O artista fixo da Vila Flores

Perfil originalmente publicado na edição Julho 2015 da revista EXP, produto final da cadeira de Produção em Revista, da Famecos. Texto e fotos: Tiago Bianchi

Nascido em janeiro de 1961, Amável Amaral completou, em maio, cinco anos como o único morador fixo do complexo cultural alocado nos antigos prédios construídos por José Lutzenberger na rua São Carlos, bairro Floresta, em Porto Alegre. Por trás do jeito simples, uma história se abre, contada pelo seu sotaque baiano, entre rompantes de um riso espontâneo de alegria.

A pronúncia de Amável Amaral, conhecido por qualquer um na Vila Flores como Seu Amável, entrega o lugar de onde vem: “Por isso que nós e o pessoal de lá já falamos um pouco baiano”, afirma. Nascido em uma fazenda localizada em Medianeira, município de Minas Gerais, divisa com a Bahia, é o mais velho de nove irmãos. Sua mãe, Deniza Alves, 98 anos, comenta a personalidade doce e calma que o filho, quase que predestinado pelo nome, apresentou desde que era pequeno: “Ele sempre foi um menino muito tranquilo e trabalhador, nunca incomodava”. Na sua cidade natal, Amável estudou até a quarta série, o máximo de ensino oferecido pelo governo na região na década de 1960.

Desde que veio para Porto Alegre, em maio de 2010, ele chegou a estudar inglês, mas parou porque não estava aprendendo. Atualmente faz um curso de informática — de jeito humilde e irônico, afirma que, para ele, é mais fácil desmontar e montar o computador do que propriamente usá-lo. De fato, Amável não depende da máquina para viver. Pelo celular, ele divulga em seu perfil no Facebook a verdadeira ocupação de sua vida e, segundo muitos, sua forma de fazer arte.

O restaurador

Amável passa boa parte dos dias reformando móveis antigos que estão na Vila Flores ou são trazidos, quando não pisos, janelas e outras estruturas de madeira da edificação. Ele, que já atuou em plantações, como pedreiro e pintor, se dedica a cuidar do complexo da família Wallig fazendo o restauro de móveis e de outras estruturas de madeira. Todo seu conhecimento foi aprendido na prática. Aos 19 anos, quando se mudou para São Paulo, arranjou emprego no bar do tio, José Lino Santos Amaral, mas largou pelo perigo que o ambiente trazia. “Daí eu arrumei um serviço fazendo serviço de valeta e fundação de prédio. Comecei com pintura, depois voltei a trabalhar com vidro, aprendendo tudo isso. E aí depois eu fui trabalhar com madeira.” Seu tio trabalhava em uma oficina de restauro de móveis chamada Baronesa de Passos, localizada na rua Tabapuã, bairro Itaim Bibi. Ali Amável começou a observar os trabalhos que o parente faziam no restauro de móveis e começou a se interessar pelo negócio.

O “segundo aleijadinho” do Itaim Bibi trabalha desde os 20 anos na restauração de móveis.

Em pouco tempo suas habilidades com a nova ocupação cresceram tanto que ele ficou conhecido na região como o “segundo Aleijadinho”, em referência ao escultor mineiro. Superando o próprio tio, suas aptidões cativam até hoje aqueles que visitam o Vila Flores e observam seu trabalho cuidadoso, seu conhecimento sobre os materiais e procedimentos para dar vida nova à madeira. Foi nessa mesma oficina também foi lá que em meados dos anos 1990 conheceu Samantha Fuchs Wallig, sua futura patroa que já tinha começado a se relacionar com João Wallig, fundador da associação cultural Vila Flores. Desde então Amável virou um funcionário de confiança e amigo da família.

Marcas

As mãos calejadas pelo trabalho não são as únicas marcas que a vida lhe deixou. Aos nove anos, Amável e seu irmão, José Lino Santos Amaral, com seis anos na época, tentavam arrancar o fio de uma cerca para fazer um anzol para pescar. Sem medir a força, ele puxou o fio farpado, que ricocheteou e atingiu o seu olho direito. O machucado infeccionou a ponto de a cavidade ficar inchada “como uma laranja”. Sem um hospital próximo para buscar socorro na hora da emergência e com dificuldades para acessar um tratamento na fazenda, em um mês ele acabou perdendo a visão do olho esquerdo. Chegou a usar uma prótese por mais ou menos 3 ou 4 anos que, apesar de deixar sua expressão mais natural, ele deixou de usar porque o incomodava demais. “Não sei o que ele tinha na cabeça para uma época querer usar um olho de vidro” comenta sua mãe.

Em meados da década de 1980, aos 19 anos, Amável esperava o ônibus para ir ao trabalho, na época no metrô de São Paulo, quando um fusca invadiu o local e atropelou ele e mais quatro pessoas. Jogado por aproximadamente quatro metros contra um muro, foi o único sobrevivente da tragédia. Levado dentro de uma viatura policial para o hospital, ficou três dias sozinho na UTI até que um homem conseguiu o endereço de sua família e comunicou-os do ocorrido. Ele ficou 23 dias no hospital até fazer a cirurgia para reconstruir sua perna esquerda. O episódio lhe deixou por um ano e meio andando de muleta, com uma placa de metal e uma cicatriz que vão do pé ao joelho. Ele consegue caminhar normalmente, mas não tem o movimento total da articulação do calcanhar.

Por ironia do destino, Amável acabou comprando um fusca quase igual ao que lhe atropelou anos atrás.

Mesmo assim, ele mantém o bom humor para falar sobre este e outros episódios. “Acho que é a praga do fusquinha, porque é da mesma cor do que eu tenho”, brinca. Seu atual veículo foi emprestado para a gravação de uma cena do filme O Mapa, na Vila Flores — durante a cena os atores se mexeram tanto para simular o movimento do carro que os bancos quebraram. Mesmo assim ele se manteve tranquilo: gostou da produção e sequer cobrou o pagamento dos danos.

O encontro com Deus

A religião conseguiu segurar sua vida em uma época de extrema fraqueza física e mental. Em meados dos anos 1990, Amável afirma que foi diagnosticado com câncer no cérebro, e doença de chagas, mas foi curado quase sem a ajuda de remédios. “Ele tinha muitos problemas de depressão na época, então começou a frequentar a igreja ainda quando morava em São Paulo e continua indo até hoje”, afirma Samantha. Encontrando seu apoio nas igrejas Deus É Amor, Amável afirma que “não bebe e não fuma mais” — ele, que mais jovem “jogava sinuca com um só braço e fumava três maços por dia” se sente grato pela vida quase monástica que leva.

Amável congrega na igreja próxima à Avenida Farrapos, no bairro Floresta, mas também frequenta templos em outras cidades da zona metropolitana. Segundo ele, “igrejas pequenas é que são as boas”. Ele também detalha seus momentos de transe na igreja. “Tem vezes que lota de gente, eu recebo o espírito santo lá. Eu recebo, quando eu fecho os olhos e começo a orar ele vem e… Sente uma coisa diferente, não é dessa Terra. Dura bastante tempo. Ele pega com mãos por todo o teu corpo. Te faz bater o pé no chão, chega a tremer a terra. Essa é a defesa que ele deu pra mim.” Recentemente Amável começou a pregar a palavra de Cristo em hospitais, orando para pacientes doentes e logo poderá subir ao altar da igreja para falar durante a cerimônia. Foi essa fé de imagens impressionantes que o ajudou a passar por um dos períodos mais tensos de sua vida.

Risco de vida

A partir de 2003, Amável trabalhou e militou junto ao Movimento dos Sem Teto na cidade de São Paulo. Apesar de no começo acreditar na causa do grupo, a desilusão com a corrupção bateu cedo. Depois de concluir uma pintura na casa dos Wallig, em Santa Catarina, ele acabou se distanciando da família sem maiores motivos. Nesse período, Amável conta que certos integrantes do grupo lhe pediram dinheiro emprestado, mas ele negou. Logo começaram as ameaças de morte e, mais tarde, as tentativas de fato.

A vida simples não foi menos perigosa para Amável, agora “artista fixo” da Vila Flores.

Vivendo certo tempo pelo centro de São Paulo e por bairros mais perigosos, como Vila Cecília e a Cracolândia, ele conta que integrantes que faziam o “serviço sujo do grupo” tentaram lhe atacar várias vezes com facas e armas, mas ele sempre conseguia escapar milagrosamente — fato que ele atribui à força e proteção de Deus, “que lhe transformava a roupa em cinza para disfarçar sua aparência” ou, como visto em uma revelação em um templo da igreja, “transformava sua cabeça em fogo frente aos inimigos”. Amável então fez uma gravação com denúncias do que acontecia no grupo, a qual enviou para uma sede da Deus é Amor e sai de vez do movimento, em 2009. Ele se mudou, então, para a casa do amigo e pastor Francisco, no bairro Morumbi, por alguns meses. “Realmente esse homem é de Deus, porque em cada esquina tem alguém pra pegar ele” teria dito seu guru espiritual, segundo o próprio Amável. Sua vinda para Porto Alegre foi anunciada pelo próprio Francisco, usado como “vaso” por Deus — algo equivalente a “baixar o santo” — para transmitir a mensagem divina.

Para si

Um mês depois do anúncio divino, João Wallig Neto, proprietário do Vila Flores, chamou-o pra atuar como caseiro e restaurador do complexo. Acompanhado e auxiliado por Francisco nos primeiros oito meses, ele viveu um período praticamente escondido no prédio recém desocupado a partir de maio de 2010, ainda temeroso pelo novo local e pela insegurança que a região passava pela época. Hoje fica sozinho em boa parte do tempo, principalmente nos finais de semana, com a companhia durante o dia dos golden retrievers de seu patrão. Ele acredita viver um período de graças, afirmando que Deus lhe concede “muita exaltação e dons”. Uma vida solitária e quase monástica, sempre voltada ao trabalho.

Com apenas duas companheiras durante a vida, Amável agora acredita que está predestinado a viver um romance com uma mulher que trabalhou por um breve período no Vila Flores — outro fato revelado pela igreja. “Aqui teve uma menina que ficou aqui e eu dava comida pra levar pra casa dela. Ajudava na casa do João, só que eu vi que ela não tava ‘bem certinha’, e depois ele acabou botando outra no lugar dela. Chegou a ficar com raiva de mim, mesmo eu não tendo dito nada”, se defende. Sem dizer quais são os problemas que a moça ou mulher passava, ele admite com um sorriso: “mas eu ainda gosto dela”.

A pessoa da família com a qual ele tem mais contato é a sua irmã Odete Alves, 37 anos, que mora em São Paulo. “Ele sempre foi meio distante da família. Não poderia visitar sempre por questões de dinheiro e até mesmo oportunidades”, afirma. “Ele é mais self, mais independente de todos. Gosta dessa vida que leva. Ele escolheu viver da profissão”, completa Samantha. Mesmo assim, o irmão mais velho da família não deixa de ser querido pelos parentes. Sua mãe, que ainda mora com a família na mesma fazenda onde ele cresceu, ainda fez, com carinho, um pedido para o filho que não vê há pelo menos cinco anos: “Fala para ele vir me visitar que eu tenho muita saudade dele”.