O que a Ms. Marvel e a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz tem em comum?

Enquanto eu lia Ms. Marvel - Nada Normal (Volume 1), uma das coisas que mais vinham à cabeça era a história de Malala Yousafzai, a mais jovem ganhadora do Premio Nobel da Paz - título que recebeu em 2014, pelo seu ativismo em prol do acesso a educação para meninas no Paquistão.

Malala e Kamala (a Ms. Marvel) tem muitas semelhanças para além da rima dos nomes; ambas são adolescentes de origem paquistanesa, compartilham a fé muçulmana, são bem nerds, tem uma ligação forte com seus pais, sonhadoras e, principalmente, heroínas.

A arte imita a vida - As minhas impressões sobre Ms. Marvel - Nada Normal (G. Willow Wilson)

O selo Nova Marvel (pelo qual Ms. Marvel está sendo publicada) parece ser uma das iniciativas da Marvel Comics para contextualizar os super-heróis nessa geração que está exigindo representatividade, fim do sexismo, fuga dos estereótipos e uma consciência mais profunda sobre o impacto que essas histórias têm em seus leitores ao redor do mundo.

Por isso, uma heroína adolescente, menina, nerd, imigrante e muçulmana se encaixa exatamente nesses - muito relevantes - requisitos. E com o sucesso que foi, Ms. Marvel provou que esse tipo de HQ vende, queremos histórias assim.

Kamala tem 16 anos e mora em New Jersey, sua família veio do Paquistão e ela está passando pelos mesmos problemas de quase toda garota de sua idade: dificuldade de se entender com a família, crises de identidade, tentativa de se ajustar a sociedade e por aí vai. Fissurada pelos Vingadores, escreve fanfics sobre os heróis nas horas vagas; um dia que sai escondida para ir a uma festa, uma névoa cobre todo o ambiente e a garota tem uma visão onde a Capitã Marvel, o Capitão América e o Homem de Ferro a informam de uma grande mudança no seu destino: seus desejos de ser como a Capitã Marvel, seriam realizados. Assim, ela ganha os poderes de cura e transmorfia.

As cinco histórias contidas no Volume 1 contam a origem, o começo do treinamento e o desenvolvimento da Ms. Marvel mas não tanto da Kamala. Posso dizer que fiquei super animada com essa história, amei a arte da capa, as ilustrações são lindas e durante a leitura me diverti muito. Kamala é inteligente, engraçada, tropeça no caminho e é muito corajosa; nas primeiras páginas eu já era fã: queria a action figure, o filme e o jogo, pra ontem!

“Tem uma aia do Corão que meu pai sempre cita quando vê alguma coisa ruim na TV. Um incêndio ou uma inundação ou uma explosão. ‘Quem mata uma pessoa, é como se matasse toda a humanidade e quem salva uma pessoa é como se salvasse toda a humanidade’.” Kamala Khan, pág. 37

É claro que a HQ tem seus problemas, existem algumas criticas - principalmente de gringos, que já leram os outros volumes - a respeito do fraco posicionamento da Kamala com problemáticas raciais, de relacionamentos e até mesmo empoderamento feminino. Mas sobre isso, só vou poder escrever quando ler o resto. Por ora, achei que tudo evoluiu muito rápido quando se trata do domínio da Ms. Marvel sobre esses tão recentes e complexos superpoderes, não parece muito crível. Senti falta também de um pouco mais de profundidade em termos das crises que ela está passando. É uma história bem clichê de super herói, mas agora é a vez da garota ao invés do Peter Parker.

Se olharmos para trás, os quadrinhos não precisam ser apenas histórias bobinhas para crianças, um dos meus favoritos, X-Men, sempre trouxe questões sobre diversidade e luta por direitos individuais. Mas assim como toda mídia, também estava sujeito à sociedade e seus avanços a passos largos e doloridos. Isso significa que o surgimento dessa Ms. Marvel, não chega nem a ser uma inovação da empresa mas sim, uma escolha inteligente, antenada quanto ao publico e que não é isolada, várias mudanças tem acontecido na forma de criar e contar histórias - não somente de super heróis.

A vida que inspira arte - As minhas impressões sobre Eu Sou Malala (Malala Yousafzai e Christina Lamb)

Dia do primeiro discurso de Malala após ser baleada pelo Talibã. Assista o discurso legendado.

Quando Malala ganhou o Prêmio Nobel em 2014, com apenas 17 anos, eu tinha 18; ela é uma das pessoas que eu mais admiro, por isso, assim que tive oportunidade comprei o livro que conta sua história.

Malala nasceu no Paquistão em 1997, seu pai é professor e fundador de escolas, sua mãe é dona de casa. Ela cresceu em um ambiente escolar e com muito incentivo por parte do seu pai para aprender - o que é raro na cultura que estava inserida-, quando o Talibã invadiu o Vale do Swat, onde ela morava, ele se tornou um ativista contra o domínio do grupo.

“Um dia recebemos um comunicado de Sufi Mohammad, da prisão, determinando que as mulheres não deviam estudar […] ‘Por que eles não querem que as meninas estudem?’, perguntei ao meu pai. ‘Eles tem medo da instrução’, foi a resposta.” Malala Yousafzai, pág. 128

Logo que as proibições à educação feminina e a destruição de escolas que continuaram com a prática começou, Malala não conteve sua voz, aceitou um convite para escrever um blog sobre o assunto e sempre que podia dava entrevistas a respeito, o que a tornou um alvo do Talibã. Em 2012, no ônibus de volta da escola, dispararam um tiro à queima-roupa na cabeça de Malala, que felizmente, mas depois de muita dor, se recuperou e hoje mantém uma organização de luta pela educação feminina, o The Malala Fund.

Ler “Eu Sou Malala” foi uma experiência multidisciplinar, muito mais que conhecer essa garota incrível, aprendi história do Oriente Médio (tão ignorada em nossos currículos escolares), aprendi sobre Islamismo, suas vertentes e como ele interfere na sociedade e aprendi sobre relações internacionais. Além disso, os diversos relatos sobre a cultura, fé e a realidade estrutural daquele país me trouxeram questionamentos importantíssimos e que ampliaram minha visão de como sou privilegiada.

E o melhor disso tudo é que Malala é uma garota completamente normal, parecida comigo em muitos sentidos e diferente em tantos outros. Tive a sensação de ficar — ou melhor, querer ser — amiga dela durante a leitura.

Malala, Kamala e o tal do girl power

Se eu, que nem sou árabe, nem sou muçulmana já me senti extremamente representada e empoderada com essas duas figuras incríveis imagina o quão importante para quem é? Aliás, imagina o quão importante é a luta da Malala para essas garotas que nem tem como ler o livro dela, nem livro nenhum e provavelmente nunca em suas vidas vão saber o que é Marvel ou super heroínas.

Em ambas as histórias consegui ver a relação entre a fé e os costumes da religião, como essa religiosidade dogmática e alienada só atrapalha a humanidade. Uma fé bem exercida é aquela que nos torna melhores para com nossos semelhantes, assim como para com nossos diferentes, que denuncia a injustiça, que protege e empodera o oprimido.

A maioria das pessoas entende o termo girl power como a ideia de que as garotas devem ser independentes, confiantes, ter direito a expressar suas opiniões e não serem diminuídas apenas por serem meninas e isso é ótimo. Uma outra possível interpretação é a que proponho hoje: girl power é aquilo que todas temos em nós, que os anos de silenciamento tentam calar, mas que é poderoso seja para salvar a nós mesmas ou nossas várias outras irmãs.

“A todas as garotas que enfrentaram a injustiça e foram silenciadas. Juntas seremos ouvidas.” Dedicatória do Eu Sou Malala