Coisa de menina

O livro Coisa de Menina é uma iniciativa de Pri Ferrari, que demorou cerca de dois anos para conceber, escrever e ilustrar as 47 páginas dessa obra maravilhosa. Direcionado para meninos e meninas de 3 a 6 anos, o livro tem a intenção de quebrar com estereótipos e propagar a igualdade de gênero para todos aqueles que ainda estão aprendendo o que significa viver e se comportar em sociedade. Segundo a autora:

“Nossa ideia é incentivar a leitura e o diálogo entre mães, pais e filhas(os) para que todos desconstruam juntos pequenos hábitos e crenças que limitam o potencial de crianças.”

Com certeza, um objetivo mais do que louvável, que foi fortemente apoiado desde o começo de sua história. Primeiramente o livro foi lançado através de uma campanha no Catarse que superou a meta inicial de arrecadamento e acabou conseguindo mais de 14 mil reais, através de 250 apoiadores. Após o contato com a Companhia das Letras e a consequente publicação pela editora, todo o valor arrecadado foi convertido para a doação de 500 exemplares da obra para comunidades de São Paulo como Grajaú, Brasilândia e Capão Redondo, em parceria com o projeto social Plano de Menina, do Plano Feminino.

Nunca é demais reforçarmos a importância dessa obra, principalmente num país que foi apontado como um dos piores do mundo para se nascer menina. Segundo ranking da ONU, o Brasil está em 102º lugar, entre 144 países estudados — ficando atrás de nações como Sudão, Iraque, Índia e Síria. Situações como gravidez em adolescentes, diferença salarial, pouca representação política e feminicídios são exemplos de realidades ainda muito expressivas no Brasil, que precisam ser combatidas cada vez mais.

Ainda hoje, muitas meninas são desestimuladas a seguirem carreiras que possuem uma representação social mais masculina, como esportes de alta performance, lideranças em grandes empresas, carreiras políticas e áreas científicas em geral. Numa pesquisa realizada nos Estados Unidos o mesmo currículo foi enviado para diferentes universidades, com o objetivo de preencher uma vaga de gerente de laboratório. Porém, apesar de conterem as mesmas informações, alguns foram enviados com nomes femininos e outros com nomes masculinos. Os pesquisadores constataram que currículos com nomes masculinos foram considerados mais competentes e contratáveis, além de receberem mais propostas de orientação, com salários mais altos.

Cenário preocupante, que começa já na infância e se solidifica com o passar dos anos. Segundo pesquisas, no século 20, cerca de metade dos brinquedos ainda eram anunciados em propagandas como neutros em questão de gênero. Diferença radical com relação ao cenário atual, no qual as empresas vêm fechando as crianças em caixas pré-selecionadas. Um exemplo desse comportamento é o site da Disney Store, que categoriza todos os brinquedos explicitamente em “para meninos” ou “para meninas” — sem incluir a opção “para meninos e meninas” apesar de alguns brinquedos estarem em ambas as listas. Sim, quem não se lembra de quando ainda era possível comprar kinder ovo sem precisar escolher entre o rosa de menina ou o azul de menino? Me lembro de uma amiga que chegou a comprar o kinder rosa para o filho, mas ambos se decepcionaram ao ver que o brinquedo surpresa era um anel. Sério, quando foi que bijuterias se tornaram “brinquedos de menina”?

São muitos os exemplos que poderíamos dar, mas diante de tudo isso, o que eu gostaria de deixar claro é a importância dessa obra. Principalmente por se direcionar ao público infantil, pois como dito no próprio livro:

“É na infância que a gente percebe que não existe regra e que todo mundo pode tudo: tem menino que gosta de brincar de casinha, tem menina que gosta de construir foguete. Porque, então, temos que nos adaptar a certos padrões de comportamento? Por que ainda dizem por aí que certas coisas não são apropriadas para mulheres?”

Ficam então esses questionamentos, a semente plantada e a esperança de que o futuro seja um lugar melhor para se nascer menina. À Pri Ferrari, o meu sincero agradecimento.