O machismo no mundo nerd e suas máscaras

Recentemente, passei a fazer parte da equipe de redação de um site direcionado ao público geek/nerd. Como normalmente eu apenas discutia sobre esses assuntos no meu círculo de amizades, me surpreendi bastante com o nível de machismo nas publicações e principalmente nos comentários. Inclusive partindo da própria equipe do site ao qual eu fazia parte.

Acontece que eu havia recebido uma obra especificamente para escrever uma resenha para esse site, o livro Coisa de Menina, de Pri Ferrari, publicado pela Companhia das Letras. Minha posição foi a de escrever um texto 100% baseado em fatos e pesquisas sérias, para que o leitor tivesse clareza quanto a verdadeira realidade no que diz respeito às meninas. Afinal de contas, não seria preciso escrever um livro para dizer que as elas podem ser o que quiserem se isso já fosse encontrado na realidade.

O resultado foi que, não só minha resenha foi recusada, como fui expulsa da equipe do site. O argumento utilizado foi que eles não apoiam “quaisquer tentativas de politizar o conteúdo de nosso site” e que minha resenha se tratava de “ um panfleto de propagação ideológica e política disfarçada”. E por fim, claro, que eu não “possuía o perfil” que eles estavam procurando. A resenha em questão está publicada aqui na íntegra, sem nenhuma modificação, para que vocês tirem suas próprias conclusões.

O problema maior nisso tudo, é que não se trata de um site “politicamente neutro” como eles gostam de se anunciar. Primeiramente porque isso é impossível e já ficou bem claro a partir das discussões sobre o projeto da “escola sem partido”. E segundo, porque a posição deles é visível em várias publicações, nas quais reivindicações feministas são tratadas como “mimimi” (sim, literalmente), hipersexualização feminina é tratada como “arte erótica” e adolescentes sem roupa curta como “comportadinhas”. Ou seja, a partir do momento em que eles se colocam como “apenas de um site de entretenimento”, se lançam na tentativa de mascarar uma posição machista com o intuito de vender isso para o público como se fossem coisas normais, naturais.

15 anos, ok? Favor não esquecer

E como eu disse acima, já se trata de um público extremamente machista, que não mede esforços para resguardar seu “direito” de ter bundão, peitão e cara de tesão nas publicações, filmes e games. Claro que existem exceções, mas a grande maioria é totalmente contra o feminismo. Um exemplo disso foi o comentário que eu fiz, falando de uma situação que aconteceu comigo na infância, num vídeo do canal Nerdologia. Até agora o meu comentário já havia rendido 33 respostas, incluindo explicações variadas de como aquilo, com certeza, não era machismo — eu só não tenho “cara de cientista” mesmo.

No meio disso tudo, o que me preocupa mais, são as pessoas que estão nascendo agora, a nova geração. Porque, como disse na resenha, o mundo ainda é um lugar muito inóspito para se nascer menina e me preocupa que elas cresçam num ambiente tão desfavorável para desenvolverem seus potenciais. Por isso a importância do livro Coisa de Menina e por isso eu faço questão de não me calar frente a toda essa situação. Porque nossas meninas merecem um mundo mais justo e merecem saber que elas são capazes SIM de fazer qualquer coisa. Inclusive gostar, participar e ser corretamente representada no mundo nerd.

Sempre bom lembrar, né?