Descobri que sou bonita
Sim, esse é um daqueles textos de uma garota contando que sofria bullying na escola porque não se encaixava nos padrões e que descobriu que padrões são idiotas. Eu e você já lemos vários textos desses que dizem que os padrões são idiotas, todo mundo sabe disso e todo mundo continua ligando para os padrões.
De qualquer maneira, vivemos nesse mundo, nesse sistema, nesse planeta. E nesse planeta os padrões idiotas importam, eles estão todos os dias por aí, nas revistas, na TV, no Facebook, definitivamente estão no Instagram, na sua escola/faculdade/trabalho, na loja de departamentos e no catálogo da Avon. E você cresce assim, comprando o creme anti-celulite no catálogo escrevendo seu nome perto do quadril da modelo que teve todas as celulites retiradas com Photoshop (que não vende em potinhos, mas vende no site da Adobe e é caro). E isso sim, faz diferença, porque nós acostumamos os nossos olhos assim, ou melhor condicionamo-os a olhar para o que é “bonito” e tudo que não é igual ao que foi imposto é feio.
Infelizmente ninguém nasce sabendo que é bonito, alguém sempre tem que deixar isso muito claro para nós. E também não escolhemos como vamos nascer. Quando eu era criança e alguém falava “que linda que você é!” eu dizia “obrigada!”, porque minha mãe me ensinou assim, mas na verdade eu achava super esquisito dizer obrigada, afinal de contas o que ela viu de bonito não era mérito meu, eu não fiz nada pra nascer assim.
É claro que depois de mais velha eu entendi que estava agradecendo o elogio, mas esse conceito de que eu não fiz nada para nascer assim veio na minha cabeça anos mais tarde quando na escola eu sofria bullying por causa da minha pele, do meu cabelo, dos meus dentes, do fato de usar óculos ou de qualquer outra coisa que os meus colegas de escola achassem feio. Oras, eu não pedi para nascer assim!
No entanto, mesmo que a responsabilidade da aparência que temos não seja nossa, a maneira como lidamos com ela é. Hoje eu penso que esse é o meu corpo, eu não decidi nada sobre a cor da minha pele, cabelos, olhos, tão pouco sobre o tamanho do meu quadril, do meu busto, nem o formato dos meus lábios, mas é o meu corpo e eu tenho que carregá-lo pelo resto de minha vida, só tem duas opções: amá-lo ou odiá-lo.
Foi então que eu percebi que também não pedi para odiar meu corpo, eu nunca quis odiar minha aparência, eu fui induzida a tal. E é isso que me revolta: eu não pedi para nascer assim e não pedi para odiar esse meu jeito, no entanto esse é o meu corpo então eu deveria começar a tomar alguma decisão aqui. E a decisão é: eu sou bonita, porque ninguém vai me induzir a odiar o meu corpo, o único que eu tenho.
Eu sou bonita porque a beleza vai muito além daquilo que eu vejo no espelho. Eu sou bonita porque nasci assim, desse jeito. Eu sou bonita porque sou única. Eu sou bonita porque você é bonita, porque somos diferentes, múltiplas, interessantes e só vale a pena lutar por uma igualdade: direitos iguais para todos e não para ser igual aquela capa de revista.