O auge de um tapete

The Beatles recording “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”

Eu sei que tenho sorte de ter vindo parar aqui, poderia ser bem pior. Não estou reclamando nem nada, não me leve a mal, não sou ingrato! Nem todos têm os mesmos privilégios que eu tive, sei disso. Imagino como deve ser viver no chão de uma casa de família, com crianças remelentas derrubando migalhas e te sujando de tinta. Credo!

No fundo, sei que devo tudo a Margareth, que mulher extraordinária que era ela. Teceu-me tão bem, tão grande e vistoso. Não tinha como dar errado. Não acho que tenha pensado nisso na época, mas acabou me projetando na medida certa pra caber embaixo de uma bateria. No meu caso, embaixo de uma bateria no “Studio Two”, da Abbey Road Studios.

Acabei participando de tudo que é gravação. Jazz, Rock, Folk. Mas o que eu gostava mesmo era quando os Beatles vinham tocar. Aí sim eu me sentia importante. De Ticket to Ride à Let it Be, ouvi tudo em primeira mão. Nem me importava muito com as eventuais marcas de bitucas que caiam em mim, ou quando, já um pouco alto, Ringo ficava tropeçando nas minhas beiradas toda vez que andava meio torto até sua bateria. Isso que era vida. “Golden Days” ouvi uns Sirs comentarem alguns anos atrás enquanto fotografavam a antiga bateria de Ringo e a mim por tabela.

No fim vi um ou outro Beatle por lá depois de tudo, mas nunca mais todos juntos. Hoje virei histórico, só sirvo pra exposição e minhas antigas marcas de de bebida já não são tão diferentes das novas, de poeira.