Cristianismo ativista e o caminho apertado

No dia 4 de abril de 1968 o pastor e doutor Martin Luther King Jr. foi assassinado. Em meio aos textos e memoriais postados na internet nesse mês para relembrar a sua vida e luta, pude fazer uma reflexão sobre os caminhos que escolhemos enquanto cristãos que buscam lutar por justiça social.

Pastor batista e negro, nascido em Atlanta nos Estados Unidos, na época em que Rosa Parks foi presa por ser uma mulher negra que se recusou a se levantar e ceder seu lugar no ônibus a uma mulher branca, ele se tornou a voz de luta contra a segregação racial e a defesa dos direitos civis. Fazia isso através de discursos impactantes, com palavras de ordem afiadas e cheias de convicção e, ao mesmo tempo, da prática de manifestações pacíficas. Se mantinha na doutrina cristã do amor, pregando o fim do sistema segregacionista e a luta por liberdade e ainda sim, a compaixão às pessoas brancas.

“Quando olhamos para o homem moderno, temos que enfrentar o fato de que o homem moderno sofre de uma espécie de pobreza do espírito, que contrasta claramente com sua abundância científica e tecnológica. Aprendemos a voar como pássaros, aprendemos a nadar nos mares como peixes e ainda não aprendemos a andar pela Terra como irmãos e irmãs…” Martin Luther King Jr.

Essas palavras não eram apenas desafiadoras e críticas ao sistema racista segregacionista e seus defensores, mas também para pessoas negras que estavam diretamente sofrendo toda a opressão causada por eles. Não posso falar sobre como é ser negra, mas de tudo que já li, vi em filmes, séries e documentários ou ouvi dos meus amigos negros, é difícil me imaginar não reagindo a tudo isso de maneira minimamente violenta.

É por isso que penso no pastor King como alguém entendeu completamente o quão estreita é porta e apertado é caminho que leva a vida.

“Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram.” Jesus Cristo (Mateus 7:13,14 NVI)

Atualmente, é bem fácil enxergar uma certa divisão entre os evangélicos na nossa sociedade — que certamente não é tão arbitrária ou dicotômica quanto vou ilustrar aqui, mas que para fins de exemplo, funciona razoavelmente — entre uma massa mais conservadora, defensora da “família tradicional brasileira” e outro lado, dos envolvidos com causas sociais.

Esse outro lado — composto de afincos críticos das igrejas que pregam teologia da prosperidade, da bancada evangélica, da hiper-institucionalização das igrejas e defensores que o cristianismo nos faz querer transformar a sociedade e lutar por um mundo sem desigualdades econômicas e sociais — me contempla muito mais. O que tenho notado, no entanto, é que é possível lutar por justiça, fazer parte desse lado e ainda sim não andar pelo caminho estreito… Não é só escolher lutar, não é apenas a luta pela luta mas também, como você briga.

Durante a minha caminhada cristã eu ouvi muitos sermões baseados em Mateus 7:14, geralmente eles envolviam exortação à Igreja para abandonar o pecado e optar pela porta estreita. Quando listados, raramente eram mencionados os pecados do racismo, machismo, da negligência com os marginalizados economicamente, da homofobia, da transfobia…

Hoje, quando eu leio esses versículos, vejo que as palavras de Jesus são ainda mais profundas que isso. Ele nos dá uma dica: geralmente a coisa certa a se fazer não é mais fácil, não é a mais agradável. O caminho apertado envolve me despir de muita coisa para poder trilhá-lo. Isso significa amar, ouvir e dialogar com todos. Isso significava, para o pastor King, não incitar a violência, mas sempre procurar transformar o inimigo em amigo.

Esse caminho desafiador também envolve não ter sempre todas as respostas, o que se mostra um grande problema para a nossa geração de pessoas ansiosas e confusas, desesperadas para que alguém lhes dê as caixinhas mais convenientes para seus pensamentos ou necessidades. Nós corremos digladiar em comentários do Facebook ou até mesmo ao vivo, sem estarmos realmente interessados no outro, queremos apenas provar um ponto. A gente fala, defende e tatua no corpo os princípios e ideias que levariam a uma sociedade mais justa, mas não topamos os desafios de viver em comunidade.

“Ele [Deus] ama as pessoas e odeia as más atitudes. Eu acho que é isso que Jesus quis dizer ao afirmar ‘ame seus inimigos’ e eu estou feliz que ele não disse ‘goste dos seus inimigos’ porque é muito difícil de gostar de algumas pessoas. É difícil gostar de pessoas que estão bombardeando a sua casa, ameaçando seus filhos e chutando você. Mas Jesus diz: “Ame-os”. E amar é muito maior do que gostar. O amor [ágape] é criativo, compreensivo e benevolente, redentor para todos os homens. É a recusa de derrotar qualquer indivíduo. Quando você se eleva ao nível do amor, em sua grande beleza e poder, você procura apenas derrotar os sistemas do mal. Indivíduos que estão pegos nesse sistema, você ama, mas você procura derrotar o sistema.” Trechos do sermão “Amando seus inimigos”, ministrado pelo Pr. King na Igreja Batista da Avenida Dexter — Alabama, em novembro de 1957 (você pode ler o original nesse link, em inglês)

Pr. King entendia que como cristão, além de lutar contra opressão, ele precisava também reconciliar o opressor. Mas nós aprendemos pouco com ele, simplesmente decidimos ignorar partes da bíblia que são desconfortáveis para nós — mesmo nos achando revolucionários, continuamos engolindo discursos prontos, aderindo a posições alheias — e criticamos o “outro lado” por fazer o mesmo. Incitamos o ódio em nome das nossas “santidades”, nos consideramos superiores aos outros, temos preguiça de interagir e intervir.

Precisamos mergulhar com mais profundidade nos ideais por trás das nossas atitudes e refletir o como das mudanças necessárias e não apenas o porquê, o quando e o quem. É urgente que recuperemos nossa sensibilidade para achar o equilíbrio entre a denúncia e o ensino, entre o grito de dor e o silêncio para ouvir, entre o se afastar quando precisa mas perdoar porque reconhece que também é carente de perdão.

E não, não vai ser nada fácil, vamos errar e seremos tentados a pegar muitos atalhos por caminhos que não sejam tão apertados assim, onde possamos carregar pelo menos um pouquinho do apego às nossas preciosas opiniões, às nossas inerrantes interpretações teológicas, os preconceitos de estimação…

Os espaços de discussão precisam continuar existindo e nós precisamos continuar nos levantando, falando (de verdade não apenas no comentário da internet), lutando por justiça. E fazer tudo isso com sabedoria, cuidando da saúde física e mental, é claro. Mas numa grande medida não dá pra escapar de certas situações, porque para se ser cristão precisamos continuar amando, continuar sofrendo sim, por amor, assim como Jesus.

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