O medo de ser

Antes de tudo:

o primeiro passo.

Eu me encosto em uma parede azul descascada, puxo pedaços dela e me distraio de mim mesma.

Me lembro de uma música, não lembro mais.

Toco meu rosto e sinto as cicatrizes de acne.

Me abaixo até o chão, costas junto à parede.

Sento e finjo que o mundo é lá fora.

Não dá certo.

Penso baixo:

Quero ser artista, fazer arte.

Que arte? Gosto de tudo e não faço nada.

Fico ainda mais quieta.

Meus pensamentos são barulho.

Não defino nada.

Me levanto e ando até o computador.

Escrevo algo e me sinto um pouco orgulhosa.

Algo faz sentido ali.

Depois.

A vozinha sinistra:

Isso não é arte de verdade. É só um texto qualquer.

Eu fico em silêncio de novo,

abaixo a cabeça

e depois os olhos.

Penso:

Verdade, a arte é 99% trabalho duro e transpiração.

Eu não faço nada.

Olho para o lado, volto para o texto,

a minha pequena alegria.

Amo essa sensação.

Abraço esse momento até me dar dormência.

Digo em silêncio:

Sou.

Escrevo mais um pouco,

sou ainda mais.

Sou fala

e pensamento.

Posso crescer, me fortalecer,

desencostar da parede azul.

É só continuar

continuar,

continuar,

até

transpirar .

Até

transbordar de ser.

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