Sim, nós podemos! …mas o caminho ainda é longo!

As reivindicações feministas tem ganhado cada vez mais espaço na mídia e no cotidiano social como um todo, especialmente nos últimos anos. Sabemos que essa luta é bem mais antiga e que já obteve conquistas inquestionavelmente positivas, como o direito ao voto, ao divórcio, à criminalização da violência doméstica, entre outros. Porém, a mudança mais difícil é a de mentalidades. E quanto eu digo “mentalidades” estou me referindo não só ao que uma pessoa fala e faz, mas a tudo que a constitui enquanto ser humano. Já sabemos, desde Freud, que não somos seres completamente racionais e, pior, muito do que nos define é inconsciente. Ou seja, não temos acesso direto a tudo que somos ou a tudo que nos constrói enquanto ser único e idiossincrático. Porque essa definição freudiana é importante aqui? Porque, por mais que alguém se defina como feminista, seja homem ou mulher, não dá pra apagar todas as marcas que a vida imprimiu na sua trajetória, sejam elas conscientes ou não.

Para a maioria das mulheres, o que o feminismo faz é dar sentido a experiências que elas tiveram durante a vida, mas que muitas vezes nem sabiam que se tratava de uma violência estrutural, que perpassa toda a sociedade. Temos, assim, a ideia geral de que feministas são mulheres mal comidas ou mal amadas e SIM, muitas delas correspondem a esse esteriótipo, mas não por uma falha de caráter pessoal, pelo lugar privilegiado que é delegado aos homens. Claro, não estou dizendo aqui que todas as mulheres são umas coitadinhas, vítimas dos homens malvados. Estou dizendo que existe uma estrutura pré-definida de papéis que nos condiciona até certo ponto a pensarmos e agirmos de determinada forma, por mais que isso seja inconsciente. A influência acontece de todas as formas possíveis, desde o momento em que nascemos, todos os dias, em todos os lugares.

Para os homens a questão já é um pouco mais complicada, porque é muito mais difícil se identificar com o carrasco do que com a vítima. Ninguém quer admitir que está sendo cruel, violento ou misógino e isso é totalmente compreensível pra mim. Mais uma vez, estamos às voltas com maneiras inconscientes de ser, pensar e se posicionar no mundo, aprendidas desde o momento do nascimento e configuradas para parecer “o certo”, “o natural”. Não está na bíblia que a mulher veio da costela do homem? Não está lá que ela deve ser submissa? Minha avó, minha mãe, minhas tias e primas mais velhas seguem esse modelo e estão felizes com suas famílias e seus maridos. O que há de errado?

Mas vamos dizer que o homem ou a mulher consiga entender, racionalmente, a violência estrutural e social que o machismo coloca em prática todos os dias. Depois de muitas notícias de estupros coletivos, assassinatos brutais e imotivados de mulheres, violência doméstica e pesquisas científicas sérias comprovando tudo isso que o feminismo prega. Afinal, quem não se solidariza com essas coisas? Novamente, é natural. O problema chega quando vamos nos referir a pequenas coisas, quase imperceptíveis do cotidiano. É o famoso “mimimi”, as pessoas que problematizam demais, que fazem tempestade em copo d’água e por aí vai..

Aplicativo brasileiro contabiliza interrupções sofridas pelas mulheres

Mas o que é difícil de entender, justamente por ser tão automático e tão inconsciente, é que as grandes violências só acontecem porque as pequenas violências são aceitas e propagadas. E quando digo pequenas violências estou me referindo desde a comprar um fogão de brinquedo pra uma menina, até o fato dela não ter um espaço de fala sem interrupções num grupo masculino. São essas pequenas coisas que nos moldam e que precisam de um esforço real para serem interrompidas. São coisas que não dá pra mudar apenas se dizendo feminista, mas sendo muitas vezes a chata(o) do rolê que levanta a voz e coloca em alto e bom som o que a maioria das pessoas não quer ouvir.

Um exemplo disso é um amigo que se diz feminista. Ele gosta muito de carros e de dirigir, mas comprou recentemente um carro que a antiga dona era uma mulher. A primeira coisa que ele disse foi que o carro iria dar muito problema, porque mulheres não entendem nada de carro e de sua manutenção. E sim, esse prognóstico se cumpriu, o carro já passou pelo conserto várias vezes. Mas o que geralmente as pessoas se esquecem nesse caso é que mulheres são criadas desde a infância para não se interessarem por carros. Eu mesma, gostaria de saber mais sobre esse universo, mas nunca tive nada nem ninguém que me incentivasse — ao contrário dos homens. É obvio que existem mulheres mecânicas e motoristas que arrasam em suas profissões, mas elas são exceções. Não adianta celebrar uma exceção se a intenção for deslegitimar a reivindicação da maioria.

A conclusão à que eu quero chegar é a seguinte: sim, as mulheres podem ser o que elas quiserem e o machismo pode ser combatido. Mas não dá pra esperar que essa situação seja revertida da noite pro dia. Existem muitas mulheres despontando em áreas masculinas e muitas que já existiram que estamos conhecendo agora, já que elas nunca foram protagonistas. Mas a esmagadora maioria ainda está relegada aos trabalhos domésticos, à violência, à gravidez solo e precoce, à salários menores, à relacionamentos abusivos, etc. Até mesmo aquele mulherão da porra, que você admira e que tem uma posição pessoal e profissional invejável, ainda tem marcas do esforço e do sofrimento que ela teve que passar pra chegar até ali.

Homens e mulheres, vamos ter mais empatia! Vamos levantar uma bandeira digna, por mais que não seja a nossa! Vamos lutar dia e noite, porque um mundo igualitário é melhor pra todos. Principalmente pra quem tá nascendo agora e vai ter a oportunidade de não ter sua vida e seu destino pré-definido por uma sociedade na qual os homens não podem chorar e as mulheres não podem governar.