prazer clandestino

colagem: “tourists”, por eugenia loli/reprodução (tumblr)

Dolores Fonseca* e Maria Sandoval nem sequer sabem o nome uma da outra, mas dividem uma porção de frango frito, e, há algumas horas, a mesma mesa numa casa clandestina de bingo no bairro paulistano de Santa Cecília.

No quinto andar de um edifício, um salão enorme reúne cerca de 200 mesas redondas. As cadeiras com rodinhas dispostas não são muito confortáveis, mas têm serventia para acomodar os jogadores por horas a fio.

A decoração é composta por cartazes como “Boldrini TOP 500 — Nós ajudamos a combater o câncer infantil”, “Lar dos Velhinhos de Campinas — 109 anos” e ainda “E.C. Paredão, lugar de fazer amigos”, mesmo slogan que nomeava uma casa de bingo fechada pela polícia civil na cidade de Campinas em junho de 2017.

Centralizada, à frente e um nível acima dos apostadores, uma mesa de formato retangular traz amontoados alguns trabalhadores uniformizados que dividem um pacote de batata chips. Eles são responsáveis pelo sorteio e premiação. “Hoje teremos no mínimo três partidas valendo dez mil reais”, anuncia o locutor numa entonação que lembra a da bíblia sendo narrada por Cid Moreira.

Apesar do clima abafado, Maria Sandoval combina calça legging e blusa de lã com gola rolê. Na faixa dos cinquenta anos de idade, traz em suas pálpebras duas demão de sombra verde-limão cintilante, tem cabelos negros alisados e um dente faltando no sorriso que, frequente (mesmo se perde a rodada), desatina rugas por toda a sua face quando exposto. “Toma aqui, bebê. Eu quero o dobro”, diz ao esticar uma nota de R$100 para uma das vendedoras de cartelas.

Entre o fim de uma partida e o início de outra, uma atmosfera barulhenta cresce no ambiente. É então que cerca de quinze pessoas se espremem agilmente por entre as mesas para vender cartelas e recolher dinheiro. O preço das cédulas varia de R$2 a R$15 de acordo com o prêmio.

Até o início daquela rodada, foram vendidas 5.400 cartelas em 10 minutos. Alguns apostadores compram mais de uma por vez e fixam os papelitos na mesa com durex para que o ventilador não leve a sorte embora.

“Eu pedi frang…”, reclamava Dolores a um garçom antes de ser brecada pelo anúncio da bola 23 que acabara de ser sorteada na nova partida. Ela retoma o pedido ao ver que dessa vez não vai dar bingo.

Na mesa ao lado, pai, mãe, filha e agregado jogam; a filha, que aparenta ter vinte e poucos anos, finaliza um prato de strogonoff e dá a última colherada para o namorado. Garfo na boca do garoto, olho na cartela que está sendo marcada por ele.

Pelo chão, uma porção de pés calçados em chinelos de borracha. Na parede, o relógio se aproxima da meia-noite. Ao som do hit oitentista “Don’t You (Forget About Me)”, o locutor anuncia o serviço de café da manhã grátis ofertado pelo bingo, que extrapola o horário comercial e tem funcionamento de 24 horas. “Isso é para os viciados que amanhecem jogando”, debocha Dolores. A organização da casa não se esquece de ninguém.

Dolores Fonseca tem 58 anos de idade e reside em Cotia, cidade localizada na Grande São Paulo a 30 km da capital. Com as amigas, divide um uber para ir e voltar nos dias de bingo, onde vai com uma frequência de quatro a seis dias por semana e costuma passar cerca de 7 horas jogando.

Os arranjos para a caravana começam logo cedo. Por WhatsApp e ligações telefônicas, Dolores convida uma a uma até preencher as vagas no carro. A escolha das candidatas se dá menos por afinidade e mais pela disponibilidade financeira: dividir os R$120 da ida e da volta entre o máximo de pessoas possíveis significa sobrar mais para o jogo.

“Ah, você volta até umas onze da noite? Então eu vou. A tentação é tão grande, né”, graceja Ilda, caindo na gargalhada. Até então, ela estava em dúvida se iria ao bingo naquele domingo ou não. Dolores diz que pedirá para o uber buscá-la às 16h30 na porta de sua casa. “Mas não é muito cedo? Porque aí o dinheiro acaba e não tem como jogar mais”, reclama Ilda.

Na próxima ligação, para Olga, é a filha quem atende. “Mãããae, o pessoal do bingo!”, ouve-se pelo viva voz.

Algumas horas depois, dentro do carro com Dolores, Elisa, Ilda e Olga — e o motorista, é claro — a excursão segue pela rodovia Raposo Tavares rumo ao centro de São Paulo. Nem sempre o destino é o mesmo, já que a trupe frequenta casas clandestinas em outros bairros, como os da Lapa e da Bela Vista, e também no município de Osasco.

Como quem quer jogar conversa fora, Ilda, do banco de trás, pergunta a Elisa se ela pretendia ver o show do cantor Eduardo Costa naquele dia. “Ah, se eu não tivesse mais o que fazer, eu iria”. O show aconteceria em Caucaia do Alto, distrito da cidade de Cotia, em evento religioso que marcava o retorno da romaria. Apesar de boa católica, a escolha de Elisa naquele dia foi outra. “Já tô enjoada de ver ele, abraçar ele, beijar ele”, desdenha ela, que consegue ingressos gratuitos para shows sertanejos com a atual esposa de seu ex-marido.

Das que estão no carro, a maioria confessa frequentar bingos há, pelo menos, 20 anos. “Eu ia na Augusta”, disse Elisa. “Bati 8 mil uma vez.” O papo é nostálgico, e as senhoras relembram de bingos que foram fechados com a criminalização da atividade em 2002.

Entre os points, surge na conversa o bingo Monte Carlo, por acaso o nome da operação que desarticulou esquema de máquinas caça níqueis e levou à prisão o bicheiro Carlinhos Cachoeira. “Ê, bingo bom”, diz Elisa. “Era um lugar gostoso, prédio bom. Tinha uns prêmios maravilhosos.”

E se Eduardo Costa não é pretexto para deixar de “bingar”, um mal estar é menor impeditivo ainda. “Hoje eu tomei amoxilina, me deu um treco e comecei a me estremecer inteira. Pensei ‘será que vai dar um piripaque em mim?’”, conta Ilda.

Segundo as veteranas, o investimento inicial certeiro para quem pretende sair de uma casa clandestina com algum lucro varia entre R$200 e R$250. “Disseram que a vizinha da Bernadete veio essa semana com vinte reais”, comenta uma das senhoras. “Nossa, não dá nem pra começar”, reprova Ilda.

Se essas mulheres situadas entre os 58 e os 80 anos de idade temem a ilegalidade? “Se a polícia entrar, o que vai fazer?”, indaga Ilda. “Se eles prendem, não vai caber todo mundo na delegacia”, diz Elisa gargalhando. E continua: “se alguém for preso, serão os donos. Apesar de que nós somos cúmplices, né?” Ninguém comenta.

O dia acaba e os vinténs de Dolores também. Já na porta do bingo enquanto aguarda a chegada do carro que a levará de volta para a cidade de Cotia, ela lamenta. “Armei só nesse finzinho agora”, diz em referência à única jogada em que se aproximou de preencher toda a cartela.

Olga, entre uma tosse carregada e um trago do seu filtro vermelho, é solidária à colega. Diz ter armado pelo 49, ter se surpreendido com o 47 e depois ter levado uma rasteira do número 48 que entregou o prêmio à outra mesa. A conversa é interrompida por um segurança que diz não ser permitido fumar embaixo do toldo por conta da lei estadual.

“É que ela não viu o que que é viciado”, comenta Dolores olhando de canto para a repórter que vos escreve. “Eu já fui viciada na maquininha e no computador. Agora eu vou, mas sou bem controlada. É uma terapia. A gente vai marcando, marcando… e não adianta ficar nervosa, tem gente que dá soco, murro. Não adianta. Tem que relaxar. Quando você menos espera, vem.”

Marcava 1h35 da manhã e o fluxo de pessoas chegando ao bingo ainda era notável quando uma viatura da polícia militar se aproximou da porta de entrada. “Olha a polícia ali. Vou devagarzinho, mas, se precisar, a gente corre”, disse Dolores, dando passos apressados em direção ao carro servindo-se do apoio de suas muletas.

*Os nomes das personagens foram alterados