“Vacilona, cadê você? Seu mano tá morrendo o que você vai fazer?” — Fórmula mágica da paz, os medos que não se contam nos dedos e a impotência.”

Salve, terráqueos! Estamos entrando em sintonia e infelizmente não é a nossa rádio êxodos, mas garanto que a frequência será a mesma. Para impulsionar a prática da escrita, resolvi criar um quadro dentro desse medium. Sim! Igualzinho televisão e rádio. Nessa espécie de “qual é a música?”, vou falar sobre as músicas que transpassam a minha vivência e me marcaram de alguma forma. Vamos juntes nessa? Começaremos por “Fórmula mágica da paz”, composto por Edi Rock e Mano Brown, lançado no álbum “Sobrevivendo ao Inferno” em 1997. Obra selecionada como obrigatória para o vestibular da Unicamp de 2020.
Em Outubro de 2017, eu vivi um trecho de fórmula mágica da paz. Num sábado comum, após um show de RAP [de um MC que não pode ser citado por ser um escroto de marca maior] o meu celular tocou, ao entender ouvi: “Bibi, o Leandro morreu”. O mundo ficou em stand-bye até eu ligar os pontos entre a frase e as possíveis causas. Na velha brincadeira de polícia e ladrão, eu perdi um irmão.
Mesmo com toda ciência do racismo, da brutalidade policial e do jeitinho do sistêmico de fabricar ladrão, eu me choquei muito como se não soubesse de nada disso. Quando Leandro se foi, me vi com várias dores para lidar. Para além do luto, a minha boca amargava de raiva. Eu literalmente tremi por duas semanas. Mais uma vez vi a minha vivência era trançada por umas tantas letras de RAP que ouvi. Vi essa trança sendo reforçada por escrevivências periféricas consideradas como “lirismo agressivo” doído pros ouvidos outros. Vi várias das minhas perspectivas escorrer no meio dos dedos por medo.
Dias antes da morte de Leandro, comecei a leitura do livro “O ódio que você semeia, da Angie Thomas”. O título em inglês, The Hate U Give, é um trecho de um rap de Tupac (e forma o genial anagrama THUG — “bandido”). Esse livro narra a história da morte de um jovem pela perspectiva da melhor amiga que havia acompanhado a morte do seu amigo. A protagonista da história vivência com dor e revolta a angustiante saga de provar que não havia nada que coubesse como justificativa para tal morte. Eu me vi em Starr, portanto demorei alguns meses pra ler os poucos capítulos restantes do livro. Starr teve a díficil tarefa de escolher entre o grito-denuncia ou o silêncio.
Como é difícil ter apenas duas opções para lidar com a morte. Eu quis gritar quando chamaram o Leandro de ladrão e disseram que havia uma arma [que nunca foi achada], mas também estava tão fadigada de toda a situação. Hoje eu consigo gritar. Há brincadeiras e memes que dizem que a poesia não muda o sistema, mas por enquanto é a única forma que eu tenho de gritar. Essa é a do Leandro:
- PARADA DE TAIPAS, 21 DE OUTUBRO DE 2017 ás 15 horas e 22 minuciosos minutos-
Jovem de 22 anos é baleado por policias em um troca de tiros após um assalto na zona noroeste de São Paulo
Jovem de 22 anos é torturado e baleado por policiais em uma troca de tiros após um assalto na zona noroeste de São Paulo.
Jovem de 22 anos é torturado e baleado por policiais em uma troca de tiros -em que o mesmo não fazia porte de arma de fogo- após assalto na zona noroeste de São Paulo.
Jovem de 22 anos é…
O corpo preto
debaixo do lençol branco
encima da poça de sangue, suor e pranto
chinelo largado-virado no chão
a tia emendando um louvor com oração
será que esse deus é mesmo tão sábio? tão são?
mesmo tão poderoso não desfaz a compleição
que nos tira a sanidade
amplifica a maldade
estica a saudade
deixa fluir que nem mar o nosso sangue na mão dos militares
estruturas ósseas periféricas todos os dias são derrubadas
de filhos da pólvora são chamadas
e o estralar vem de armas com mira bem programada
tomaram de assalto a vida do meu amigo-irmão
e na televisão só tiveram o trabalho trocar o nome dele por ladrão
era Leandro, viu? Leandro!
vulgo perna de seriema, pretão, saco de vacilo, pernalonga, pico, canela cinzenta, imitação barata de Wando-
pra ninguém nunca mais ter engano ::::: Leandro
eu e Leandro quando pequenos firmamos um trato num acordo oral
ficaríamos juntos na cohab desviando do mal
os nossos dedos viravam armas
quando ainda nem imaginávamos o tamanho dessa batalha
que a vida navalha
e o redemoinho do tempo
mudaria o contrato firmado e consagrado por aquele vento
fizemos sonhos imensos no meio de um parquinho
era pra voar muito mais longe, parceiro.
não só como aviãozinho
num gesto premeditado
o rap desesperado avisou que o caminho era pra outro lado
não foi tão fácil obedecer o que RZO cantou
quando o dinheiro da condução não constou
enquanto cabeças adultas queimavam em preocupações vulcânicas
nois continuava nas ladeiras em fluidez quase oceânica
na contramão da absurdez
engatilhada pra nos matar bem antes dos dezesseis
sonhava em vê-lo pegar rabeira na poesia
usando o microfone como passaporte para uma era que mais valia
ou honrando os samba que o vô cantava
enquanto nos ensinava que adulto bom, manjava de malandragem e sambava
eu já vi os olhos do Leandro brilhar pelo boot que não ia comprar
já vi os mesmos olhos virarem mar pelo danone que o irmão não ia provar
via nossas famílias no compartilhamento
do passe, da roupa e do alimento
antes de chegar na décima oitava linha de nossas vidas,
ele já tinha barba
calça caída
noites curtidas
sangue fardado na mãos,
e o rotulo escorrendo entre os prédios da COHAB: LADRÃO!
semana passada
trombei o pretão com um livro na mão
falando que pro supletivo tinha voltado
que ia encostar lá em casa pra pegar uns livros emprestado
a mochila pesava, cheia de esperança
e a gargalhada era garantida que nem o joelho ralado na infância
o crime? tinha largado
descarrilou as carreira
disse que da cocaína não chegava perto nem na brincadeira
desvia das biqueira
aquela vida jazzia
e ainda perguntou que dia nóis ia pro role de poesia?
mesmo assim a dona morte inventou de levar
o corpo do Leandro junto com as promessa de me trombar
e desenrolar os papo que a rotina comia
em cada despedida era um beijo na testa que eu recebia
Leandro subiu que nem pipa desbravando o céu
sumiu que nem meus rascunhos no papel
subiu que nem aquele tênis que fica preso no fio elétrico
sumiu deixando aquela magia do seu sorriso martelando na cabeça de qualquer cético
e eu que não conto mais todas as perdas nos dedos
eu que tenho as costas pesadas por carregar tantos medos
eu que na velocidade de uma piscada
na mira de uma farda
fico com um a menos nessa parada
eu pego o enrolar da garganta do luto
tomo impulso pro grito da luta
honro a missão que a mim foi dada
nos quatro cantos do mundo essa porra vai ser denunciada
cê ainda lembra o nome dele?
cê ainda lembra a voz dele?
cê lembra o nome dele?
cê lembra o sorriso com diastema dele?
cê lembra o nome dele?
cê lembra do chão tremer com o corpo dele caindo?
cê lembra o nome dele?
cê ouviu o sonho dele ruindo?
cê lembra o nome dele?
era Leandro.
Sabendo que “vale muito pouco a nossa vida, a nossa lei é falha, violenta e suicida”, eu creio que a minha formula mágica da paz não inclui novos corpos de Leandros pelo chão.