneira como são apresentados em sua página, a exemplo de outros ambientes virtuais citados. A falta de posicionamento da empresa só pode ser interpretada como negligência.

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