A ‘outra história’ no Jornalismo

O jornalismo alternativo cobre fatos que normalmente são ignorados ou omitidos pela grande mídia, cumprindo o papel social da profissão. O coletivo Nonada nasceu em 2010 e vem propondo uma reflexão sobre a cultura na mídia alternativa em Porto Alegre.
(Texto feito para a disciplina de Introdução ao Jornalismo em maio de 2016).
Thaís Seganfredo é estudante de Jornalismo da UFRGS e editora do Nonada Jornalismo Travessia. Em 2012, o coletivo de jornalismo cultural alternativo ganhou o Prêmio Agente Jovem da Cultura, do Ministério da Cultura, e no início do mês de abril realizou a cobertura das atividades do Conexões Globais. Durante os meses de abril a outubro estarão conduzindo o curso de Jornalismo Alternativo no Santander Cultural, com convidados que trazem suas experiências na mídia independente. No primeiro encontro participaram Alexandre Haubrich do Jornalismo B, e Márcio Figueira da TV Restinga.
Como surgiu o Nonada e com qual propósito?
Quem fundou foi o Rafael [Gloria] em 2010. O Nonada surgiu para ser uma alternativa aos grandes jornais da cidade. O que estava sendo feito eram muitas notícias curtas que não se aprofundavam na cultura. Então ele criou o Nonada para poder escrever mais, e no online temos mais possibilidades que no impresso. Ao longo do tempo, principalmente depois que uma nova leva de colaboradores entrou — e eu também entrei, em 2013 –, mudamos um pouco o sentido. Começamos a ver o jornalismo alternativo não só no formato, mas também no discurso. Começamos a pensar mais sobre representatividade, ética, gênero, diversidade sexual e como isso também se entrelaça com a cultura, de como é importante falar profundamente sobre cultura, diversidade e representatividade.

Quando surgiu seu interesse pelo jornalismo alternativo e por que você decidiu fazer parte do coletivo?
Eu queria — e acho que todo mundo tem — esse desejo de escrever, de fazer jornalismo, e não encontra em outros lugares. Conheci o Nonada antes de entrar para a equipe, e sempre achei o site interessante. Outros veículos não têm essa abertura que o Nonada te dá, de escolher pautas mais diferenciadas, que não precisam de uma aprovação, por exemplo, dos interesses daquele jornal. No começo, eu não pensava no jornalismo alternativo, mas fomos construindo isso e refletindo como uma equipe: o que a gente queria, o que achávamos importante. Também fomos conhecendo outros veículos alternativos, achando isso importante e cada vez mais nos definindo como alternativos. Foi aí que o meu gosto surgiu.
Como é a relação entre vocês, jornalistas do Nonada, e as pessoas que acompanham o coletivo? Essa relação também difere das grandes mídias?
Com certeza, porque muitos dos nossos leitores também são colaboradores. Nesse sentido, a própria equipe também discute junto. Só não são aprovadas pautas que não seguem a nossa linha de tentar algo diferente do que é feito na grande mídia, pautas que ferem os Direitos Humanos e preconceituosas. Temos uma hierarquia na questão da edição dos textos. Têm os repórteres que escrevem, os editores que também escrevem, mas também dão aquela lapidada final no texto para pulicar.
Os leitores também podem propor pautas?
Acabamos de lançar a campanha de financiamento coletivo para envolver mais nossos leitores em uma rede. Para quem não tem interesse em escrever e quer participar, tem o Conselho Editorial, onde eles podem sugerir pautas. Temos bem essa separação de que quem sugere não escreve, porque é um conflito de interesses.
Tem algum momento que te marcou desde que você ingressou no meio alternativo?
Quando eu fiz entrevista com o fotógrafo indígena Vherá Poty. Foi bem o que eu gosto de fazer no jornalismo cultural, que é ver a arte engajada e feita por pessoas que não são aceitas. A partir daí eu fui me encontrando cada vez mais.
Quais são as dificuldades de investir nesse meio?
Até então tínhamos dificuldade de pagar a hospedagem do site e não podíamos fazer viagens por falta de dinheiro. Mas agora isso está sendo contornado com o financiamento, temos mais possibilidades. A falta de tempo também, temos muitos trabalhos porque não conseguimos se sustentar com o Nonada ainda, temos que nos virar de outros jeitos. Não podemos se dedicar 100%, mas seria muito melhor (risos).
Como surgiu a ideia de criar um curso de Jornalismo Alternativo?
Não lembro exatamente como surgiu, mas foi uma evolução natural. A preocupação de articular os jornalistas, de criar, de alguma forma, uma rede, de conhecer mais e expandir esse conhecimento do jornalismo alternativo. Conversando com a equipe pensamos que a gente não tem isso na faculdade e o curso seria ótimo. Eu, que estou estudando agora, e os que se formaram também, nunca vimos diretamente esse conteúdo. Tentando não ser pretensiosa, mas sentimos essa falta. Está sendo planejado oficinas gratuitas em escolas também.
Em suas palavras, qual a importância do jornalismo alternativo para a sociedade? Principalmente nos dias atuais?
É ter aquele caráter contestador do sistema, do status quo que é imposto, e também oferecer uma outra comunicação, uma alternativa para o que é visto na grande mídia. Porque a gente sabe que a grande mídia é uma empresa com interesses políticos e econômicos. E o jornalismo alternativo, apesar de não ser isento e imparcial, oferece uma outra comunicação, um outro lado da história que não seria mostrado se não fosse pela mídia alternativa.