Desmedida
O nada pode ser demais.

O problema nunca foi o que Frank deixou de fazer — como muitas mulheres reclamam de seus seus exes. O problema é o que Frank fazia a mais: amava demais, presenteava demais, dormia demais, vivia demais, comia demais, falava demais, cheirava bem demais, era capaz de ser íntimo demais de qualquer estranho. Seu anseio pela vida valia pelos dois. Só que tantos “tantos” foram cansando Ana, que se via cada vez mais sufocada pelo que lhe era oferecido sem pedir. Nas conversas de bar, enquanto a maioria reclamava da escassez de atenção dos parceiros, ela reclamava dos excessos. Nem tinha coragem de dizer em voz alta, eram constatações para si, pois sabia que seria tida como sortuda pelas que sofriam com desatenções. E, de fato, quando conseguia contar algo que Frank havia feito, Ana percebia uma certa implicância em sua fala. Sentia que estava sendo injusta. Afinal, qual o problema de um homem ser dado a excessos, principalmente quando tudo o que fazia era, de certa forma, para o bem? Ana se sentia ranzinza por julgar tamanho apreço que ele nutria por qualquer detalhe cotidiano.
Na primeira vez em que viajaram juntos para fora do país, Frank comprou numa feira de antiguidade um baú-banco de madeira, todo talhado e pintado a mão. Era lindo, mas um verdadeiro trambolho para ser souvenir de viagem, jamais caberia na mala. Ana achou graça na época, era enternecedora a maneira como ele descrevia os detalhes do móvel. A paixão despertada por um pequeno e desajeitado pedaço de madeira abandonado em uma feira de antiguidades justificava, para Frank, o quanto valia a pena segurá-lo durante um dia inteiro de passeio pelas ruas de Buenos Aires. Assim como também justificava brigar com a companhia aérea para conseguir embarcá-lo. Quando chegaram em casa, o banco ganhou um lugar de destaque na sala, e uma semana depois foi totalmente esquecido. O baú, que seria muito útil para guardar coisas, segundo Frank, nunca foi usado para nada. Esteve sempre vazio.
Ana foi percebendo que as paixões de Frank eram efêmeras, como são a maioria das paixões. Não necessariamente se transformavam em amor, ou no oposto, em ódio. As emoções, quando acalmadas, iam para o caminho da indiferença. Era como se o que foi amado nunca tivesse existido. Ou simplesmente não importasse mais. No começo, a constatação não a incomodou, percebeu que era apenas uma característica dele. E Frank gostava de tanta coisa, era tão intenso, que era impossível manter o mesmo interesse por tudo o que chamava a sua atenção.
A crise começou quando, após um juntos, Frank preparou uma festa surpresa para o aniversário de 40 anos de Ana. Pediu emprestado o salão de festa de uma amiga, contratou um buffet e uma banda de rock anos 80. O ponto é que Ana detestava rock anos 80, principalmente nacional. Mas Frank adorava. A decoração do espaço, escolhida por ele, com bexigas pretas, prateadas e douradas, estava até que elegante, adulta. Exceto pelo fato de ele ter espalhado pelas mesas fotos P&B de viagens dos dois juntos. Ana comentou com uma amiga que achou aquilo uma exposição desnecessária da intimidade deles, que concordou. Parecia que a celebração era sobre a união de um casal, e não do emblemático aniversário de 40 anos de uma pessoa. Ana percebeu que Frank fez aquela festa para ele, e não para ela. A música não era a que ela gostava, e ele sabia disso, as fotos foram mais um excesso, uma necessidade de colocar a relação deles em um outdoor, e aquilo não fazia sentido na ocasião. Não fazia 40 anos que eles estavam juntos, não foi uma festa de bodas de qualquer coisa. Era um aniversário, e apenas de uma pessoa, não de duas. Era o dia dela.
Depois da festa surpresa ficou mais fácil para as amigas entenderem o que ela dizia sobre os excessos de Frank. Ana começou a perceber que aquelas paixões por tudo que ele viva declarando eram usadas para chamar a atenção. Dizia que ninguém queria ficar perto de um deprimido, e por isso mantinha-se sempre “pra cima”. Mas não seria essa alegria extrema uma maneira de mascarar uma tristeza profunda? Não seria todo palhaço um pouco triste? Ana começou a se perguntar, mas era muito difícil conhecer o verdadeiro Frank e entender o que estava por trás daquela mania de felicidade. Nada o afetava, era como se andasse sobre a água sem nunca molhar os pés.
Frank não conseguia manter o foco, precisava de constantes interesses para se manter vivo, dizia. Acreditava que a vida era muito curta para ser usufruída sem intensidade. Não bastava ser uma pessoa legal, era preciso ser a mais legal de todas. Um presente de Natal não era suficiente — era preciso de muitos, muitos presentes. Os beijos eram intensos até na fila do mercado, o sexo tinha uma frequência acima da média se comparado a outros casais. Mas não era possível conversar com Frank. Sentar, tomar uma garrafa de vinho ao longo de uma noite e falar sobre a vida e morte? Impossível. Enquanto Ana estava na segunda taça, ele já abria outra garrafa. E queria sair para dançar, voltar às 4h da manhã, transar até às 6h e acordar ao meio dia. E era preciso acordar para aproveitar a vida, porque para ele era inaceitável perder tempo na cama. O que no começo era excitante, com o tempo foi ficando exaustivo. Nada era muito constante, as paixões eram trocadas a cada minuto. Muitas vezes sentiu que suas necessidades eram como o banco-baú de madeira que, naquele momento, ocupava um canto qualquer da sala.
Às vezes, o que Ana queria era apenas tomar uma taça de vinho e dormir nos braços de Frank. Queria sentir um pouco do tédio que um sente ao emendar uma série de tv atrás da outra. Queria conversar também, mas uma conversa racional, sobre fatos corriqueiros, sem que isso despertasse no outro uma vontade de comprar uma passagem para qualquer lugar do mundo e mudar totalmente o foco da noite. Ana queria menos.
Ao completarem um ano juntos, Ana achou que era hora de se separar. Percebeu que a vida ao lado de Frank não passaria de um salto de uma paixão para outra, e que por isso seria impossível construir algo sólido. Pouco sabia de sua história de família, só sabia que os pais viviam longe, no interior de Minas Gerais, e que não gostavam de visita. Eram distantes. Conheceu uma vez um irmão que morava no Rio e estava de passagem por São Paulo. Foi um encontro distante, Frank falou pouco, o que era raro de acontecer. Tinha sobrinhos que só conheceu quando nasceram e acompanhava por fotos. Amigos parecia ter vários, mas no fundo eram apenas conhecidos. Ana foi percebendo como Frank vivia suas relações com as pessoas: de maneira superficial, com muito entusiasmo durante encontros mas pouca conexão. Enquanto transavam, Frank nunca a olhava nos olhos. A sede por mais contato afetivo foi aumentando, e Ana percebeu que não seria Frank a fonte que faria essa necessidade passar.
Não tiveram filhos, nem chegaram perto disso, então o processo de separação seria mais fácil, pensou Ana. Pensou errado, pois nunca havia se envolvido com alguém cujos níveis de intensidade perpassavam objetos, situações, memórias, mobília e plantas. Frank chorou na negociação pela mesa de jantar, implorou para ficar com as samambaias e o chifre-de-veado, alegando que precisavam de uma dedicação que Ana jamais saberia dar. Suplicou para que ela não jogasse fora as fotos da viagem para Buenos Aires, nem do ano novo na Bahia. Fez algo que ninguém em sã consciência faz no término de um relacionamento: espalhou as fotos do casal na mesa e discutiu quem deveria ficar com qual. Fez com que ela prometesse que jamais rasgaria ou jogaria fora nenhuma fotografia. Ana não conseguia chorar de tanta raiva que passou naquela situação. Era uma sessão de tortura. Nunca pensou que o calor do excesso de zelo fosse pior do que o frio da indiferença. Naquele, assim como em outros momentos, desejou menos. Menos sentimento, menos tempo drama, menos emoção. Menos de tudo.
Ana ficou com o apartamento, que já era dela antes de ele se mudar. Pensou em trocar a fechadura, mas achou que seria demais. E estava cansada de qualquer coisa que remetesse a excessos. Queria uma vida leve, tranquila, um pouco chata até.
Fazia um mês e pouco que tinham se separado, até que uma noite Frank reapareceu. Chegou sem avisar, entrou sem bater — usando a chave que Ana deveria ter trocado. Estava sentada no sofá da sala quando ouviu a porta abrir. Levou um susto. Frank entrou se desculpando, disse que sentia muita saudade. Ana, sentindo que a saudade não seria exatamente dela, perguntou do que ele falava. Emocionado, respondeu que sentia falta das plantas que ficaram, da luz na parede da sala quando o sol batia no fim de tarde. E também, meio sem jeito, disse que sentia falta do banheiro. Perguntou se poderia entrar no resto do apartamento, ela deixou. Em nenhum momento se aproximou, nem mesmo para beijá-la. Suas declarações nostálgicas foram feitas de pé, no meio da sala, até que foi correndo ao banheiro. Bateu a porta e se trancou. Ana foi atrás, assustada. Não esperava que ele fechasse a porta, na verdade não imaginava o que ele faria no banheiro. Talvez pegar uma calcinha pendurada no box? Ele costumava gostar de fazer isso. Ana achava bizarro. Ao se aproximar, percebeu o que ele estava fazendo. Dez minutos se passaram até que a descarga foi acionada.
Ao voltar para a sala, com cara de aliviado e terminando de secar as mãos na calça, Frank disse que precisava ir. Agradeceu a visita, falou mais uma dúzia de coisas que sentia falta da relação deles, mas em nenhum momento perguntou como ela estava. Nem se aproximou, nem mesmo a deixou falar. Da mesma forma que entrou, saiu Sem nenhum abraço, nada. Ana não sabia o que pensar, não conseguia acreditar no que tinha presenciado. Levantou cambaleante e foi em direção à cozinha.
No meio do caminho, deu uma topada em alguma coisa. Era o banco-baú, esquecido no corredor entre a sala e a cozinha. Sentou e começou a chorar. Foi a primeira vez que chorou de verdade desde a separação. Pegou o banco e o colocou debaixo da janela, fechou as cortinas, mudou as plantas de lugar. Ligou para um chaveiro 24h para trocar a fechadura. Abriu uma garrafa de vinho e voltou para a sala com sua taça para a segunda temporada, episódio 5, da série que havia começado a assistir na noite anterior. Sentia tédio, e estava muito satisfeita com essa sensação.
