Facebook, pós-verdade e jornalismo:

os desafios do fazer e consumir produtos jornalísticos na conjuntura atual.

A pós-verdade foi eleita como palavra do ano pelo dicionário Oxford em 2016, e desde então tem feito com que seja repensado, de maneira ainda mais crítica, o modo como se tem feito jornalismo atualmente, assim como a forma que o público consome e compartilha os produtos noticiosos.

Definição do dicionário Oxford para a palavra Pós-verdade. Foto Ilustrativa: Bianca Obregon

A eleição presidencial estadunidense de 2016, foi marcada pelo compartilhamento desenfreado de notícias falsas, sendo também notado um maior compartilhamento destas notícias falsas do que as próprias notícias factuais. Esse acontecimento foi apenas uma maneira de dar visibilidade a um problema de falta de informação — ou de interesse — das pessoas em saber sobre o que compartilham e comentam. Assim como, o problema ainda maior da criação de sites, também conhecidos como fábricas de fake news, que trabalham exclusivamente na produção de notícias falsas com apelo emocional, a fim de criar audiência e um grande número de compartilhamento nas redes sociais, com o intuito apenas de disseminar suas ideologias ou ganhar dinheiro.

As notícias falsas, e a denominada era da pós-verdade, induzem a reflexão da prática jornalística atual, e levam ao questionamento sobre qual é o papel do jornalismo em uma sociedade onde se pode escolher no que acreditar. Para a professora Fernanda Vasconcello, da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUC do Rio Grande do Sul, o jornalismo deve seguir seu papel de descobrir, ir atrás dos fatos concretos sobre os boatos espalhados, na busca de desmascarar as notícias falsas, sendo assim, o papel do jornalista acaba sendo ainda mais trabalhoso devido ao cuidado que o profissional deve ter aos investigar tais informações.

O jornalismo de verdade não tem que lhe dizer no que acreditar, e sim lhe trazer os fatos. O mau jornalismo traz panfletagem para reafirmar certas crenças ou ideologias. — Sérgio Spagnuolo, editor de dados do site de fact-checking, Aos Fatos.

Foto Ilustrativa: Bianca Obregon

As redes sociais são as maiores aliadas na disseminação das notícias falsas, sendo assim o Facebook trabalha tentando desenvolver formas de combater a propagação das notícias falsas, utilizando o que eles denominam de três áreas-chave:

Interrompendo os incentivos econômicos porque a maioria das notícias falsas está financeiramente motivada;
Construindo novos produtos para reduzir a propagação de notícias falsas; e
Ajudando as pessoas a tomarem decisões mais informadas quando encontrarem notícias falsas. — Adam Mosseri , VP, News Feed, em Trabalhando para parar a desinformação e as notícias falsas.

Um dos mecanismos que o Facebook utilizou como forma de tentar combater as notícias falsas, foi a criação de um artigo que tenta educar seus usuários para identificar notícias falsas. Segundo Marina Iemini Atoji, Gerente-executiva da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo(Abraji) — uma das instituições apoiadoras do artigo — o papel do jornalismo é servir à sociedade com informações confiáveis e verdadeiras, e a importância da criação do artigo se dá na medida em que auxilia o leitor a diferenciar informação de qualidade de ruído.

Ouça o depoimento completo da repórter Paula Soprana

De acordo com Paula Soprana, repórter do quadro Experiências Digitais da revista Época, atualmente são o Google e o Facebook quem detém um poder quase monopolístico da disseminação de informações na internet, sendo assim se torna um papel da mídia pressionar no combate desses conteúdos falsos.

O artigo criado pelo Facebook é uma ferramenta educacional, que precisa ser explorada ainda mais a fundo, pois não resolve sozinha o problema das notícias falsas nas redes sociais. À medida que a educação dos usuários dessa rede social pode criar um público mais crítico para com as notícias que consome, e necessário criar-se junto a esse público menos leigo e mais dependente do consumo da informação, uma forma de barrar o compartilhamento dessas notícias falsas, e possibilitar que o jornalismo siga fazendo seu papel de produzir um conteúdo de qualidade, baseado em fatos e na ciência.

Segundo a professora Fernanda Vasconcello, uma das consequências mais importantes da pós-verdade para o jornalismo é o cuidado que deve-se ter na busca de pautas jornalísticas nas redes sociais. A pressa também pode ser perigosa para a produção de notícias, a necessidade de que as notícias devem estar no ar na hora, acaba muitas vezes fazendo com o jornalista não consiga todas as informações necessárias sobre um determinado fato e compromete assim, a notícia como um todo.

“…jornalismo de dados ou qualquer que seja que vão mudar no que as pessoas acreditam, A educação das pessoas e a credibilidade dos veículos é que vão mudar isso”. — Sérgio Spagnuolo, editor de dados do site de fact-checking, Aos Fatos.

A iniciativa do Facebook em criar uma ferramenta educacional de identificação de notícias falsas, é caracterizada como importante no papel de tentar mostrar aos usuários da rede sobre a relevância de ter conhecimento em relação as informações que consome e compartilha. Mas a ferramenta não é suficiente, se as pessoas não quiserem acessar o artigo, e não sentirem a necessidade de lê-lo nem acharem que necessitam ser educadas para checar as notícias que compartilham. Assim se caracteriza a era da pós-verdade, onde as pessoas acreditam naquilo que lhes convém.