“Inacabados” parte:2

Anda, anda, anda, caramba! Isso não pode estar acontecendo comigo, pensei. Quiquei no banco do carro enquanto observava a casa do Gabriel. Esfreguei os olhos para enxugar as lágrimas que ameaçavam cair sobre o meu rosto, respirei fundo, criei coragem e finalmente liguei o motor do carro. Embora a casa do meu pai seja em frente a do Gabriel, eu fiz questão de deixar meu carro estacionado mais próximo a da casa do papai. Desci do carro e olhei para o relógio ao pisar na calçada. Peguei as chaves para abrir o portão e imediatamente os cachorros começaram a latir.

Neste exato momento, Chocolate pula sobre mim e eu dou uns passos para trás. Então picolé pega um dos meus chinelos com a boca e sai correndo em direção a cozinha. Corro atrás dele, e chego até a cozinha. Não consigo saber se tem alguém em casa, meu pai está dividindo casa com a vovó e com meu irmão, mas a casa está toda em silêncio. Abro a porta devagar, e tropeço em uma das plantas da vovó, imediatamente vou parar no chão com dois cachorros em cima de mim. Droga. Aquilo doeu. E, eu não sei o que mais me irritou, se é o fato de ter terra no meu cabelo ou por não saber o motivo de ter plantas no meio de uma cozinha.

Em seguida surge a vovó dando gargalhadas ao me ver naquele estado. Limpo as mãos e me coloco de pé. Reviro os olhos enquanto minha avó ainda acha graça e lhe dou um abraço. A vovó já está velhinha. É estranho olhar ela dessa maneira, e ver que os anos passaram tão rápido. Os fios do cabelo dela estão completamente brancos e as rugas são tão notáveis.

Quando eu decidi viver com a vovó, eu tinha apenas quinze anos de idade. Nessa época eu descobri algumas curiosidades sobre ela como por exemplo: Ela fala sozinha. Mas também conversa com as plantas e animais como a Branca de neve. Naquele tempo eu achava maior graça e ao passar do tempo eu também conversava com as plantas quando estava me sentindo triste. A vovó tinha mania de deixar as plantas espalhadas pela casa e eu perdi a conta da quantidade de vezes que tropecei sob elas. Hoje, percebo que isso não é tão normal.

Na maioria das vezes a vovó me conta histórias que já disse um milhão de vezes. Eu quase não demonstro mais surpresa quando ela me conta alguma “novidade” pelo fato de eu já ter escutado aquela conversa várias vezes. E na semana passa meu irmão me disse que ela faz as mesmas coisas diversas vezes ao dia por não saber que já fez. Isso me deixa chateada, mas pensamos da hipótese de colocar ela em alguma clinica ou asilo.

Quase não vi a manhã passar. Passei o tempo inteiro ajudando com o almoço e arrumando o quintal para receber as visitas. Em seguida, subi até o meu quarto para tomar um banho. Vesti uma saia jeans de cintura alta e uma blusa preta, fiz cachos no meu cabelo com o babyliss que não demoraram cinco minutos até desmanchar do meu cabelo. Passei um batom nude, máscara de cílios e desci. O almoço estava divino. A mãe do Gabriel e a Clara apareceram por lá, mas ele não.

Em qualquer reunião de família as pessoas me perguntam duas coisas. A primeira é: porque eu não volto a morar na casa dos meus pais. Hoje, só do meu pai. Não literalmente do papai. A vovó e o meu irmão também moram com o papai. A casa é enorme, e meu quarto ainda continua intacto mesmo com meu irmão e a minha cunhada morando por aqui. E a segunda coisa é: por onde o Gabriel anda. Então concluo que ele está em todo lugar. Não importa onde eu esteja, ele sempre também vai estar lá. Às vezes é um perfume parecido, uma risada semelhante, uma roupa que me lembre ou o nome dele que sempre é falado.

São exatamente oito horas da noite quando chego na cozinha a vovó está com um vestido floral. Ela está cozinhando algo e conversando sozinha. Tento me incluir na conversa. Ela diz que está preocupada comigo. Não porque daqui a menos de um mês completa sete anos que a minha mãe faleceu ou porque eu terminei um namoro de muitos anos. Mas, porque as vozes disseram para ela que tem algo de errado comigo.

— O que as vozes disseram dessa vez? — Acho graça.

— Maria Júlia pare de debochar.

É a primeira vez em três meses que eu entro no meu quarto. Não sinto que esse quarto ainda é meu. Ele é de alguém que eu fui a muitos anos atrás. Desde que fui viver com a vovó pouca coisa mudou por aqui, só a cama devo admitir. As paredes ainda são rosas e tem alguns posters da minha banda favorita da época: RBD. Arranco os posters das paredes e jogo no lixo. Abro meu guarda roupa e ele está completamente vazio, lembro de ter doado todas as minhas roupas a alguns anos atrás pois elas já não serviram em mim.

Pego um lençol no guarda roupa e estendo sob a cama. Em seguida, ao deitar na cama percebo o quanto esse tom de rosa nas paredes me incomoda. É um tom de rosa pink tão escroto que me assusta ao lembrar que já fiz questão de pintar meu quarto dessa cor. Ao lado da cama, no criado mudo tem um porta retrato com a fotografia da mamãe. E depois de alguns segundos percebo que a última gaveta do criado mudo tem fechadura. “Onde eu posso ter deixado essa chave?” me pergunto. Acabo de me lembrar que pode estar em uma caixa em cima do guarda roupa.

“Quanta poeira”, preciso admitir. Fico de pé na cama e me estico para pegar a caixa, em seguida sento no chão. Dentro da caixa tem dois livros, uma agenda, uma câmera antiga e muitas fotos. Nada de chave. Trabalho jogado fora. Depois de revirar a caixa, acho algumas chaves. Me ajoelho em frente o criado mudo e começo a encaixar as chaves na esperança de que alguma abra a fechadura. E então a gaveta se abre.

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