Mas, Bia, feminista pra quê?

ou "porque meu feminismo não é pela igualdade entre gêneros"


Meu lugar de fala é de uma mulher cis de dezoito anos, branca, classe média, em um relacionamento heterossexual, graduanda em dois cursos de humanas, moradora de um bairro de classe média na cidade do Rio de Janeiro, filha de uma família nuclear quase-comercial-de-margarina (pai, mãe, duas filhas e um yorkshire), de uma religião cristã, e com mais outros trezentos privilégios pra enumerar.

Falo por quem, dessa forma? Só por mim… mesmo. Já digo logo que sou completamente a favor de que eu só use meus espaços de privilégios para pautar opressões se for para empoderar a outras e outros, e não a mim.

O feminismo não é unânime, então acho importante que me posicione. Não me considero feminista radical, e aqui falo da teoria, não de uma radicalidade que me põem (“feminazi!” “extremista!”). Me identifico, em espaços feministas, com a corrente interseccional.

Mas não posso negar que minha visão sobre o que eu luto encontra certa identificação na corrente radical.

Meu feminismo não é por igualdade entre gêneros.

Essa afirmação é muito mais uma retórica pra me posicionar politicamente do que pra dizer que quero que as mulheres dominem o mundo e que quero a castração química de todos os homens e que homem é tudo bosta.


Não me lembro quando foi que comecei a me identificar como feminista. Minha primeira lembrança significativa é a Marcha das Vadias em 2013, que fui a convite de uma tia querida. Ao pesquisar estatísticas para meu cartaz, me deparei com um universo que trazia à frente dos olhos várias situações que perturbavam meu cotidiano.

Um breve momento de cochilo durante a passeata. (Copacabana, Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013)

Lembro de ter visto "não se nasce mulher, torna-se" ali pela primeira vez em uma faixa, sem referência à Beauvoir, e ter me encantado pelo que aquela frase poderia significar. Nem imaginava que seria tanto!

Nessa edição, paralelamente à Marcha ocorria a Jornada Mundial da Juventude, também em Copacabana, e houve uma performance que estampou todos os jornais, na qual pessoas nuas com os rostos cobertos masturbavam santas e sentavam em cruzes.

Voltei da Marcha muito encantada, mas tudo o que ouvia quando tentava contar era "E você estava lá apoiando aquelas loucas quebrando santas? Como vocês querem respeito desse jeito?".

Lembro de um trabalho de Sociologia de um professor muito amado sobre um texto de uma prostituta que não se sentia representada pela apropriação que a manifestação fazia do termo "vadia" e, ansiosa por contar tudo o que sentia, vomitei páginas e páginas de catarse. (desculpa, Léo!)

Pois bem. Quando comecei — timidamente — a me assumir feminista, ainda não estava na faculdade, então meus círculos de amizade não entendiam o que significava. Os que conheciam o termo, em sua maioria, tinham descoberto através dessas páginas na internet que insistem em nos pôr como mal-comidas e feias, o que não me ajudava em nada.

"Feminismo não é femismo, não é o contrário de machismo, não é a mulher acima do homem. Nós lutamos pela igualdade entre gêneros", eu dizia.
"Mas por que não humanismo?"

Ops.

Busquei e obtive respostas satisfatórias nas referências filosófica e histórica do termo humanista, mas sabia que a questão voltaria a bater na minha porta.

Entrei para a faculdade, conheci muitas outras feministas, assisti a palestras, participei de rodas de discussão, entrei para o Coletivo de Mulheres da UFRJ (posteriormente para o FemmeRI), ouvi muito, enriqueci meus argumentos, produzi vários trabalhos acadêmicos que falavam de alguma forma sobre a mulher… faço disso um exercício diário — na medida do possível — e inesgotável. Descortinar esse véu e desvelar tantas opressões teve um preço alto; me tornei uma pessoa menos tolerante, sim, mais difícil de se conviver.

E ela tornou a aparecer.

Por que você não luta pelo fim do serviço militar obrigatório, já que é pela igualdade? Para pagar mais na boate? Para se aposentar mais tarde? Homens também são oprimidos, não podem chorar, por que você não liga pra isso?

A desonestidade dos questionamentos me irritava, mas a militância na internet muitas vezes nos limita o pensamento. É mais fácil responder com "eu bebo suas male tears!", "iuzomismo!" — eu mesma respondo muito assim — , do que trazer esse questionamento para o nosso próprio entendimento da luta.

O lema "empodere duas mulheres ao invés de explicar feminismo a um homem" e muita leitura me fizeram concluir e ter coragem para assumir meu posicionamento sobre isso.

Sou feminista pelo empoderamento da mulher. Da mulher cis, trans, branca, negra, com e sem deficiências, jovem, idosa, com ou sem filhos, casada, solteira, da que aborta e da que escolhe manter, da que cuida da casa, da que trabalha fora, das que não se consideram feministas…

Não penso que sou oprimida somente por ter uma vagina. Não acho que a socialização masculina (como é posto por muitas radicais) de mulheres trans represente qualquer ameaça a mim. Quero mulheres trans ao meu lado na luta, caso queiram estar. Entendo meu lugar de privilégio e tento não silenciar nem me impor sobre aquelas que são mais oprimidas do que eu por questões que cortam gênero, mas não se esgotam aí. Não acho que reconhecer privilégios seja hierarquizar opressão. Até entendo quem considera prostituição uma forma de exploração, mas quero mais é que as prostitutas tenham voz e reivindiquem para si o que bem quiserem.

Não somos iguais. Somos diferentes. E sofremos diferentes discriminações. A única coisa que nos une é o fato de todas nos identificarmos como mulheres. Reconhecer que somos diferentes em nada prejudica a luta, pelo contrário: fortalece. Precisamos descentrar o sujeito do feminismo como a mulher universal que mantêm laços essenciais com outras mulheres. Desuniversalizar a categoria irá evidenciar nossas muitas diferenças; e diferenças não nos enfraquecem, pelo contrário as diferenças é o que faz sermos únicas, é o que concede a complexidade ao “ser mulher”, caso contrário corremos o risco de cairmos no machismo do “mulheres-são-todas-iguais”. Diferenças devem ser celebradas e não silenciadas. (Hailey Kaas)

Eu quero que todas as mulheres do mundo acreditem em si. Quero que tenham voz, autonomia, que sejam respeitadas, que sejam ouvidas, que possam ser donas de seus destinos, de seus corpos e de suas sexualidades. Que possam se independer de relacionamentos abusivos, que consigam reagir às violências do cotidiano. Que possam adentrar todos os espaços que queiram. Que surjam cada vez mais produções acadêmicas delas sobre elas mesmas. Que, uma a uma, empoderem também suas mães, irmãs, avós, vizinhas…

Quero que os espaços feministas sejam seguros para mulheres cis e trans. Quero dialogar com mulheres em todos os espaços que puder — reconheço o quão colonizador esse pensamento pode ser, mas não consigo me desvencilhar dele — , quero trocar, quero acrescentar, quero ouvir mulheres e suas histórias, seus caminhos, suas lutas.

Quero também que todos os homens sejam respeitados. Que homens gays e trans não sejam discriminados, que homens negros não sejam julgados criminosos só por existirem. Que homens das periferias consigam conquistar o direito à dignidade. (…) Mas não é para eles que organizo meu feminismo.

Acho importante que homens que modifiquem seus espaços, ao invés de reivindicarem para si um termo que nos é tão caro; por isso, não acredito que homens possam se chamar feministas.

Ao fim, sim, eu quero o fim da hierarquia entre gêneros. Mas acho politicamente interessante marcar em meu discurso a maneira que pretendo fazer isso. Respeito muito as companheiras que pensam diferente e entendem espaços feministas como mistos; não significa que eu não ache importante dialogar com os homens. Prefiro falar com e para mulheres, mas não me recordo de já ter negado à qualquer homem uma explicação sobre algo.

Quero que todas as pessoas do mundo tenham seus direitos garantidos, que tenham autonomia, segurança, confiança, poder de decisão em suas próprias vidas. Mas meu feminismo é pelas mulheres — todas elas.