O dia da final

O mata-mata é a paixão que nunca vamos nos esquecer.

O dia da final do brasileirão era um dia muito foda.

Houve um tempo em que fui amplamente favorável ao planejamento, ao controle, ao tão sonhado profissionalismo no nosso futebol. Cheguei ao ponto de fazer a minha monografia de graduação focada em gestão de comunicação para times. Era um tempo que nem existia “perfil de time engraçadão” no twitter e muito menos páginas de humor de gosto duvidoso no feice. Talvez embalado por vários delírios das geladas terras europeias, no momento em que foi ventilada a possibilidade de um brasileirão liga, eu tenha ficado apático. A mudança não me era simpática, mas ao mesmo tempo eu não me opunha.

A proposta era sedutora como uma cerveja no final do expediente de sexta na firma. Mesmo não querendo, somos levados pela maré da gelada até sair arrastado do buteco. A ideia vinha com um pacote completo: competitividade, alto nível, profissionalização das nossas pelejas. Eu não tinha noção do buraco negro em que estávamos enfiando a paixão nacional. Pagamos com traição quem sempre nos deu amor!

Nos primeiros campeonatos brasileirão liga, embarcamos na novidade. Houve um sopro de que as coisas seriam diferentes. Um calendário mais alinhado com o europeu, mais organização, mais tudo.

Novamente, entramos no relacionamento com o chifre de corno.

Com o tempo, tudo isso foi desmoronando como castelinho de criança nova na praia quando a onda vem.

Adiantando a história, entramos na época do embate entre Mata-Mata x Pontos corridos. Percebemos a furada em que entramos. Acordamos do boa noite cinderela que colocaram na nossa itaipava. O verdadeiro clássico do futebol brasileiro virou a disputa filosófica de sistemas de disputa.

Ontem, em mais uma final da Copa do Brasil, senti a lembrança daquele dia em que o país inteiro parava para ver quem seria o campeão do ano. Mesmo se seu time não estivesse lá, era hora de sentar, abrir um danone e ver uma boa batalha em campo. Eu fiz isso ontem, os camaradas do “sirviço” fizeram, a rede social fez, era o assunto do dia. Parecido com o dia da final do brasileirão. Era O DIA do futebol brasileiro. Não era uma promessa de uma final a cada rodada. Era uma final de verdade.

Túlio, herói consagrado na final de 95 pelo fogão.

No campo dos argumentos, a defesa dos pontos corridos segue na mesma batida ano após ano. Na verdade, a trincheira segue sendo derrubada pois não há nada de novo no front (sempre quis usar isso). O sistema privilegia o melhor planejamento, o melhor time, o que se prepara mais.

Esquecem ou ignoram o GRAND CANYON que separa os clubes na distribuição das cotas, da publicidade, dos dinheiros.

Mas não seria assim também no sistema mortal do mata-mata? Seria, mas é em um momento fatal, no dia em que os deuses do futebol fazem da injustiça a lei, que a coisa era resolvida. Um Santos, oitavo colocado, ergue a taça contrariando 10000 Tristão Garcia a esquerda e outros 10000 catedráticos a direita.

Os melhores não vencem no mata-mata. Como assim? Como podemos questionar a autoridade do Inter de Falcão, do galo de Reinaldo, do Flamengo de Zico. Se não eram os melhores, se tornaram os melhores. Se é pro melhor ganhar sempre, entrega a taça na primeira rodada e vamos pro clube jogar peteca.

Sem falar nos clubes de fora do sudeste. O que os pontos corridos fizeram foi levar praticamente a zero a chance de um time fora MG, RJ e SP lutar pelo título ou aprontar.

Aparecer um São Caetano hoje, capaz de ir até o final, é praticamente impensável.

O pequeno deixou de aprontar, o moleque deixou de ser travesso e ver os bolivianos na primeira divisão é um desejo cada vez mais distante. Por incrível que pareça, há quem não goste do São Caetano ou da ideia de um time despontar como febre de uma competição. Isso é caso pra levar pro hospital.

Sim, eles desafiam o Flamengo de Zico.

Dizem ainda que já tem a Copa do Brasil que é mata-mata. Eu me pergunto: e daí? Não dá pra aceitar um argumento assim, é de cair o cu da bunda, me desculpem meus incautos leitores. Se você pode ser 100% feliz nessa vida, que raio de caboclo fica na moita se contentando com três quartos de felicidade se tem ao alcance das mãos o três dígitos.

Nos disseram ainda que o futebol brasileiro melhoraria de forma geral. Estaria alinhado com o calendário europeu. O nível iria nas alturas. Tudo uma beleza. Aconteceu exatamente o contrário. Os clubes continuam nadando em dívidas. Os bastidores continuam repletos de dirigentes amadores com a mão mais leve que um saco de pão. Os craques nem mais ficam por aqui. Mas o que isso tem com o sistema de disputa? Hora, na hora do vamo ver, que o bicho pega, é que SURGEM os caras. Por uma doce coincidência, o Brasil não vence uma copa desde quando? Pesquisa aí no Googlão para ver o que aconteceu com o brasileiro naquele ano. O 7x1 é mais previsível do que parece.

A cada ano que passa, parece que a Copa do Brasil vai engolindo o brasileiro na reta final. É algo davidluizticamente bizarro de ver; o brasileirão fica lá, no cantinho escuro da sala, vendo a CB sendo decidida. As vezes parece que o único jeito é trocar.

Faz a Copa do Brasil de liga e devolve o brasileiro de mata-mata.

Quando veremos um São Caetano novamente?