Por Que ‘A Geração Mais Queer De Todos Os Tempos’ Não Conseguiu Combater A Opressão Das Mulheres

Por Meghan Murphy/Feminist Current

No The Establishment, Tori Truscheit pergunta: “Como a geração mais queer de todos os tempos pode acreditar em papéis de gênero?”

Se te parece chocante a enorme falta de lucidez de quem faz essa pergunta, parabéns: você tem prestado atenção. Se, por outro lado, você está coçando a cabeça, tentando entender por que uma sociedade que está entupida de arco-íris e glitter, com inúmeros “gêneros” para escolher, permanece tão firmemente misógina, você provavelmente tem gastado muito tempo lendo o Everyday Feminism e o The Establishment

[No Brasil, você deve estar passando muito tempo lendo as páginas Todas Fridas, Empodere Duas Mulheres, Mídia Ninja, Quebrando o Tabu ou assistindo muitos vídeos da Ellora e da Jout Jout].

Temos um problema para começar: a palavra “queer”, que no passado (antes considerada um insulto, depois resignificada) se referia mais explicitamente a gays e lésbicas, atualmente quer dizer praticamente qualquer coisa. Temos mulheres heterossexuais e homens chamando a si mesmos de “queer” porque afirmam ser “não-binários”, gostarem de sexo com fetiches, ou por usarem maquiagem com glitter.

“Espere – quem decide o que é queer e o que não é? Sexualidades “não-normativas”, sexo e fetiches, todos cabem sob o guarda-chuva queer”.

“Latinx queer não-binária. Editora de beleza que adora beleza e odeia padrões de beleza. Eles.”

[Caso não saiba, pessoas que se “identificam” como não-binários dizem que preferem ser chamado de “eles” ao invés de “ele” ou “ela”.]

Em outras palavras, hoje, “queer” e “gay” não são a mesma coisa. E misturar a homossexualidade com uma variedade de identidades autoatribuídas ou cortes de cabelo modernos significa que a pergunta de por que “a geração mais queer” pode não ser progressista na questão da libertação das mulheres é falha desde o início, pois não fica claro o que/a quem a palavra “queer” sequer significa neste contexto.

De qualquer forma, quer estejamos falando de homens gays ou daqueles que se identificam como “queer”, há uma razão óbvia que explica por que os papéis de gênero sexistas permanecem existindo: ser “queer” não é necessariamente a mesma coisa que ser feminista. De fato, em muitos aspectos, o movimento queer rejeitou totalmente a libertação das mulheres como um objetivo político.

Truscheit está certa sobre uma coisa: o movimento do casamento gay não foi particularmente feminista. Pelo contrário, este foi um esforço liberal que optou por não desafiar a instituição do matrimônio em si – que existe apenas porque os homens desejavam trocar mulheres como mercadorias entre eles – e em vez disso lutaram pela inclusão em uma tradição heterossexista e patriarcal. Esta é realmente uma demonstração útil da diferença entre feminismo liberal e feminismo radical: um luta pelo acesso igual a instituições já existentes, o outro luta por um sistema (e, portanto, novas instituições) completamente novo.

A maioria (se não todos) dos liberais americanos apóia o casamento gay, inequivocamente, mas não necessariamente tem qualquer interesse em destruir a supremacia masculina. (Isso é evidenciado, por exemplo, pelo apoio liberal à indústria pornográfica e à legalização de bordéis.) Os liberais também são capitalistas, o que significa, novamente, que investem na manutenção dos sistemas já estabelecidos, mas ajustando-os pouco, a fim de oferecer uma ilusão de igualdade (ou seja, se todos nós pudermos ganhar mais dinheiro, nos casarmos e possuirmos propriedades, o mundo será um lugar melhor).

É aqui que os liberais norte-americanos tendem a se perder na questão do feminismo: eles não conseguem entender que, para alcançar a libertação das mulheres e outros grupos oprimidos, o capitalismo e o patriarcado precisam de mais do que alguns ajustes.

Truscheit escreve:

“Mais da metade dos alunos do ensino médio se identificam como algo que não seja heterossexual, 12% dos millennials [pessoas da geração do milênio, geração da internet ou geração Y] são trans ou não-conformes com gênero, e os millennials apoiam o casamento gay de forma esmagadora.

Em um mundo onde os millennials estão cada vez mais abraçando grupos marginalizados, você imaginaria que suas visões sobre gênero seguiriam o mesmo caminho.”

Mas o lance é que nenhuma das posições ou identidades listadas aqui são necessariamente anti-patriarcais. Em geral, a luta liderada por homens pela “igualdade no casamento”, ignorou em seus esforços o sofrimento das mulheres, o que significa que o sistema opressivo por trás da homofobia permaneceu intacto, apesar dos direitos ao casamento. O discurso de identidade de gênero não compreende como funciona o sistema de gênero e que ele existe para oprimir as mulheres e legitimar a supremacia masculina. E “abraçar grupos marginalizados” não significa entender ou combater os sistemas subjacentes que garantem que certos grupos sejam oprimidos como uma classe. Para os liberais, a “marginalização” não precisa acontecer em uma base de classe – pode acontecer numa base individual, e é por isso que as sociedades liberais continuam se afundando cada vez mais em violência e grande desigualdade – porque lutar contra as estruturas de opressão não pode acontecer dentro de um quadro individualista.

O grande erro de Truscheit é buscar uma solução para o patriarcado em outro movimento anti-feminista e liberal: a política queer.

Transativista Mya Byrne na Pride San Francisco, 25 de junho de 2017.

Enquanto Truscheit culpa os “gays mainstream” por não “questionarem gênero”, ela deixa o movimento trans fora da análise – um estranho ponto cego, considerando que o ativismo trans é amplamente responsável por repopularizar a ideia de gênero em si. Enquanto o feminismo diz que gênero, sob o patriarcado, é algo que devemos rejeitar, não abraçar, o movimento queer de hoje coloca gênero como divertido e libertador. De fato, o próprio transgenerismo só pode existir enquanto tivermos gênero e acreditarmos que os papéis de gênero são bons, desde que os escolhamos.

Truscheit diz que os “ativistas brancos do sexo masculino por trás do movimento pela igualdade no casamento sacrificaram os direitos trans no altar de seu próprio resultado desejado”, ligando isso ao que ela percebe como uma falha em “questionar gênero”. Mas o que ela não percebe é que o fim do gênero significa o fim do transgenerismo – não podemos nos “identificar” com os papéis de gênero se não houver nenhum com o qual nos identificar. De fato, se o movimento pelos direitos dos gays tivesse explicitamente seguido o gênero, o resultado não teria sido de sua união com o movimento de transgêneros.

Embora eu entenda o sentimento de decepção com relação àqueles que nos rodeiam e que afirmam querer um mundo mais justo, mais igualitário, o que as feministas já aprenderam repetidas vezes nos últimos 150 e poucos anos é que não podemos confiar em movimentos centrados em homens. Para libertar as mulheres, precisamos colocar nossa energia no ativismo político e na ideologia que centraliza as mulheres e aborda a raiz da supremacia masculina.

O transgenerismo não vai ajudar a nos salvar do domínio masculino tanto quanto homens gays liberais ou homens anarquistas. Se quisermos uma mudança real, precisamos olhar para trás e temos que seguir os passos das mulheres que romperam laços com os homens que as venderam e resolveram seus problemas com suas próprias mãos. De Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton, que, após serem traídas por seus aliados abolicionistas, formaram a National Woman Suffrage Association (NWSA) [Associação Nacional pelo Sufrágio Feminino] que se recusou a apoiar mudanças constitucionais que não emancipassem as mulheres; às feministas radicais do final da década de 1960, que disseram à esquerda para ir se foder porque “vamos começar o nosso próprio movimento”; às mulheres negras envolvidas na política militante negra, das quais se esperava que tivessem um “papel feminino tradicional”, permitindo aos homens que eles liderassem o movimento e mantivessem posições de poder dentro dele – essas mulheres aprenderam as lições que já deveríamos ter memorizado nesta altura do campeonato.

Há uma única resposta para a questão do patriarcado – sempre houve. Enquanto a política queer pode estar mais na moda (resultado, em parte, de sua comercialização e ethos individualista), o feminismo é o único movimento político que pode libertar as mulheres dos grilhões da dominação masculina.

Liberais como Truscheit e suas colegas do The Establishment continuarão andando em círculos até decidirem retomar de onde as radicais da primeira e segunda onda pararam. Precisamos parar de procurar por aí e de ficar nos perguntando a quem nos dirigir: as nossas irmãs têm a resposta.

Tradução: Bianca Chiesa

Matéria original publicada no Deep Green Resistance News no dia 9 de Julho de 2017.