“Vacilona, cadê você? Seu mano tá morrendo o que você vai fazer?” — Fórmula mágica da paz, os medos que não se contam nos dedos e a impotência.”

Bianca Guimarães
Sep 3, 2018 · 6 min read

Salve, terráqueos! Estamos entrando em sintonia e infelizmente não é a nossa rádio êxodos, mas garanto que a frequência será a mesma. Para impulsionar a prática da escrita, resolvi criar um quadro dentro desse medium. Sim! Igualzinho televisão e rádio. Nessa espécie de “qual é a música?”, vou falar sobre as músicas que transpassam a minha vivência e me marcaram de alguma forma. Vamos juntes nessa? Começaremos por “Fórmula mágica da paz”, composto por Edi Rock e Mano Brown, lançado no álbum “Sobrevivendo ao Inferno” em 1997. Obra selecionada como obrigatória para o vestibular da Unicamp de 2020.

“Choro e correria no saguão do hospital, dia das criança, feriado e luto final. Sangue e agonia entra pelo corredor. Ele tá vivo? Pelo amor de Deus doutor! Quatro tiros do pescoço pra cima, puta que pariu a chance é mínima! Aqui fora, revolta e dor lá dentro, estado desesperador! Eu percebi quem eu sou realmente, quando eu ouvi o meu subconsciente: E aí mano Brown? Vacilão! Cadê você? Seu mano tá morrendo o que você vai fazer? Pode crê, eu me senti inútil, eu me senti pequeno, mais um cuzão vingativo. Puta desespero, não dá pra acreditar, que pesadelo, eu quero acordar. Não dá, não deu e não daria de jeito nenhum. O Derlei era só mais um rapaz comum, dali a poucos minutos, mais uma dona Maria de luto! […] Porra, eu tô confuso, preciso pensar. me dá um tempo pra eu raciocinar, eu já não sei distinguir quem tá errado sei lá, minha ideologia enfraqueceu. Preto, branco, polícia, ladrão ou eu? Quem é mais filha da puta? Eu não sei! Aí fudeu, fudeu, decepção essas hora, a depressão quer me pegar vou sair fora …” (Fórmula mágica da paz — Racionais Mc’s).

Em Outubro de 2017, eu vivi um trecho de fórmula mágica da paz. Num sábado comum, após um show de RAP [de um MC que não pode ser citado por ser um escroto de marca maior] o meu celular tocou, ao entender ouvi: “Bibi, o Leandro morreu”. O mundo ficou em stand-bye até eu ligar os pontos entre a frase e as possíveis causas. Na velha brincadeira de polícia e ladrão, eu perdi um irmão.

Mesmo com toda ciência do racismo, da brutalidade policial e do jeitinho do sistêmico de fabricar ladrão, eu me choquei muito como se não soubesse de nada disso. Quando Leandro se foi, me vi com várias dores para lidar. Para além do luto, a minha boca amargava de raiva. Eu literalmente tremi por duas semanas. Mais uma vez vi a minha vivência era trançada por umas tantas letras de RAP que ouvi. Vi essa trança sendo reforçada por escrevivências periféricas consideradas como “lirismo agressivo” doído pros ouvidos outros. Vi várias das minhas perspectivas escorrer no meio dos dedos por medo.

Dias antes da morte de Leandro, comecei a leitura do livro “O ódio que você semeia, da Angie Thomas”. O título em inglês, The Hate U Give, é um trecho de um rap de Tupac (e forma o genial anagrama THUG — “bandido”). Esse livro narra a história da morte de um jovem pela perspectiva da melhor amiga que havia acompanhado a morte do seu amigo. A protagonista da história vivência com dor e revolta a angustiante saga de provar que não havia nada que coubesse como justificativa para tal morte. Eu me vi em Starr, portanto demorei alguns meses pra ler os poucos capítulos restantes do livro. Starr teve a díficil tarefa de escolher entre o grito-denuncia ou o silêncio.

Como é difícil ter apenas duas opções para lidar com a morte. Eu quis gritar quando chamaram o Leandro de ladrão e disseram que havia uma arma [que nunca foi achada], mas também estava tão fadigada de toda a situação. Hoje eu consigo gritar. Há brincadeiras e memes que dizem que a poesia não muda o sistema, mas por enquanto é a única forma que eu tenho de gritar. Essa é a do Leandro:

- PARADA DE TAIPAS, 21 DE OUTUBRO DE 2017 ás 15 horas e 22 minuciosos minutos-

Jovem de 22 anos é baleado por policias em um troca de tiros após um assalto na zona noroeste de São Paulo

Jovem de 22 anos é torturado e baleado por policiais em uma troca de tiros após um assalto na zona noroeste de São Paulo.

Jovem de 22 anos é torturado e baleado por policiais em uma troca de tiros -em que o mesmo não fazia porte de arma de fogo- após assalto na zona noroeste de São Paulo.

Jovem de 22 anos é…

O corpo preto

debaixo do lençol branco

encima da poça de sangue, suor e pranto

chinelo largado-virado no chão

a tia emendando um louvor com oração

será que esse deus é mesmo tão sábio? tão são?

mesmo tão poderoso não desfaz a compleição

que nos tira a sanidade

amplifica a maldade

estica a saudade

deixa fluir que nem mar o nosso sangue na mão dos militares

estruturas ósseas periféricas todos os dias são derrubadas

de filhos da pólvora são chamadas

e o estralar vem de armas com mira bem programada

tomaram de assalto a vida do meu amigo-irmão

e na televisão só tiveram o trabalho trocar o nome dele por ladrão

era Leandro, viu? Leandro!

vulgo perna de seriema, pretão, saco de vacilo, pernalonga, pico, canela cinzenta, imitação barata de Wando-

pra ninguém nunca mais ter engano ::::: Leandro

eu e Leandro quando pequenos firmamos um trato num acordo oral

ficaríamos juntos na cohab desviando do mal

os nossos dedos viravam armas

quando ainda nem imaginávamos o tamanho dessa batalha

que a vida navalha

e o redemoinho do tempo

mudaria o contrato firmado e consagrado por aquele vento

fizemos sonhos imensos no meio de um parquinho

era pra voar muito mais longe, parceiro.

não só como aviãozinho

num gesto premeditado

o rap desesperado avisou que o caminho era pra outro lado

não foi tão fácil obedecer o que RZO cantou

quando o dinheiro da condução não constou

enquanto cabeças adultas queimavam em preocupações vulcânicas

nois continuava nas ladeiras em fluidez quase oceânica

na contramão da absurdez

engatilhada pra nos matar bem antes dos dezesseis

sonhava em vê-lo pegar rabeira na poesia

usando o microfone como passaporte para uma era que mais valia

ou honrando os samba que o vô cantava

enquanto nos ensinava que adulto bom, manjava de malandragem e sambava

eu já vi os olhos do Leandro brilhar pelo boot que não ia comprar

já vi os mesmos olhos virarem mar pelo danone que o irmão não ia provar

via nossas famílias no compartilhamento

do passe, da roupa e do alimento

antes de chegar na décima oitava linha de nossas vidas,

ele já tinha barba

calça caída

noites curtidas

sangue fardado na mãos,

e o rotulo escorrendo entre os prédios da COHAB: LADRÃO!

semana passada

trombei o pretão com um livro na mão

falando que pro supletivo tinha voltado

que ia encostar lá em casa pra pegar uns livros emprestado

a mochila pesava, cheia de esperança

e a gargalhada era garantida que nem o joelho ralado na infância

o crime? tinha largado

descarrilou as carreira

disse que da cocaína não chegava perto nem na brincadeira

desvia das biqueira

aquela vida jazzia

e ainda perguntou que dia nóis ia pro role de poesia?

mesmo assim a dona morte inventou de levar

o corpo do Leandro junto com as promessa de me trombar

e desenrolar os papo que a rotina comia

em cada despedida era um beijo na testa que eu recebia

Leandro subiu que nem pipa desbravando o céu

sumiu que nem meus rascunhos no papel

subiu que nem aquele tênis que fica preso no fio elétrico

sumiu deixando aquela magia do seu sorriso martelando na cabeça de qualquer cético

e eu que não conto mais todas as perdas nos dedos

eu que tenho as costas pesadas por carregar tantos medos

eu que na velocidade de uma piscada

na mira de uma farda

fico com um a menos nessa parada

eu pego o enrolar da garganta do luto

tomo impulso pro grito da luta

honro a missão que a mim foi dada

nos quatro cantos do mundo essa porra vai ser denunciada

cê ainda lembra o nome dele?

cê ainda lembra a voz dele?

cê lembra o nome dele?

cê lembra o sorriso com diastema dele?

cê lembra o nome dele?

cê lembra do chão tremer com o corpo dele caindo?

cê lembra o nome dele?

cê ouviu o sonho dele ruindo?

cê lembra o nome dele?

era Leandro.

Sabendo que “vale muito pouco a nossa vida, a nossa lei é falha, violenta e suicida”, eu creio que a minha formula mágica da paz não inclui novos corpos de Leandros pelo chão.

Bianca Guimarães

Written by

moradora do lado noroeste de são paulo. pirituba, brasilândia, cohab de taipas e redondezas. 21 anos. cria do samba e do hip hop.

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