Misoginia em tom de conquista: um guia para reconhecer e fugir dos artistas da sedução — parte 1

Uma técnica que tem por base fragilizar sua auto-estima não pode ser boa nem bem-intencionada.


[nesse texto, falo só sobre a primeira abordagem, em grupo. o próximo falará sobre reconhecer os métodos que eles usam quando estão sozinhos com a gente e sobre as tantas variações atuais ainda mais misóginas]

Estava eu andando ano passado pela Nelson Mandela, ali em Botafogo, quando um garoto sai correndo da calçada de um bar e atravessa a rua vindo na minha direção.

— Oi, sei que pode parecer estranho, mas me dá seu telefone? Queria muito te conhecer.

Eu, que geralmente estou sem a menor paciência pra abordagens na rua sem o menor contexto, só queria continuar andando. Ele tinha, no entanto, um perfil diferente dos caras que geralmente fazem essas coisas: era novo, não me fez nenhum tipo de elogio, parecia nervoso e com pressa. Ri, meio envergonhada, e disse que não, não dava telefone pra estranhos.

Corta pro começo desse ano. Uma amiga me chama no Facebook para desabafar sobre um cara que ela conheceu e que, dentre várias coisas, passava todo o tempo se gabando de como ele era incrível e mil garotas estavam aos seus pés, mostrando fotos e textos enviados por elas. Ao sinal de algum questionamento, começou a xingá-la e espalhou coisas terríveis sobre ela pela cidade.

Nessa conversa, tive um estalo. O comportamento desse cara mostrava vários sinais conhecidíssimos por mim: o cara era conhecedor do “método das artes venusianas”. Por meio de coachings, palestras, livros, fóruns e manuais, os PUAs (pick-up artists ou “artistas da sedução”) vendem um estilo de vida novo e um método infalível para a conquista de sua autoestima e de mulheres.

Em 2011, conheci “O Jogo — a Bíblia da Sedução” por meio de um amigo que estava começando a ler sobre o assunto. Devorei as 485 páginas em pouco tempo e começamos a acessar outros livros, blogs e fóruns, adentrando aquele meio.

Quem se lembra do Julien Blenc, aquele artista da sedução conhecido por usar força contra mulheres, que planejava vir ao Brasil? A comoção foi tão grande que o Itamaraty teve que se pronunciar dizendo que vetaria o visto dele. Eles nem sempre, no entanto, usam de violência física, e por isso precisamos ficar atentas. Escrevo esse texto pra alertar a nós, mulheres, desses truques que não se popularizaram à toa: têm o objetivo de enfraquecer a nossa auto-estima para que eles consigam nos “dobrar”.

O começo da história — e o livro

“Dedicado às milhares de pessoas com quem conversei em bares, clubes, shoppings, supermercados, metrôs e elevadores nos últimos dois anos. Se vocês estiverem lendo isso, quero que saibam que eu não estava brincando. Estava sendo sincero. Realmente. Vocês eram diferentes.” (dedicatória do livro O Jogo, de Strauss)

O livro começa de trás pra frente e o primeiro capítulo, “Conheça Mystery”, se inicia com o “mentor” dos PUAs em surtos de descontrole e, em seguida, sendo internado numa clínica de saúde mental pelo autor do livro. Strauss dá um importante recado ao organizar essa história: meninos, não dá pra levar a vida desse jeito. Recado esse bem fácil de ser ignorado considerando a escrita do resto do livro.

O segundo capítulo, “Conheça Style”, já começa a falar do autor. Não tenho interesse em fazer desse texto uma resenha do livro, mas as primeiras frases desse capítulo são fundamentais pro entendimento da lógica por trás do sucesso desses caras:

“Estou longe de ser um cara atraente. Meu nariz é largo demais para meu rosto e, embora não seja curvo, tem uma protuberância no septo. Ainda que eu não seja careca, dizer que meus cabelos estão rareando seria amenizar a verdade. (…) Sou mais baixo do que gostaria de ser e tão magro que pareço malnutrido para a maioria das pessoas, não importa o quanto eu coma. Quando examino meu corpo pálido, os ombros caídos, me pergunto por que alguma mulher iria querer dormir ao lado dele, quanto mais abraçá-lo. (…) Inventei o Style, meu alter ego. E num período de dois anos Style se tornou mais popular do que eu jamais fui — especialmente com as mulheres.” (p. 20)

Pronto. Está aí vendido o conceito dos artistas da sedução e a razão da popularidade: homens inseguros e não-atraentes teriam uma chance de se relacionar com mulheres. O resto do capítulo vende sua imagem como um jornalista que nunca teve muito sucesso com mulheres até que se depara com um manual de como levar mulheres para cama, e se matricula num workshop de sedução, que prometia, pela bagatela de 500 dólares, te fazer abordar em torno de 50 mulheres ao fim da noite.

A primeira abordagem

“Você não pode chegar numa garota que está sozinha. A sedução perfeita não é assim. As belas mulheres raramente são encontradas sozinhas.” (p. 34)

Imagine a cena. Você e suas amigas estão em uma festa e o artista da sedução quer você. Ao se aproximar do seu grupo, ele fará contato visual com as duas, se mostrará engraçado, espontâneo e exibido… para elas. Você será ignorada por esse estranho-simpático que está entretendo suas amigas: e esse já é o primeiro passo deles para “abaixar sua guarda”.

Eles entrarão na roda com um quebra-gelo, que pode ser desde “Vocês viram aquelas meninas brigando lá fora?” ou até fazerem o “teste do cubo” (ele te fala para imaginar um cubo, uma escada e um cavalo, e faz uma leitura fria da sua personalidade a partir de onde você posiciona os objetos).

Quando suas amigas estiverem envolvidas, ele aplicará o neg.

O neg é uma ideia que, mesmo se for explicada cem vezes, ainda facilmente nos faz cair no papo desses caras. Por quê? Porque é um tiro direto na nossa auto-estima. Mesmo homens (e mulheres?) que nunca ouviram falar em PUA usam negging na hora de interagir com alguém por quem eles se interessem.

“Nem um elogio, nem um insulto, um neg é um meio-termo — um insulto acidental ou um elogio sarcástico. O objetivo de um neg é reduzir a autoestima de uma mulher e ao mesmo tempo demonstrar ativamente uma falta de interesse por ela — dizendo-lhe que tem batom nos dentes ou oferecendo um chiclete quando ela parar de falar.” (p. 35)

Ele fará uma pausa na interação com as suas amigas e, de alguma maneira, te dirá alguma frase, como “que saia bonita! agora pouco vi uma garota com a mesma saia” (isso na melhor das hipóteses) ou dirá aos seus amigos “vejam como o nariz dela se mexe quando ela ri!”, sobre você. Voltará a te ignorar, mas, depois de algum tempo, ele virá falar só com você; e, de acordo com a teoria, você tentará se mostrar simpática e agradá-lo — com isso, você já está mais próxima de entregar a ele o seu número de telefone.

Nesse processo, ele pode também usar a ancoragem, uma técnica de PNL (programação neurolinguística). É um emparelhamento de uma emoção com um estímulo externo. Quando você sorri, por exemplo, e se alegra ao ouvir algo que eles falam, ele te tocam em alguma parte do corpo. Dessa forma (segundo a teoria), você ficaria feliz toda vez que ele tocasse nessa parte, podendo trazer de volta essa emoção no momento em que ele quiser.

Os PUAs também podem aparecer com um wingman, um amigo que está lá para te ajudar a interagir e quebrar o gelo (“Haaaaave you met Ted?”). O método original do Mystery te permitiria reconhecer esses caras visualmente: o peacocking (ou “técnica do pavão”) é uma proposta para que eles, como não são atraentes, usem de artifícios pra chamar atenção: um chapéu, anéis, piercings, cabelos e roupas coloridas, etc. Não sei afirmar se eles ainda usam da tática e se é recorrente no Brasil, mas é bom ficar de olho.


Dividi a explicação em duas (ou três) partes para que não fique longa, mas espero que essa introdução já possa ajudar a identificar esses padrões. Claro que essa técnica é usada não só em festas, mas pela internet, na rua, no metrô, então esses comportamentos se apresentarão de formas variadas. Saber que esse tipo de abordagem é comum pode te ajudar a não cair na mão desses caras. Engenharia social pode ajudar muitas pessoas a aprenderem a socializar, mas não podemos dar mole diante da tendência misógina desse método.

[Como isso se relaciona com a história do garoto em Botafogo? Nesses workshops, aparecem sempre homens muito inseguros, que geralmente beijaram poucas mulheres na vida. Um dos primeiros treinamentos é sair à noite com o seu grupo e abordar dezenas e centenas de mulheres em uma noite, pedindo somente o telefone delas. Eles só estão “liberados” do exercício quando conseguem mostrar um número x de telefones de mulheres. Serve para que eles percam a vergonha ao abordar, e possam então estar prontos para utilizar as técnicas de aproximação que mencionei acima.]