Desde quando o saber tem casa?

Nos primórdios da existência humana existia o conhecimento. Ele se vivia e experimentava. O conhecimento era irmão da necessidade e do lazer. Os homens e mulheres se aventuravam na floresta das coisas e assim conheciam sobre elas. Não existia a lógica da explicação, porque esses homens e mulheres não tinham ainda conhecido o conceito do erro. O que conheciam, em vez disso, era a multiplicidade de saberes. Estar vivo era aprender.

Certo dia, um viajante do tempo voltou aos primórdios da existência humana e se espantou com o que viu. Homens e mulheres vivendo em pé de igualdade. Ele era um cientista europeu. Havia passado toda a sua vida estudando nos livros e nas grandes enciclopédias sobre a viagem através do tempo. Seu objetivo ao voltar aos primórdios da existência era entender as raízes da desigualdade tão latente de onde ele vinha.

Esse navegante do tempo causou um misto de estranhamento e curiosidade nos homens e mulheres do passado. Eles se perguntavam de onde o homem vinha e por que levava tantos acessórios pesados. Uma mulher disse que era encantador de iguanas, outra mulher disse que era explorador dos céus. Um homem disse que era guardião das raízes das árvores, outro disse que era construtor de objetos mágicos. A verdade é que não houve consenso e que o viajante do futuro causou muita fascinação nos homens e mulheres.

O viajante já havia explicado sua ocupação aos habitantes daquele tempo, mas eles a haviam rechaçado por não compreender a utilidade de viajar entre os tempos, nem o conceito de desigualdade. Para eles o presente bastava, coisa rara aos habitantes do futuro. Percebendo isso, o viajante preocupado e temeroso pelo bem desse povo, que insistia em não reconhecer os fatos que ele lhes havia apresentado, ergueu um prédio enorme de concreto cinza e na sua fronte colou uma faixa com o nome “Escola”.

Ali, dizia, seria a morada de todo o saber. Os homens e mulheres do passado, dada a sua fascinação pelas novas experiências, passaram a reservar momentos do seu dia para ir a casa do saber. Foi lá que deu-se o primeiro ensinamento. O viajante do futuro disse:

“Eu sou um cientista, e não encantador, construtor, guardião ou explorador.”

E o segundo ensinamento:

“A ciência é o conhecimento sistematizado.”

E assim os homens e mulheres do passado conheceram o conceito da explicação. E perceberam que muito ignoravam. E sabendo que obteriam uma resposta perguntaram ao viajante o que era um “conhecimento sistematizado”.

Então, temendo a imaturidade intelectual daqueles homens e mulheres, ele decidiu explicar usando exemplos. Criou as disciplinas, da forma que conhecia no futuro, e os conteúdos referentes a essas disciplinas.

Conforme o tempo foi passando os homens e mulheres do passado se desinteressaram pelo viajante e pararam de frequentar a escola. Alguns ainda enfrentavam resistência a tantos respostas. O viajante do tempo se sentiu deixado de lado e temeu mais uma vez pelo futuro daqueles homens e mulheres demasiado desorganizados. Então ele decretou que era obrigatório ir a Escola. E explicou aos homens e mulheres do passado todas as mazelas que estavam guardadas para eles no futuro. Naquele momento, os homens e mulheres do passado deixaram de se importar só com o presente e passaram a ir a Escola.

O tempo foi passando. Novas gerações nascendo. E aos poucos, os homens e mulheres do passado viraram os homens e mulheres do futuro.

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