Sobre saudades e tapas na cara

Hoje é um dia cheio de sentimentos misturados. Hoje é sexta-feira 13 e quem me conhece sabe que eu adoro esse dia. Hoje é dia 13 de novembro, o que significa que falta exatamente dois meses para o meu aniversário e quem me conhece também sabe que não tem nada que eu goste mais que comemorar essa data. Mas hoje também é 13 de novembro de 2015, o que significa que faz exatos 3 anos que eu sinto saudades da minha mãe.
É estranho como depois de um tempo parece que a dor diminui, assim como todas as pessoas que tentaram me consolar naquele dia disseram que aconteceria. A dor não cessou, ela se transformou numa saudade infinita e, no final das contas, entendo que tanto a dor quanto a saudade sempre foram, na verdade, fração de um amor imensurável.
À parte de todo o sofrimento, hoje posso dizer que a morte da minha mãe me ensinou coisas incríveis que talvez eu nunca teria aprendido e ainda me pego furiosa pensando por que diabos a gente precisa passar por coisas desse tipo para conseguir entender lições de vida que deveriam ser básicas e simples, mas que ignoramos em alguma parte do nosso caminho.
Provavelmente tudo que eu escrever a partir desse parágrafo será um clichê sem tamanho, daqueles tirados do discurso de autoajuda mais genérico possível, mas é a única maneira que eu tenho de dizer isso.
A verdade que aprendi lá em 13 de novembro de 2012 é que o amanhã não é garantido. Ele pode nunca chegar. Se você tem alguma doença ou é incrivelmente saudável, tem um estilo de vida pacato ou corre riscos constantes, é rico ou pobre, nada disso garante nem condena o seu amanhã. Repito, nada disso garante nem condena o seu amanhã.
Perder a minha mãe podia ter representado um lindo despertar, mas na verdade foi um belo tapa na cara. Me mostrou como somos arrogantes de achar que, se seguirmos algumas “regras”, então poderemos chegar ao fim da vida com dinheiro e saúde para, somente a partir daí, desfrutar do resultado de anos de trabalho. Me mostrou o absurdo de vivermos apenas para satisfazer as expectativas de outras pessoas — pais, amigos, cônjuges, sociedade (ugh!). Enfim, perder a minha mãe me mostrou que só o agora importa, que o presente é absolutamente tudo que nós temos.
Não me entenda mal, não há nada de errado em fazer planos para o futuro, eles são, sem dúvida, necessários e motivadores. O que me incomoda é ficar estacionado, esperando o dia que enfim as coisas serão melhores. Depois que eu me formar, depois que eu arrumar um emprego, depois que eu casar, depois que eu comprar um carro, depois que eu comprar uma casa, depois que tiver filhos, depois que as crianças crescerem, depois que eu me aposentar… pronto, agora posso começar a ser feliz. Mas quem garante que você vai chegar lá? E não digo isso de forma amarga e muito menos pessimista, acho que todos devemos desejar e nos preparar para envelhecer com saúde e disposição, podendo aproveitar o tempo livre, os filhos, os netos, os amigos, etc., mas não aceito que esse seja o único e maior objetivo na vida.
Muitas pessoas ficam tão presas nesse ciclo “obrigatório” que acabam perdendo a vontade de ser e só pensam em ter, porque se a vida só vai ser mais legal daqui 15 ou 20 anos, então melhor acumular todas recompensas que eu posso ter agora, que são as materiais. O último modelo de carro, a maior casa, as últimas tecnologias, roupas caras; é um consumismo desenfreado e irresponsável. E não me excluo totalmente disso, afinal eu fico bem perdida na vida sem o meu iPhone, mas a cada ano que passa eu tento me tornar mais minimalista e cada vez que eu percebo que não preciso ter mais, mas ser mais, eu me sinto mais feliz, mais aberta para tudo de realmente importante que a vida pode me oferecer e, principalmente, mais em contato comigo mesma e com as energias que me rodeiam.
Da minha mãe, da perda dela, da vida que ela teve e, principalmente, da vida que acredito que ela gostaria de ter tido, eu aprendi como é o amor incondicional, aquele que não mede esforços, que é maior que a própria vida e que não acaba com a morte. Aprendi que paz é melhor que guerra, mas que nem sempre a passividade faz bem. Aprendi que o amor próprio precisa vir sempre em primeiro lugar e que se tornar independente é a melhor forma de fazer isso. É a independência de ser feliz apesar de qualquer outra coisa, de ser feliz com você mesma antes de fazer os outros felizes.
Hoje, tento me exercitar regularmente, pela minha saúde e não pelo “projeto verão” que nunca deu certo. Pratico yoga, para me equilibrar nesse mundo tão desequilibrado. Mantenho uma alimentação saudável e equilibrada, mas me recuso a me privar do imenso prazer que a comida me proporciona. Leio mais e estudo mais. Parei de frequentar lugares que me deprimem e não me acrescentam nada. Parei de mendigar atenção de pessoas que não estavam dispostas, abertas ou sequer interessadas em mim. Meu trabalho é onde meu coração está e por causa dele eu não espero para ser feliz só nas férias, só nos fins de semana, só depois que eu me aposentar. Me esforço diariamente para tomar decisões informadas, não apontar dedos e vigiar minhas palavras e pensamentos. Agradeço por tudo que foi bom e ruim no meu dia. Peço luz e paz para os outros e perdão pelas minhas falhas.
Minha vida está longe de ser perfeita, eu também sou um ser em evolução e cheio de defeitos, mas tudo que pratico hoje é resultado da maior dor que já senti. Nada disso aconteceu de repente, o exercício é constante, mas eu sei que o caminho é bom e que o fim da linha pode ser agora mesmo, enquanto escrevo esse texto. A morte da minha mãe foi como apertar o botão “Reiniciar” na minha própria vida. Foi o tapa na cara que ela nunca me deu em vida, mas que me ensinou com amor, como só uma mãe poderia.

You showed me love was all you needed / But Heaven couldn’t wait for you / So go on, go home.
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