O lobby trans vende um mundo azul e rosa

Ser uma garota que gosta de caminhões ou um garoto que usa esmalte não faz de você “genderfluid”, apenas faz de você humano

Em um jantar, um amigo meu disse que eu era “genderfluid”. Eu fiquei surpresa. Ele estava, como suspeitei, meio que brincando. Mas a inferência foi clara. Eu sou robusta, raramente uso salto, vivo emburrada, tenho opiniões fortes, odeio shoppings e gosto de treinos ao ar livre. Então, por definições modernas, eu não posso ser totalmente fêmea, mas algo no meio de um espectro entre macho e fêmea.

Eu nunca havia pensado sobre minha identidade de gênero antes. Não havia me ocorrido que não ser uma garota feminina significava que eu não era 100% mulher. A questão, sempre acreditei, era que os termos “homem” e “mulher” precisavam ser expandidos, para destruir as prisões rosa e azul. Então uma garotinha pode gostar de caminhões, astronautas, brincar na lama e ainda ser uma garota; um garotinho pode usar esmalte, brincar de boneca e não deixar de ser um menino.

Mas não é mais tão simples. Eu estava conversando com uma aluna que conheço desde os 11 anos; inventiva, engraçada, extravagante, sempre fazendo bagunça com meu filho. Mais tarde ela achou a adolescência feminina, obcecada com maquiagem, cabelo e fofocas, enjoada e repressiva. Ela leu o livro de Caitlin Moran, descobriu o feminismo e a si mesma. “Mas se eu tivesse 13 anos agora” disse ela, “eu estaria lendo fóruns trans online e achando que talvez eu não fosse uma garota”.

É o ponto em que estamos agora. No programa Radio 4’s Today de ontem ouvimos Colin, de 16 anos, que transicionou para homem há 2 anos. Uma moleca que usava roupas de menino quando pequena, aos 14 anos diz ter se “identificado com pessoas que viu na internet” e que agora esmaga os seios com elásticos dolorosos. Ouvimos uma menina trans chamada Poppy dizer que era “afeminada, sofria bullying, então mudei para garota e agora gostam mais de mim”.

Como a diretora da clínica Tavistock reportou, antes seus pacientes eram raros, jovens estressados com disforia, uma condição psiquiátrica que os fazia ter certeza de terem nascido no corpo errado. Agora uma nova, maior classe de pacientes, como Colin e Poppy, vêm emergindo, e seus desejos de transição parecem vir de fontes externas. Alguns exigem tratamentos hormonais que aumentam as chances de câncer ou fazem cirurgias que os deixam precocemente inférteis ou insensíveis.

Uma carta do conselho da cidade de Brighton recentemente pediu a pais em uma escola que ajudassem seus filhos de 4 anos a escolher o gênero com o qual melhor se identificam. Que estressante para eles! E se o meu filho for muito entusiasmado com roupas? Se a sua menininha diz “odeio rosa, devo ser um menino”, você responde “dane-se rosa, vista o que quiser” ou, como aconselham os transativistas, você “honra o verdadeiro gênero” de sua criança? Eu conheci um menino que jurava ser um cachorro, e agora crianças da idade dele são encorajadas a trocar de nome e pronome. A plasticidade da identidade infantil, a natural personalidade flexível da juventude, agora é vista como definitiva; mesmo que 80% das crianças que se digam do sexo oposto cessem essa crença quando adolescentes ou adultas, a maioria se revelando como gays ou lésbicas.

A causa trans é louvada como a luta mais libertária. E devemos defender homens e mulheres trans da discriminação e terrível violência que muitos enfrentam. Mas isso não pode nos proibir de ter uma certa visão de gênero, diferente da do transativismo atual, que é tão conservadora quanto a dos Mad Men dos anos 50. Até recentemente Eddie Izzard era um travesti, vestindo maquiagem e saias e dizendo “não são roupas de mulher, são as minhas roupas!”. Como Bowie, Prince e Grayson Perry, ele criou uma categoria masculina maior, mais inclusiva, mais rica. Agora ele diz que tem “genes femininos e genes masculinos”. Filmado a caminho da manicure, ele declarou, “sendo uma pessoa trans, adoro cuidar das unhas”.

Descobri que os homens não entendem por que isso enfurece mulheres. Por que as feministas são tão más com o Eddie? Bem, porque ele não está mais dizendo “eu sou um cara que curte pintar as unhas”. Ele declara que “porque eu gosto de fazer as unhas, eu sou mulher”. Ele reduz a mulher a gostar de fazer as unhas, maquiagem e todos os esteriótipos que nos foram impostos e que não fazem de nós mulheres. Por esta definição reducionista e sexista, ele é mais mulher do que eu.

Nos EUA está rolando o debate inflado sobre o acesso de estudantes trans a banheiros públicos e universitários. Na Carolina do Norte e no Mississipi, legisladores estaduais passaram uma lei dizendo que estudantes devem usar apenas os banheiros do sexo com o qual nasceram, por causa do medo de ataques, principalmente a garotas trans em banheiros masculinos. Barack Obama ameaçou cortar os fundos dos estados que aceitassem essa lei. Essas legislações vieram de preconceitos horríveis, mas também pela expansão do movimento trans, que exige que qualquer pessoa que diga se identificar como fêmea, mesmo famosos machões barbados da internet, tenha o direito de usar banheiros — e agora prisões — femininos. Eu realmente não me importo que uma mulher trans use meu banheiro, porque eu provavelmente nem vou notar que ela é trans. Mas a idéia de que qualquer homem que se “sinta” fêmea possa entrar livremente provoca um compreensível temor por parte das mulheres. Ao invés de entender os medos, os ativistas gritam “transfobia!”, e do debate polarizado surgem leis radicais.

O desafio se tornou identificar pessoas trans genuínas que precisam de ajuda, numa cultura que atrai adolescentes, no auge da influenciabilidade e mudanças, para situações ainda mais confusas. No fundo o lobby trans sustenta a mesma baboseira que caracteriza a pornografia e a direita Tea Party(extrema): que homens são agressivos e musculosos e mulheres, bonecas rosas para sexo. Sentir que você não é nenhum dos dois não faz de você “genderfluid” ou qualquer um dos 72 gêneros do Facebook. Apenas faz de você humano.

Por Janice Turner

Texto original: http://www.thetimes.co.uk/article/the-trans-lobby-peddles-a-pink-and-blue-world-j3kqmv8lk

Revisão de literatura sobre persistência de disforia de gênero: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2697020/