50 anos de Tropicália

Faz tempo que quero voltar a escrever. Chegou o momento. Essas palavras que escorrem dos meus dedos são minha única chance de tentar comunicar, mesmo que breve, mesmo que falha, minhas intenções.

Estava assistindo ao documentário Tropicália (2012) e tive que parar pra anotar essas idéias (e olha que, de apego ao passado, ainda sinto a necessidade de acentuar essa palavra, parece-me que ideias não são tão boas quanto idéias).

olha essa juventude vanguardista maravilhosa

Estou montando uma exposição sobre a Tropicália, esse movimento maravilhoso que contagiou o país há 50 anos e agora também me contagia. Meus olhos se enchem de água e meu coração fica apertado. Finalmente, depois de tanto tempo, consigo entender, através de tanto que entrei em contato nos últimos meses, finalmente entendo: é isso que quero.

Fico refletindo sobre o que crio, por quê crio, como crio e todas essas coisas se resumem ao sentimento que consigo experimentar através da memória desse passado que, mesmo distante, mesmo inexistente — pra mim, que não o vivi — se torna tão palpável: É EXATAMENTE ISSO QUE QUERO.
São essas as palavras que permeiam todos os meus pensamentos enquanto estudo, enquanto assisto, enquanto ouço e que ainda não sei usar enquanto crio. Mas é isso.

E por isso, não digo o sucesso, porque por muitas vezes já me perguntei: “eu almejo o sucesso?”. E digo que sim, no sentido de que quero ter sucesso nas tentativas de exprimir todos esses sentimetos e furores que experimento, mas também digo que não, porque, não, não é isso que quero. Não quero nem, diga-se de passagem, reconhecimento. Não quero fama, não quero dinheiro, não quero essa massagem do ego que parece permear todas as vidas de artistas que alcançam sucesso. Acabo me questionando o que é o sucesso, então. É possível alcançá-lo sem ceder às coisas que parecem estar ligadas ao sucesso dos outros? Se de fato me sucedo e o alcanço, tenho que me tornar isso que tanto desprezo e viver essa vida que acho vazia de significado?
Mas não posso deixar esses questionamentos me desviarem do meu ponto principal em parar e escrever isso que foi: é isso que quero.

Quero criar algo novo. Cansei desse mais do mesmo, cansei-me das coisas da moda, desejo mais do que isso, quero trazer ao mundo, parir diante de todos, algo que me orgulhe de ter trazido pra cá, não por vaidade, não por perfeição, mas porque gostaria de ter a capacidade de causar esse impacto. Quero fazer alguma diferença, talvez. Quero, de fato, simplesmente fazer diferente.
Tenho ficado estagnada em todas as formas que posso criar, porque sinto que de um jeito ou de outro estou repetindo velhas ideias, dando a mesma forma a todas as coisas, não consigo me desprender de tudo que já existe.

É isso: quero a capacidade de criar algo que ainda não existe, quero o impensado mesmo pra mim. Surpreender. Talvez nem surpreender, não precisa ser surpreendente, mas não consigo mais viver e carregar esse pesso que é o não-criar. Me sinto o tempo todo observando e absorvendo e criando cópias, o que pode ser mesmo algo contraditório de se dizer, porque como seria possível criar uma cópia? Mas é assim que me sinto e me sufoca essa sensação de não agregar, não acrescentar nada a essa existência, porque nada que faço carrega significado se este já foi apresentado por outro. Se tornou uma necessidade básica ser capaz de expressar essa vontade e de fato construir algo que não seja mais uma mera repetição.

E aí, como faço isso? O desespero está sempre ao meu lado suspirando palavras, me dizendo que é possível sim, mas que não sou eu uma dessas pessoas a criar coisas inimagináveis. Não sou eu um desses capazes de romper e eu, não, eu por outro lado, repito a mim mesma sempre que possível, isso não é possível, todas as coisas são possíveis e sim, um dia será possível fugir dessa casca, desse casulo, dessa coisa que me prende e me impede de entrar em contato com aquilo que me espera nesse plano inimaginável porém, creio com uma fé quase religiosa, existente e sim, muito palpável, e um dia, será possível, vou entrar em contato com esse plano, que na verdade só existe dentro de mim, e tirar de lá, à força e com dor, mas não menos amor, parir realmente, trazer pro mundo essa coisa diferente e que sacie essa vontade que todo os dias sinto quando acordo e que agora me assola, mesmo enquanto tento assitir a um filme, algo que assim que parido não satisfaça a vontade, porque não é assim que a vontade funciona, mas algo que possa dizer: era isso que queria e alcancei. É isso que quero. Como posso alcançar essa vontade?