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Foto: Elvino Pinheiro/Reprodução Facebook

Intervenções artísticas mudam o cenário urbano

Texto feito para a disciplina de Projeto Experimental II em dezembro de 2015.

Bianca Bueno e Patrícia Varela.

A publicidade precisa estar em constante renovação. No início, o objetivo era direto: criar um produto e persuadir o consumidor a comprá-lo. Com o tempo, foi necessário uma regulamentação e aperfeiçoamento. “A publicidade é o combustível do sistema capitalista”, afirma o doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS, Francisco dos Santos. Os publicitários captam as necessidades do público-alvo e fazem uso de novos métodos, inclusive buscando ideias em outras áreas, como a psicologia. Nela, é possível compreender o comportamento do consumidor e agir em seu lado emocional.

Francisco entende que o nível do discurso/retórica é o que diferencia a publicidade que visa o lucro da publicidade institucional. Nessa linha, existe um ramo desse setor em que o objetivo não é a venda de um produto, e, sim, de uma ideia. Isso pode ser visto em ideias já consolidadas, como em cartazes incentivando as pessoas a doarem sangue e a dirigirem com cautela. Mas existe uma nova maneira de fazer publicidade institucional. Um exemplo é o projeto do grupo Somosinstantes, em parceria com a Sinergy Novas Mídias. Em outdoors distribuídos em Porto Alegre, são divulgadas mensagens positivas, como ‘Já falou que ama alguém hoje?’, ‘Calma, ainda dá tempo!’ ou outras com conselhos e ideias que tocam o público.

O início

“O que quero ver na rua quando eu passar por lá? Que tipo de lembrete preciso para amenizar a correria do dia a dia?”. Foi a partir dessas perguntas que Betina Scholl, Bárbara Lorenzi e Giulia Andreazza criaram o Somosinstantes. O grupo espalha cartazes com mensagens que transmitem positividade nas ruas. Betina, Bárbara e Giulia começaram como um grupo independente, que se popularizou.

O grupo, que se declara proporcionador de instantes, começou em Caxias do Sul, espalhando as mensagens através do que chamam de lambe-lambes, cartazes colados em locais públicos. As caxienses já acompanhavam outros trabalhos de intervenções urbanas, como o TXTURBANO, e sentiram a necessidade de se tornarem criadoras, e não mais observadoras desse tipo de intervenção. “Entendemos que a rua é um espaço público que deve ser utilizado, ressignificado, e que não há padrões ou restrições, qualquer um que tiver vontade pode fazer isso”, acrescenta Giulia. Segundo Francisco dos Santos, a publicidade institucional é utilizada para mudar o comportamento das pessoas, “para sensibilizar os consumidores em relação a uma ideia”.

“Nossa intenção é plantar pequenas sementes para que se crie uma corrente de coisas boas” — Giulia Andreazza

Somosinstantes em Porto Alegre

A divulgação de uma publicidade de cunho institucional precisa de uma empresa que atue por trás. Isso acontece, porque os criadores precisam de verba para veicular o anúncio. Foi isso que aconteceu quando o Somosinstantes chegou em Porto Alegre, através de uma parceria firmada com a Sinergy Novas Mídias para a divulgação das frases.

A Synergy descobriu a proposta de trabalho do Somosinstantes em uma reportagem e como já tinham um projeto semelhante — Eu olho POA –, viram no grupo caxiense a oportunidade de continuar com propostas de trabalho nessa linha, destaca Giulia, do Somosinstantes. Após essa união, o público aumentou muito nas redes sociais, dando visibilidade à iniciativa do grupo de Caxias do Sul.

Além da divulgação pelas redes sociais e o suporte da empresa, o Somosinstantes também envia, via correio, cartazes para outras cidades. A ideia é que as pessoas espalhem as frases, que chamam de ‘instantes’, tornando-se, então, protagonistas e agentes da mudança. “Nossa intenção é plantar pequenas sementes para que se crie uma corrente de coisas boas”, descreve Giulia.

Poesia em Guaíba

Outro adepto do lambe-lambe é o grupo Leialogo, de Guaíba, que faz intervenções poéticas pela cidade por meio de cartazes com frases autorais. Tudo começou quando o estudante de pedagogia Anderson Kubiaki fez uma pergunta por postagem, no Facebook: “E se rolassem intervenções pela cidade?”. Algumas pessoas curtiram e comentaram, entre elas estava Déia Aquini, pronta para fazer parte dessa ação. Mais tarde, Marcelo Rutshell e Juliana se juntaram à dupla.

Foto: Reprodução Facebook/Leialogo

O próximo passo foi escolher o “nome, estética e a preferência de poesias curtas. Que havia no acervo da página Miudezas Poéticas [página pessoal], nossas e das que recebemos diariamente na nossa página”, conta Anderson. O planejamento foi espontâneo: eles decidiram colar as poesias, marcaram os encontros pela Internet e saíram às ruas.

Assim como o SomosInstantes, o trabalho da Leialogo foi impulsionado pelas redes sociais e é o que mantém o grupo divulgando suas poesias em Guaíba. O objetivo maior é surpreender as pessoas e arrancar um sorriso delas ao verem as poesias pelas ruas.

Além do SomosInstantes e LeiaLogo, há diversas intervenções colorindo as cidades. Os adesivos do Fui Feliz Aqui são colados no lugar em que uma pessoa foi feliz. Nos cartazes do Cantando na Rua existem trechos de músicas, como Amigo Punk, da Graforréia Xilarmônica. “Atravessa a Osvaldo Aranha” está estampado perto do cruzamento dessa avenida com a Rua General João Telles. ‘Poesia no ônibus e no trem’ é uma iniciativa da Prefeitura de Porto Alegre e tem poesias coladas nos vidros dos ônibus municipais da capital.

A simplicidade com que essas intervenções são feitas é um dos fatores que chamam atenção, porque quebram a rotina do dia a dia. Ver algo diferente, como uma mensagem de otimismo, um conselho, uma poesia, faz a diferença. Um ‘Calma, ainda dá tempo’ na correria do dia a dia pode melhorar e mudar o dia de alguém.

(Obs.: Utilizo esse espaço para postar textos que faço na faculdade).