27 de janeiro de nossas vidas

Bianca Ogliari
Jul 10, 2017 · 4 min read

Os dias são os mesmos, os anos são diferentes, ambos são câncer.

Era uma gripe forte. Meu avô teve uma gripe muito forte em 1999.

Seu Ermindo não era um cara vaidoso com sua saúde, mas, era casado com minha avó: Dona Elmira. Osso duro de roer. Dona Elmira é uma senhora que confia muito na medicina. Se há alguma coisa doendo, procure um médico!

Quando a gripe do Seu Ermindo começou, Dona Elmira insistiu para que ele procurasse o médico da família. Meu avô, teimoso que era, recusou a sugestão e foi jogar baralho na praça.

Minha avó ficou inconformada com tamanha desobediência e mandou um de seus quatro filhos levar Seu Ermindo consultar com o médico da família.

- Tudo bem. Vou receitar algumas injeções e remédios. A gripe forte vai passar, disse o médico.

Passou. Menos uma tosse que cuspia o mundo e todo seu cigarro acumulado desde os 5 anos de idade.

Sim. Meu avô fumava desde criança. Era um charme.

A família prosseguiu com outro médico que garantiu que não seriam mais do que 30 dias de vida para Seu Ermindo. Era câncer. No pulmão.

Eram dois tumores. Um ocupou todo o espaço interno do pulmão. O Outro, ficou na indecisão de instalar-se no coração ou no pulmão. Na dúvida, acabou ficando numa parede que liga os dois órgãos.

Dona Elmira então, se agarrou em sua fé católica-outra ciência que ela acredita piamente.

Minha avó acordou inúmeras madrugadas e, sentada em seu jardim, conversou com Deus.

Clamou para que seu companheiro, pai de seus filhos, apenas não sentisse dor. Ela não pediu a cura, ela pediu para que não existisse dor, que meu avô não sofresse. Não sentisse a morte. Colocou nas mãos de Deus e só exigiu que fosse indolor.

Meu avô era teimoso, sim. Ele sofria em silêncio. Visivelmente sua magreza mostrou ao mundo que o Seu Ermindo João Ogliari, carregava um câncer terminal. Menos para mim.

Meu avô, para mim, era o homem calado que colhia morangos da horta e me fazia feliz.

Meu avô era um homem alto e charmoso, com roupas monocromáticas e tom de voz elegante que só ele tinha. O perfume do meu avô era o perfume de um homem que percorreu o mundo para honrar seu nome.

Eu e Pietro, somos os netos desfavorecidos da convivência com Seu Ermindo. Mas, na pouca época que repousei no colo do Seu Ermindo, eu dormi segura.

Eu sentava inúmeras vezes ao lado dele e nós conversávamos muito, em silêncio.

Meu avô não reclamava. Se doía, ninguém sabia. Ele não falava.

Seu Ermindo parecia carregar a solução para a paz no mundo nas costas.

Quem olhava Seu Ermindo sentado em um lençol branco embaixo da palmeira de butiá, imaginava sua meditação. Na verdade, era uma tentativa de respirar o que ele já não conseguia mais respirar.

Seu Ermindo não tomava leite. Eu também não.

Uma vez, na conversa fiada, minha mãe me conquistou com o achocolatado. Disse que era feito a base de água. Seu irmão enfatizava a conversa e eu acreditei na mentira. Tomava um copão de achocolatado confiante que ali, o leite não habitava.

Quando vi meu avô se apoiar na parede para caminhar, nos seus últimos dias de vida, aconselhei que ele tomasse achocolatado para curar esse câncer.

Claro que não curou. Mas, meu avô que não tomava leite, tomou achocolatado nos seus últimos dias de vida.

- Esse cara me leva a sério, pensei.

No dia 27 de janeiro de 2000, Seu Ermindo parou definitivamente de respirar. Dormiu e não acordou.

Eu não sofri tanto. Sinto como se eu e ele, além do gênio parecido, fossemos conectados de alguma maneira. E somos. Meu avô não morreu em mim, e particularmente eu nunca entendi porque ainda teria algo conectado ao meu avô.

Seu Ermindo me dizia muito em silêncio. Me ensinou muito em silêncio. Eu o ajudava a descer a pequena escada na saída de sua casa. Lembro-me de que, apesar de magro, ele segurava minha mão com toda força do mundo.

15 anos depois, no dia 27 de janeiro, eu descobri o câncer. O meu.

Eu sou conectada ao meu avô, não pelo câncer. Eu sou conectada a ele por saber que chorar não adianta. Por brigar com quem briga com meu corpo.

Eu sou conectada ao meu avô por “bestemar”. Ele não me ensinou os palavrões em italiano, mas, me deixou como herança a arte de mandar o mundo a puta que lhe pariu.

Eu sou ligada ao Seu Ermindo porque no dia 27 de janeiro, seu silêncio me ensinou a gritar informação para o mundo.

Eu não sei se coincidências existem, mas, na data em que meu avô dizia adeus ao mundo, 15 anos depois, entendi seu silêncio.

Somos dois casos de câncer na família Ogliari. Somos dois gênios fortes que no silêncio de quem não grita, tiram sabedoria da dor.

Obrigada pela herança, Nono.

    Bianca Ogliari

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    Jornalista e Escritora na hora do break.