A lei do desejo de Almodóvar, e a minha…
Se você é meu amigo e já me viu bêbada tentando dar minha opinião sobre assuntos polêmicos, você vai entender completamente esse texto.
Não tenho muita certeza se devo começar falando sobre mim ou sobre o filme. Começarei pelo filme.

Assisti sexta-feira passada, antes de uma noite de bebedeira sem tamanho que não me causou muita felicidade, o sexto filme na ordem de lançamentos do diretor Pedro Almodóvar. A Lei do Desejo foi lançado em 1987 e tem como elenco principal Eusebio Poncela, Carmen Maura e Antonio Banderas.
O filme conta a história de três personagens, como é comum dos filmes de Almodóvar ter mais de uma história principal que se entrelaça para a construção da narrativa. Conhecemos Pablo, um diretor de teatro e cinema homossexual que tem uma relação de amor não correspondido com Juan; Tina, irmã transexual de Pablo, que tem dificuldades de se relacionar com homens por ter tido um caso amoroso (???) com seu pai; e Antonio, um homem que se apaixona por Pablo, mas tem seu amor transformado em obsessão doentia e assassina quando Pablo se muda para longe e para de manter contato com o amante.
É perfeitamente possível perceber a evolução profissional de Almodóvar enquanto diretor quando passamos a assistir seus filmes em sequência. Embora A Lei do Desejo ainda seja um filme da chamada “primeira fase de Almodóvar”, é possível ver nele, assim como em Matador, uma qualidade de produção e uma atenção à caracterização dos personagens que não apare muito nos filmes anteriores. Uma característica interessante de A Lei do Desejo que o diferencia dos outros filmes é também o fato de que a trama se passa do ponto de vista dos personagens masculinos, ao contrário das histórias protagonizadas por mulheres dos cinco filmes anteriores.
As cenas de amor e romance entre Pablo e Antonio embaladas pela música Lo Dudo, interpretado aqui pelo Trio Los Panchos, são muito bonitas de verdade. Além disso, apersonagem transexual, Tina, e o romance gay entre Pablo e Antonio, conseguem, mesmo em um filme dos anos 80 trazer análises interessantes sobre o preconceito contra pessoas LGBTs. Nas minhas pesquisas sobre o filme, ainda descobri que A Lei do Desejo demorou nove anos para ser lançado no Brasil justamente pelo filme tratar dessas temáticas tão abertamente. Shame on you, Brasil…

Sem sombra de dúvidas os filmes dirigidos por Almodóvar se tornaram mais sólidos em seu estilo e método com o passar dos anos. E é possível também observar, pelo menos até agora, como o diretor se manteve fiel às suas temáticas, sempre trazendo os desejos das pessoas e a maneira como elas lidam com esses desejos como tema principal de sua obra. Algo que eu percebi e que fez todo sentido com este último filme.
Agora, falemos sobre o que eu senti…
Que tipo de amor é esse que sentimos (falo enquanto seres humanos e não enquanto “eu, você”) e que é a causa dos crimes chamados passionais? Seria amor de fato ou apenas um desejo incontrolável e fora de si de alguém por algo? “Algo”, levando em consideração a minha opinião de que alguém que se sente desta maneira por outra pessoa, não a vê como uma pessoa, mas sim como algo a ser conquistado, tomado para si.
Não estou aqui pensando em maneiras de justificar esse comportamento ou sentimento. Até porque não é possível para mim, ou não cabe a mim, classificar isso enquanto algo que podemos sentir ou algo que mais se assemelha a sintomas de alguma doença da cabeça. Não estou justificando nada, apenas constatando que o tipo de sentimento que Antônio sente por Pablo, no filme, de fato existe entre as pessoas. Devemos nos lembrar também que, apesar do filme ter sido lançado em 1987 pelo doido do Almodóvar, isso não exclui o fato de que millennials (eu realmente usei essa palavra?) ainda acham romântica a história de Romeu e Julieta e ainda encontram beleza em literalmente morrer de amor.

Eu não estou familiarizada com esse sentimento, esse desejo louco e absurdo que nos tiraria das faculdades mentais. Mas sei o que é sentir raiva de alguém. Raiva de alguém que inclusive um dia você gostou muito ou quis muito ou desejou muito. Esse texto é praticamente um descarrego de uma raiva que estou sentindo agora mesmo — sinto muito por isso. E essa raiva é capaz de fazer você sentir muitas coisas, e pensar em coisas que você não se orgulha, e querer fazer coisas que você não faria. Por isso que talvez a raiva esteja muito perto do que seria esse desejo que Almodóvar tenta retratar no filme. Eu que sou doida ou todo mundo às vezes se sente assim?
No mais, devo encerrar esse assunto sem fornecer absolutamente nenhuma conclusão sobre ele porque é assim que os bêbados fazem. Também quero dizer que A Lei do Desejo é um bom filme do Almodóvar, mas que meu preferido até agora sem sombra de dúvidas foi Maus Hábitos. O saldo não está muito bom para o lado do diretor. Até agora, dos seis filmes assistidos, eu só gostei de verdade de um. Dois foram razoáveis e três foram “o-que-danado-está-acontecendo”. Sim, é desta maneira madura que eu os estou classificando.
Ah! Entre o último texto e esse, eu ainda parei pra assistir Os Vingadores — Guerra Infinita e eu não me arrependo nem um pouco.