Hortas comunitárias resgatam costumes em Porto Alegre

Iniciativas estimulam educação ambiental, convívio em comunidade e uma nova consciência sobre alimentação saudável

Cristiane e Lurdes, voluntárias da Horta Comunitária Lomba do Pinheiro. Foto: Guilherme de Faveri

O Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do mundo, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer José de Alencar Gomes da Silva (INCA) e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO). O país ultrapassa a marca de 1 milhão de toneladas por ano, o que equivale a um consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por pessoa. Com o assunto em pauta, surgem questionamentos sobre a origem do que está na mesa dos brasileiros e, na busca por uma vida alimentar saudável, os alimentos orgânicos tem ganhado evidência e mais adeptos, pela qualidade natural, sem transgênicos, agrotóxicos sintéticos e fertilizantes químicos.

Nas cidades, nosso contato com os alimentos geralmente é na ida ao mercado e depois no preparo em casa. Muitos esquecem que existe todo um processo antes disso. O motivo pode estar ligado ao desinteresse, desconhecimento ou distante da realidade, por serem práticas naturalmente associadas ao campo.

Para alguns, esse entendimento está mudando. A preocupação com o que se come está crescendo e as pessoas têm procurado se informar a respeito, seja procurando estabelecimentos com produtos orgânicos ou mesmo se inteirando do processo de cultivo, a fim de produzir o próprio alimento.

Exemplo disso são as hortas comunitárias, um espaço de convivência, aprendizado e prática de agricultura no meio urbano. Seja em áreas que, embora inseridas no meio urbano, ainda têm resquícios da vida do campo; em pequenas áreas na cidade, para atender àquela comunidade; ou dentro dos próprios condomínios, para uso dos moradores.

Horta Comunitária Lomba Pinheiro. Foto: Guilherme de Faveri

Plantando ideias

A Horta Comunitária Lomba do Pinheiro possui um grande espaço com plantio de diversas espécies de plantas, no bairro de mesmo nome. Lurdes Guiconi foi uma das voluntárias que ajudou a criar o espaço, em 2011. “Aqui não tinha nada, era um campo abandonado, cheio de lixo”, conta ela, sobre a realidade da área antes da implementação da horta. Os voluntários plantam de tudo no local, priorizando o cultivo de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCS), como a Ora-pro-nóbis, que é fonte de proteína.

Ora-pro-nóbis. Reprodução da Internet.

No início, utilizaram sementes crioulas, que são selecionadas e mantidas através do tempo. Pelo caráter seletivo e natural, elas são de muito valor e riqueza para o plantio. Depois de seis anos de cultivo e ampliação, o uso delas não é mais necessário, os voluntários conseguem plantar a partir do que eles têm na horta, conta o colaborador Flavio Burg, que atua há quatro anos no local.

Uma alternativa ao uso de agrotóxicos e uma prática comum nesse tipo de plantação são as plantas parceiras, como a citronela, considerada repelente. Essas plantas são cultivadas junto com as demais e evitam um provável ataque de insetos nas plantas, garantindo a preservação e a saúde das hortas.

A horta cultiva uma quantidade notável de plantas comestíveis, que também são usadas para fins medicinais e de pesquisas acadêmicas. O hibisco é destaque na horta. Além de ser considerada diurética, os voluntários produzem geleia da flor, para venda. O dinheiro arrecadado desses produtos e da venda de mudas ajudam a manter o espaço.
Flor de hibisco. Foto: Guilherme de Faveri

Aprendizado em comunidade

A educação ambiental é um dos principais objetivos dos voluntários nas hortas comunitárias. Mais do que fornecer mudas e alimentos, tanto Lurdes quanto Flavio repassam seus conhecimentos para quem os busca, de forma simples e informal. Os voluntários atendem a comunidade do bairro, grupos ligados à área da saúde e também escolas. Eles orientam e conscientizam sobre o processo de compostagem, plantio, cultivo e colheita, além das especificidades de cada planta.

Alunos de uma escola local cuidando da horta. Foto: Arquivo pessoal Flavio Burg.
“O nosso principal foco não é a geração de renda, mas a multiplicação de conhecimento: trocar ideias sobre questões ecológicas, ervas medicinais, do hibisco, do arroio”, conta a voluntária Cristiane Lindemayer, mencionando o projeto de revitalização do arroio Taquara, localizado próximo à horta e se encontra poluído, prejudicando o ecossistema da região.
Foto: Guilherme de Faveri.

Há o resgate de uma cultura da área rural, porém, adaptada a um novo ambiente. O conhecimento cresce e ultrapassa os limites das hortas, e as conexões que são feitas ampliam a visibilidade da prática de agricultura urbana. Lurdes conta de uma colaboradora reuniu um grupo para construir um canteiro na área da igreja em que frequenta, a partir de mudas da horta comunitária. E, recentemente, o grupo adotou um novo espaço para fazer uma horta: uma praça abandonada.

A cada dia mais pessoas interessadas vem procurando o projeto, fazendo que ele continue crescendo. Lurdes acredita na importância de partilhar conhecimento e a própria horta como modelo para a criação de novos espaços de cultivo pela cidade, seja comunitárias ou individuais: “O nosso objetivo é que as pessoas plantem independente do seu espaço. Não só conhecer, mas também levar o projeto”, completa Lurdes.


Espaço Floresta. Foto: Guilherme de Faveri.

Entre prédios

Em um local menor e próximo à zona central da capital, nasceu o Espaço Floresta. Criado em junho de 2016 por grupos voltados para a temática da sustentabilidade, a horta comunitária está locada ao lado de uma unidade de Destino Certo do Departamento Municipal de Limpeza Urbana, no bairro Floresta. Segundo Thiago Rocha, estudante de Engenharia Ambiental e um dos idealizadores do projeto, eles entraram em contato com o DMLU propondo a ideia de um lugar para criar a horta, integrado a um sistema de compostagem. “A gente recolheria os resíduos do bairro Floresta e realizaria a compostagem, transformando o adubo, e do adubo a produção de alimentos — tudo isso dentro da cidade”, lembra Thiago.

Espaço Floresta. Foto: Guilherme de Faveri.

A horta nasceu através de um mutirão com a comunidade. Thiago estipula que foram entre 50 a 80 pessoas, das quais 20 moradores do bairro foram cadastrados para cuidarem da horta: plantando, colhendo e levando resíduos para compostagem. “Sempre pedimos que se eles virem aqui, se forem tirar algo, que coloquem algo de volta — seja adubo ou alguma muda”, explica Thiago. Com essa ajuda, os colaboradores do espaço conseguem realizar um trabalho com o foco no comunitário e também para manter o espaço rico.

Foto: Vitória Cunha.

Thiago conta que as pessoas chegam sem saber nada, e a horta é um lugar de aprendizado. São oferecidas oficinas voltadas à educação ambiental e à agricultura urbana. A horta, com seus parceiros, também disponibiliza alguns cursos pagos para pessoas interessadas no tema. Os cursos ajudam não só na propagação desse tipo de informação, como no sustento do Espaço.

Um evento realizado pelo Espaço Floresta que marcou Thiago foi a visita a uma fazenda de reabilitação de jovens dependentes químicos, em Novo Hamburgo, onde abordaram temas relacionados à agricultura urbana. Poder compartilhar todos esses conhecimentos é, para Thiago, satisfatório e prazeroso.

O espaço é aberto para visitações e principalmente para a colaboração do pessoal do bairro. “Nós convidamos os moradores a vir aqui e realmente fazer parte disso, tomar posse. Vir plantar, trazer sementes, trazer mudinhas e colher os alimentos”, explica Thiago.

Presentes na Horta Comunitária Lomba Pinheiro e no Espaço Floresta é a prática de se plantar de tudo e dar prioridade às plantas repelentes. Outro ponto é o cultivo das plantas PANCS, por serem de fácil cultivo e muito nutritivas. Os processos feitos no Espaço Floresta são similares ao da Lomba do Pinheiro, porém o tempo de horta, o espaço e o voluntariado são bem menores no primeiro, já que o objetivo da horta é atender somente àquele bairro.

Espaço Floresta. Foto: Guilherme de Faveri.

Cultivando valores

Os voluntários das hortas comunitárias dos bairros Lomba do Pinheiro e do Floresta tentam difundir suas ideias e incentivar quem os busca a plantar em seus próprios espaços. Exemplo disso é Hilário Bichels, professor de Ciências da Escola Paulo Freire, no bairro Auxiliadora, onde leciona para jovens e adultos com déficit de atenção. Hilário participou da implementação de uma horta na escola, que atualmente já possui mais de 800 metros. E ele levou esse exemplo até o condomínio onde reside.

Canteiro que Hilário mantém no condomínio, com a ajuda dos moradores. Foto: Vitória Cunha.

Ele pontua a dificuldade inicial de criar uma horta em uma área de uso comum, pelo preconceito e rejeição inicial dos moradores. “A horta também é um espaço que estimula o convívio social, e normalmente quem se opõe são pessoas individualistas, que não estão preocupados com a saúde dos outros, com a saúde do planeta”, opina Hilário.

Mas logo os vizinhos começaram a se envolver com a horta e também em maneiras de melhorar o espaço de onde vivem. “Uma das crianças do prédio começou a plantar as alfaces dela e os pais se interessaram pela horta justamente para ajudar na alimentação dela. Agora, ela ajuda a cuidar da horta e dos próprios alimentos”, conta Hilário.

Professor Hilário. Foto: Vitória Cunha.

O professor fala que seu envolvimento com hortas veio não só da vontade de produzir seu próprio alimento, mas também da infância no interior, onde essa atividade é comum. Conhecer a origem, o processo de plantio e o cuidado que se deve ter com as plantas é uma terapia para Hilário.


As hortas podem se ajustar a qualquer ambiente, seja em espaços compartilhados ou dentro de casa. As questões do uso de agrotóxicos, a conscientização sobre o que se consome e a vontade de resgatar costumes fazem parte de um crescente número de pessoas que priorizam um bem-estar não só individual, mas também coletivo. Estão incluídas também questões como a sustentabilidade e a saúde, na prevenção de doenças. O incentivo e a troca de informações geram maior conhecimento e entendimento, mostrando que é possível cada um ter sua própria horta.

Horta Comunitária Lomba Pinheiro. Foto: Guilherme de Faveri
Flavio Burg.
Horta Comunitária Lomba Pinheiro. Foto: Guilherme de Faveri
Horta Comunitária Lomba Pinheiro. Foto: Guilherme de Faveri

Reportagem realizada por Bianca Bueno, Guilherme de Faveri e Vitória Cunha para a disciplina de Jornalismo Especializado I do curso de Jornalismo do Centro Universitário Metodista IPA, com supervisão do professor Fabio Berti.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.