quando tudo começou…
Fiquei pensando e sentindo se nesse momento eu deveria escrever ou fazer qualquer tipo de exposição. Mas desejava me libertar de tantas coisas aqui de dentro e foi “like an explosion”.
Escrever na minha adolescência me aliviava muito, e me dava prazer, mas acabou por esquecido depois da minha escolha em sair pra trabalhar aos 14 anos. Então, resolvi reviver um pouco desse ato.
Sim, comecei a trabalhar logo que fiquei “mocinha”. Desde então, nunca mais parei — e vou chegar justamente nesse ponto. Peguei gosto pelo trabalho, nesse caso remunerado. Queria ser independente dos meus pais, conquistar minhas coisas, ter meu carro, morar sozinha, ter meu imóvel, ir e vir na hora que quisesse sem dar satisfação pra ninguém, comprar...
Saí da casa dos meus pais aos 18 anos, também não voltei mais. Fui desapegando de alguns laços que somente hoje, depois de ter conquistado tudo que almejava lá trás, vejo o quanto são importantes.
Nesse processo da conquista financeira aprendi muitas coisas, e também precisei ressignificar outras, porque elas eram contrárias. Aceitar a dualidade nem sempre é uma prática fluída.
Aprendi a focar e me comprometer num determinado resultado, “custe o que custar — doa a quem doer”. Vender a ideia e a escolha, saber argumentar, saber usar as palavras certas para as pessoas certas, fazer a leitura do perfil de cada pessoa, ser determinada, objetiva, pragmática, resiliente, não ter medo, não chorar, ser forte. Tudo isso é muito importante na vida, mas é uma linha tênue que separa essas atitudes do mundo capitalista/corporativo da vida social — com vidas, principalmente, quando se escolhe trabalhar sem remuneração e pra sua família.
Depois de vinte anos de carreira e de muitas realizações dentro do que eu desejava, consegui praticar algo que é bem desafiador — pelo menos pra mim foi, e continua sendo — que é “me observar”.
Foi numas férias em julho de 2014, que estava com meu filho e marido numa maravilhosa praia brasileira que consegui esse ato. Me observei! Sim, me escutei e passei a ter um cuidado e atenção especial ao que vinha de dentro de mim. Isso, pra mim, naquele momento, era algo extremamente novo, partindo do que estava “projetado” e “programado” para sempre prestar atenção ao externo, ao que os outros iam achar ou pensar, em como eu poderia ter aprovação de alguém, o quanto eu seria aceita, em como eu conseguiria chegar num determinado lugar, conquistar coisas e sempre dependendo dos outros… Sempre dos outros, outros, outros. Nunca eu! Ali caiu a ficha.
Estava, a partir daquela descoberta, infeliz. Tinha conquistado tudo que havia planejado a vinte anos atrás, mas não estava realizada e plena. Estava infeliz comigo e com tudo ao meu redor. Não queria mais voltar pro meu trabalho, não queria mais morar na minha casa e nem na cidade onde morava, não queria que meu filho continuasse a estudar no colégio que estava e nem continuar crescendo com babás, que a dinâmica que desenvolvi junto aos meus pais e irmãos não estavam ajudando, que eu estava doente e não dava a atenção devida para minha recuperação e cura, que a linha comum do meu casamento estava galgada somente na conquista material, que não conseguia ver meus amigos na frequência que gostaria e… pimba, meu castelinho desmoronou e tudo ficou de cabeça pra baixo! Meu Deus, pára que eu quero descer! É assustador! Perdi o controle, a segurança e a confiança das minhas escolhas e conquistas?! :/
Percebi que praticamente tudo que havia lutado e me empenhado para conquistar nesses vinte anos, o que realmente foram valiosos são os relacionamentos, vínculos, aprendizados, experiências, emoções… Não vou dizer que a conquista material não foi importante. Sim, elas foram, mas para aquele período, e que a partir dali, eu passei a entender que eu deveria usá-las e não deixar que elas me usassem. O dinheiro, a posse, “as coisas” nos servem como intermediador, e não finalizador. Deixei de ter para querer ser. O que significa isso?
(Antes de desenvolver minha percepção gostaria somente pontuar: Não, não estou querendo dizer que a conquista financeira não é importante. Num mundo capitalista, precisamos morar, comer, viajar, pagar contas… Portanto, tem seu preço, mas não é o fundamento mais valioso, pelo menos pra mim, que estava motivada somente nisso. E também não estou julgando quem acha isso a situação mais importante da vida, cada um na sua verdade e na sua motivação, ok?). ;)
Sai do trabalho de 13 anos, alugamos nossa casa, mudamos de cidade, troquei meu filho de colégio e passei a acompanhá-lo de perto no seu crescimento, sem babás. Transformei meu relacionamento com pais, irmãos e marido. Passei a trabalhar nas tarefas da minha casa e da minha família, claro, sem remuneração. Tão fácil assim?! Não, nada fácil! Até hoje está sendo um desafio. Cada mergulho é um flash!
Voltei pra terapia. Como depois de alguns anos de sessões no passado ainda não tenho as respostas, pensava eu. Levou um tempo para quebrar o paradigma que de acordo com minha escolha eu não estava “queimando patrimônio”, e sim, “investindo em mim”.
Depois que descobri o quanto me empenhei somente na parte financeira da minha vida, do meu trabalho remunerado, pude avaliar o quanto deixei de lado nas outras áreas que são de extrema importância. Optei em acompanha-las de perto, e isso me inclui! Além de filho, saúde (física, mental e espiritual), casamento, amizades, minha casa, relação amorosa, irmãos/pais, sexo, estudos/autoconhecimento, lazer…, percebi como estavam todos desequilibrados e desalinhados! Hoje eu brinco — com fundo verdadeiro — de que somos uma espécie de malabaristas de pratos. Caso sua atenção, empenho, cuidado fique somente num determinado prato, tenha certeza, outros perderão o movimento adequado pra se manter e, dependendo do seu foco, cairão e quebrarão.
A partir disso iniciei um processo árduo de autoconhecimento. Ui, às vezes dói!
Abri novas frentes de estudos, de amizades, formações, práticas, experiências e, principalmente, objetivos e vivências para expansão da minha consciência, para um futuro mais saudável pra mim, meu filho e para o próximo. Percebi nesse processo o quanto sou auto responsável por absolutamente tudo — tudo mesmo — que acontece em minha vida. O quanto é valioso a minha auto-observação. Meus sentimentos e emoções, que geram meus pensamentos e pá, segue o ato, a atitude. Muitas vezes reacionária ao que tenho escondido e encapado dentro de mim. Padrões de comportamentos que seguem num piloto automático sem ao menos eu saber identificar que ele existe. Aí, quando vem uma adversidade, segue o comportamento básico de, ou me vitimizar, ou apontar o dedo e julgar os envolvidos. E juro, quando se tem coragem para entender o que de fato tem dentro da gente para desencadear atritos com o externo, com um olhar sem críticas, cobranças, somente de interesse em se atentar, olhar, cuidar para melhorar, ai sim, é dolorido, mas libertador!
Ok, vocês devem estar se perguntando: — Por que ela está falando tudo isso?
Porque isso está sendo uma espécie de autoanálise do meu processo, do meu caminho. Porque continuo sim trabalhando. Porque posso sim escolher o novo. Porque posso sim questionar. Porque eu posso sim encontrar um novo jeito de viver. Porque pouco me observava na minha essência. Porque pouco me cuidava e sabia sobre eu mesma, e as vidas ao meu redor. Porque se eu não sentir e entender isso, como e o que eu passarei adiante? Que exemplos eu dei e darei ao meu filho e as pessoas queridas? E quer saber, continua não sendo fácil! Mas afinal, o que é fácil? E quando é fácil, é valorizado?
Estou tentando. Tentando encontrar uma forma de estar em mim, de manter o equilíbrio em todas as áreas da minha vida, dentro da minha verdade, tentando não machucar aqueles que não concordam com minha escolha, de seguir em frente, de questionar, de buscar, de sentir, de me colocar no lugar do próximo, de olhar nos olhos, de respeitar opiniões diferentes da minha, de soltar o controle, o julgamento, dar amor, de receber amor, de compreender, de me observar. Quando nos observamos, sentimos e analisamos nossos sentimentos, as emoções que nos impulsionam para a ação. E quando nos abrimos para essa consciência, nossas atitudes serão mais ponderadas, prudentes e, talvez, até altruístas. Porque sim, eu confio no ser humano! E, enfim, dentre outras situações muito valiosas que vem ocorrendo, tem que ser interessante! Porque no fundo, todos querem ser felizes. Mas o que é felicidade se não é interessante?