“Inacabados” parte:3

Dentro da gaveta se encontra fotos, cartas e algumas lâminas da época que eu tinha depressão. Dá um aperto no coração ao lembrar dessa fase da minha vida e eu abro uma das cartas e choro ao terminar de ler. Era sobre o acidente da mamãe. “Eu quero morrer!”, foi isso que eu desejei quando soube da morte da minha mãe. O enterro foi a pior parte. Até hoje eu não entendo porque Deus estava fazendo aquilo comigo e com a minha família. Aposto que Deus deve ter se arrependido de ter tirado a vida da minha mãe, pois choveu durante dias como se até os céus estivessem chorando. Assim como os céus, eu também chorei por dias. E em uma bela manhã o sol surgiu como se ainda tivesse esperança, e as pessoas ao meu redor voltaram a viver, a trabalhar, a sorrir. Mas, eu não. a minha vida parou naquele instante. Um pedaço de mim também se foi.

Um tempo depois pesquisando sobre qualquer coisa no google eu me deparei com a palavra “suicida”. Fiquei curiosa e quis saber o que era aquilo. e, então eu me cortei quando li algum comentário dizendo que aquilo aliviaria a minha dor. Eu me cortei pela primeira vez. Chorei quando me vi naquela situação, senti medo, angústia e dor não só pelo meu pulso mas também pela minha mãe. Enquanto o sangue pingava pelo chão eu prometi que nunca mais faria aquilo. Falhei.

Durante anos vivi usando casaco até no verão para esconder os pulsos cortados. Até a vovó descobrir. Ela entrou no quarto enquanto eu estava me vestindo e viu. Ela chorou. Por minha causa. E só falou daquilo durante dias. Mesmo sem eu encostar em uma gilete aquele pesadelo parecia não ter fim. Largar o vício foi complicado mas ser lembrada todos os dias pelo erro cometido foi ainda mais difícil. E então um dia, me assustei com algum barulho qualquer enquanto cortava cebola com e cortei o meu dedo com a faca. Quase não sangrou, mas a vovó viu. E pelo meu trágico histórico não acreditou em mim. Era um acidente. Desde então passou a esconder remédios, facas, cadarços e qualquer coisa que possa ser uma arma branca. Aquilo me perseguirá para o resto da vida.

“Eu não tentei me matar. Dessa vez, não. Eu não tentei me matar.” Foi a porra de um acidente. Isso não pode estar acontecendo comigo. Ela me olhava fixamente com pena. Logo em seguida, me deu um tapa na cara. Foi a única vez que eu apanhei da vovó. Sinto algumas lágrimas caírem sob meu rosto ao lembrar de tudo isso e corro até o banheiro. Apoiei minhas mãos no mármore frio. Nada mudou por aqui também. Meu banheiro também continuava exatamente igual. No espelho, me vi com o olhar de uma menina de onze anos assustada com a primeira morte que presenciou em toda a vida.

Mamãe é o Cupcake” “Mãe, corre aqui” “Ele não tá levantando”Mãe, vem logo” . Meu animal de estimação. Morreu. Fim. Adeus. Ele era um vira lata que meu pai trouxe da rua. Mas, não era qualquer vira lata. Ele era o cachorro mais incrível do mundo. Agarrei forte as bordas da pia e encarei novamente meu reflexo no espelho. Eu não tinha mais onze anos de vida. Molhei o rosto, tentando me refazer.

E então volto para os anos de 2016.

Me vi obrigada a abrir os olhos no momento em que minha a vovó resolveu abrir a janela do quarto.

— Maria Júlia já são onze horas da manhã — ela repetia

Sentei na cama, esfreguei os olhos e peguei o celular que estava embaixo do travesseiro. O relógio marcava 09:32 da manhã. Revirei os olhos ao lembrar que a vovó sempre aumentava o horário. Levantei da cama e fui até a janela. O céu estava linda, é a primeira vez em seis meses que eu durmo na casa do papai. Voltei a olhar para o céu e em seguida me afastei. desde que eu fui morar sozinha, quase não me sinto mais em casa quando estou aqui.

Fui até o banheiro, tomei um banho e escovei os dentes. desço as escadas e e lá estava a minha família. (ou, o que restou dela.) Típico café da manhã em família. Abro a geladeira enquanto meu pai me pergunta sobre como foi a minha noite.

— Foi tranquila, apaguei! — confesso.

— Vai dormir hoje aqui, também? — minha cunhada me pergunta.

— Nossa, já quer me expulsar, Joyce? — Pergunto.

— Obvio que não, Jujuba. — Ela rebate.

— É que hoje vai ter um jantar na casa do pai de um amigo que está morando aqui e eu queria te chamar para ir com a gente. — Meu irmão, confessa.

— Para ver se você desencalha logo. — Joyce diz.

Todos riem.

— E quem te disse que eu estou encalhada?

— Ninguém precisa dizer, Maria Júlia, é só observar! — Joyce fala.

— Você que é linguaruda, garota! — Digo rispidamente.

— Maria Júlia, já vai começar? — meu irmão me pergunta.

Reviro os olhos.

— Ela não suporta ouvir verdades. — Minha cunhada, exclama.

— Podem parando! — papai manda.

.

São seis horas da tarde de uma segunda e eu estou a caminho da faculdade. Eu estudo publicidade e propaganda e ainda falta um pouco mais de um ano para eu finalmente me formar. São quase 102 passos da minha casa até a faculdade, mas esse numero pode dobrar se você não estiver com pressa, se for aula de algum professor mala, se você estiver em boa companhia. ou, apenas se você não tiver um bom motivo para chegar na faculdade. que é o meu caso.

Só dei conta que a aula já havia acabado quando percebi que a sala estava vazia. Ajeito os óculos, ponho o caderno e a caneta na mochila e me levanto. Coloco a mochila sobre as costas, me despeço do professor e saio de sala. Compro uma pipoca doce enquanto caminho para casa e ao entrar no condomínio em que vivo. Encontro com uma senhora de óculos escuro as 22 horas da noite andando sem rumo pelo condomínio como quem procura algo e antes que ela batesse em alguma parede, corri até ela e seguro em suas mãos. Ela era cega.

— Cuidado, senhora. — Digo a ela.

— Ah, é que eu estou meio perdida. — Ela confessa.

— Quase não notei.

Ela dá uma risada gostosa de se ouvir e aperta forte a minha mão como quem agradece. Ela tem o cabelo grisalho mas não aparentava ter mais de 50 anos, sua pele é bem cuidada como quem é bem vaidosa e suas roupas também parecem ser de grife.

— Qual é o seu nome, minha querida? — Ela pergunta.

— Maria Júlia, e qual é o seu?

— Luisa. — Ela responde.

— Nome bonito — preciso confessar e logo continuo — a senhora quer alguma ajuda?

— Ah minha querida, aceito sim. É que meu filho se mudou para cá no sábado e ainda estou confusa por que antes eu vivia em uma casa toda adaptada. Entende?

— Entendo, sim, mas então você também vai morar aqui? — fico na dúvida.

— Não, só vim conhecer o apartamento! amanha mesmo a noite eu volto para a minha casa. — Ela continua a me contar.

— Você vai viver sozinha lá? — me desperta curiosidade

ela acha graça.

— Obvio que não, tem pessoas que trabalham para mim lá.

— Ah, compreendo. e, qual é o apartamento em que você está mesmo?

— 508, minha querida, será que é incomodo você me levar até lá?

— Ah, que isso! Claro que não, o meu é no mesmo andar. 504.

— Que coincidência, somos vizinhas. — Ela sorri.

O elevador está subindo. E esse silêncio realmente está me deixando constrangida. É estranho pensar que ela não pode me ver. Fico triste ao pensar nisso. O elevador para. A senhora se agarra fortemente no corrimão. E eu seguro forte a mão dela para que ela não se sinta sozinha. O elevador volta a subir. A porta se abre e eu dou meus braços para ela segurar. Guio ela até o apartamento que ela vive e ela procura as chaves dentro de uma bolsa.

— Quer entrar? — Me pergunta.

— Não precisa.

Ela encaixa as chaves com uma habilidade incrível e as gira. E imediatamente escuto alguém falar:

— Demorou demais, já estava indo atrás de você!

— Esse é o meu filho, Matheus. — Ela me apresenta.

Em seguida, a porta se abre completamente e surge na minha frente um homem que aparentava ter menos de 25 anos de vida com uma toalha branca que cobria apenas o necessário. Preciso confessar que ele é bonito. Na verdade, ele é lindo. Sua pele é clara e seu cabelo mesmo molhado dava para perceber que é um black power castanho escuro.

— Não sabia que tínhamos visitas. — Ele sorri meio constrangido.

— Olá, tudo bem? Só vim acompanhar ela. — Admito.

— Tudo sim, não quer entrar? — ele me pergunta.

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