A Política de Gênero da “Erotização”: A Revolução de Alyx Mayer no Feminismo

Esse texto é uma resposta ao escrito de Alyx Mayer “A Erotização do Gênero: uma Análise Materialista do Patriarcado e Identidade de Gênero”.

Texto por Estrella Lavanda, transfeminista marxista-leninista

Traduzido por Bia Pastorello

Introdução: Em direção à um transfeminismo proletário

As teorias do “feminismo proletário” de Alyx Mayer sobre sexo e gênero têm assombrado o marxismo-leninismo por um tempo agora, e apesar do fato de trans marxistas-leninistas (como eu e outras pessoas) terem repetidamente expressado desconforto sobre as suas ideias e implicações, eu não tenho visto uma refutação detalhada destas ideias reacionárias. Tomando vantagem do vácuo deixado pela falha do feminismo marxista tradicional de adequadamente levar em conta a experiência de pessoas trans, apesar do desejo ardente de modernos marxistas-leninistas de combater a transfobia como parte do esforço de acabar com todas as formas de exploração, as ideias de Alyx usam a linguagem do “materialismo” para avançar uma estrutura ideológica que quando examinada de perto parece ser um pouco mais do que uma variante do feminismo radical, com um espaço esculpido para não acolher mulheres trans. Através da crítica das ideias reacionárias de Alyx, exemplificadas pelo escrito “A Erotização do Gênero”, eu espero demonstrar o dano que representam para a causa da libertação, se são toleradas em espaços marxistas-leninistas e fornecem uma chamada à ação de desenvolvimento de um verdadeiro materialista-dialético transfeminismo proletário.

Gênero (Papéis): O Erro Fatal do Feminismo Radical

Embora o subtítulo do maior escrito teórico feminista-proletário de Alyx seja “Contra o Feminismo Radical e Liberal”, sua ruptura com o feminismo radical não é tão decisiva quanto ela assume. Enquanto proclama “Extinção ao Feminismo Radical!” na conclusão da obra, sua atitude contra o feminismo radical é claramente que enquanto ele tem algumas ideias erradas, suas suposições subjacentes e muitos de seus conceitos estão corretos. A principal delas é a fusão entre gênero e seus papéis.

O patriarcado precisa que nós acreditemos que gênero e papéis de gênero são inerentes a nós, então nós devemos nos comportar apropriadamente — não em relação aos outros, ou porque fomos abertamente coagidos — mas em relação a nós mesmos e a nossas inclinações e necessidades naturais. Nós devemos ser educados a querer com todo nosso coração e a sentir profundamente nosso gênero (e seus papéis). Nossos gêneros e nós mesmos somos produzidos pela sociedade; patriarcado é o sujeito, gênero é o verbo, nós somos o objeto, e identidade de gênero é o resultado. O oprimido se auto policiar e realmente internalizar seu papel subjugado é uma grande vitória para o patriarcado. Da mesma forma que, para os opressores policiarem a si mesmos e ao subjugado, e realmente internalizarem seu papel subjugador é também uma grande vitória para o patriarcado.

Este é um erro fatal do feminismo radical: gênero e papéis de gênero não são nem de longe a mesma coisa. Embora as feministas radicais sejam amantes de equiparar sexo com a opressão de gênero, como Natalie Reed mostra em sua obra “Significando Gênero”, faz muito mais sentido conceber gênero como um sistema semiótico:

Recentemente, eu estive envolvida em algumas conversas sobre gênero que envolveram descartar as suposições em camadas e necessidades políticas de tentar construir uma nova teoria de trabalho do zero. Algumas dessas conversas resultaram em dificuldade e frustração, batendo de frente com muitas das mesmas contradições e nuances que têm nos complicado por todo esse tempo. As questões, por exemplo, sobre o quanto gênero é construído, o quanto é essencial, o quanto é prescritivo, onde há uma “identidade de gênero”, onde há um “papel de gênero”, onde há “sexo” e como podemos realmente traçar alguma linha entre essas coisas. O que é ser mulher? O que é ser homem? O que essas coisas significam, afinal?
Como sempre, quando enfrentamos coisas complicadas, eu me inclinei em meu velho stand-by de linguagem como analogia. Inicialmente, isso foi apenas para ajudar no trabalho através de algumas premissas, sobre como algo ser culturalmente relativo não necessariamente torna sem sentido, fora de nosso controle, ou divorciado da realidade fenomenológica. Todas as linguagens, por exemplo, possuem uma diferente palavra para a água, a lua ou o sol, mas há uma realidade definitiva e um fenômeno imutável ao qual essas palavras se referem. Eu acho, contudo, que quanto mais fundo me inclinei dentro da analogia, mais esclarecidas as coisas ficavam para mim. E eu, em última análise, me encontrei considerando a possibilidade de que isso não é de longe uma analogia. Que talvez sexo fosse quase que literalmente um sistema semiótico, uma “linguagem” .

De um ponto de vista marxista, essa compreensão sobre gênero também nos leva a outro interessante ângulo de abordagem: Marxismo e Problemas Linguísticos, de Stalin. Ao sustentar que gênero é sinônimo de opressão baseada em gênero, Alyx e outras feministas radicais afirmam que gênero é uma “superestrutura na base”, a primeira afirmação que o camarada Stalin refuta em “Concerning Marxism and Linguistics” (“No que Diz Respeito ao Marxismo e Linguística, numa tradução livre). Para a questão de se linguagem é parte da superestrutura, Stalin responde, em parte:

A superestrutura é um produto da base, mas isso não implica que apenas reflete a base, que é passivo, neutro, indiferente ao destino da própria base, o destino das classes, ao caráter do sistema. Ao contrário, vindo a ser, torna-se uma força extremamente ativa, ajudando ativamente sua base a tomar forma e a consolidar-se, e a fazer o possível para ajudar o novo sistema a terminar e eliminar a antiga base e as velhas classes.
Não poderia ser de outro jeito. A superestrutura é criada pela base precisamente para servi-la, para ajuda-la ativamente a tomar forma e a consolidar a si mesma, a ativamente lutar pela eliminação da velha, moribunda base junto com sua velha superestrutura. A superestrutura tem apenas de renunciar o seu papel de auxiliar, tem apenas de passar de uma posição de defesa ativa de sua base para uma de indiferença sobre ela, tem de adotar uma atitude igual para todas as classes, e ela perde sua força e assim deixa de ser uma superestrutura.
A respeito disso, linguagem difere radicalmente da superestrutura. Linguagem não é um produto de uma ou outra base, velha ou nova, dentro da sociedade dada, mas é todo o curso da história da sociedade e da história das bases de muitos séculos. Foi criada não por uma classe, mas pela sociedade inteira, por todas as classes da sociedade, sob os esforços de centenas de gerações. Foi criada para satisfazer as necessidades não de uma classe em particular, mas de uma sociedade inteira, todas as classes da sociedade. Precisamente por essa razão foi criada uma única linguagem para a sociedade, comum para todos os membros daquela sociedade, como a linguagem comum de todas as pessoas. Por isso, o papel funcional da linguagem, como meio de relações interpessoais, consiste não em servir uma classe em detrimento de outras, mas em igualmente servir uma sociedade inteira, todas as classes da sociedade. Este fato explica porque a linguagem deve igualmente servir o velho e moribundo sistema e o novo e crescente sistema; tanto a velha base como a nova base; tanto os exploradores como os explorados.
Não é segredo para ninguém que a linguagem russa serviu o capitalismo russo e a cultura burguesa russa antes da Revolução de Outubro, assim como agora serve o sistema socialista e a cultura socialista da sociedade russa.
O mesmo pode ser dito sobre a ucraniana, bielorrussa, uzbeca, geórgia, armênia, estônia, latívia, lituânia, moldávia, azerbaijânia, basquíria, turcomênia e outras linguagens de nações soviéticas; elas serviram o velho sistema burguês destas nações, assim como agora servem o novo sistema socialista.
Não poderia ser de outro jeito. Linguagem existe, a linguagem foi criada precisamente para servir a sociedade como um todo, como um meio de relações interpessoais, a fim de ser comum aos membros da sociedade e constituir a única língua da sociedade, servindo membros da sociedade igualmente, independente de seu status de classe. Se a linguagem tem apenas de se afastar desta posição de ser uma língua comum a todo o povo, ela tem apenas de dar preferência e apoio a um grupo social em detrimento de outros grupos sociais da sociedade, ela perde a sua virtude, cessa para ser um meio de relação entre as pessoas da sociedade, e torna-se o jargão de algum grupo social, degenera e está condenada a desaparecer.

Em outras palavras, a linguagem, um sistema semiótico, por ser uma estrutura para expressas significados criada para servir todos os membros da sociedade independente de classe, não pode ser considerada uma superestrutura opressiva por si mesma. É quando a linguagem “dá preferência e apoio a um grupo social em detrimento de outros grupos da sociedade” que ela “perde sua virtude” e torna-se um “jargão”. Quando gênero é a linguagem, indiferente a todas as classes, papéis restritivos de gênero são uma tentativa do patriarcado de forçar um jargão.

Stalin também nota que quando que quando isso ocorre o jargão “degenera e é condenado a desaparecer “. Contudo, um processo sendo tão inevitável no sentido materialista-histórico não significa que ele é automático. Em resistência ao jargão patriarcal de papéis restritivos de gênero, o movimento feminista emergiu para o desenvolvimento de um sistema de gênero que não é um jargão, um sistema que serve a sociedade como um todo, mesmo que não seja necessariamente sempre visto em tais termos. Transfeminismo, a mais avançada forma de feminismo, tendo a consciência acerca da necessidade de repensar gênero inteiramente, levando em conta, de forma apropriada, as pessoas que se enquadram até mesmo para além do entendimento de um “sexo” coercivamente atribuído à nascença, representa o culminar desta missão.

Na seção citada, Alyx mostra que seu pensamento é de fato materialista: mecânico-materialista, não dialético-materialista. “Nossos gêneros e nós mesmos somos produzidos pela sociedade”, ela declara, posicionando “sociedade” como algo fora de nosso controle. “Patriarcado é o sujeito” e “nós somos o objeto”, ela afirma, mas se seu pensamento fosse realmente dialético ela iria reconhecer que pessoas não são o objeto ou sujeito da sociedade, mas que tanto as pessoas quanto a sociedade são simultaneamente sujeito e objeto, influenciando uns aos outros numa relação dialética. Ao conceituar pessoas (e realmente não há diferença significativa entre “nós mesmos” e nós como pessoas) como o objeto, Alyx repudiou aquela premissa marxista que Mao Tse-tung resumiu tão sucintamente: “As pessoas, e as pessoas sozinhas, 
são a força motriz na construção da história mundial.” Na história do mundo, as pessoas não são o objeto, e sim o sujeito. Gênero não é definido por papéis de gênero prescritos pelo patriarcado, mas pelo desenvolvimento de uma identidade de gênero e auto-expressão usando a linguagem de gênero.

A “Erotização” do Gênero: Feminismo Radical está Morto, Longa Vida Feminismo Radical!

Mas isto é precisamente no que Alyx mira nesta obra. Alyx define a “erotização do gênero” como “a transformação de gênero em identidade, seja num nível pessoal ou teórico”. Sendo eu mesma uma mulher trans, eu me recuso a acreditar que Alyx desconhece a ideia de que esta escolha de palavras não pode deixar de evocar em qualquer leitura sobre uma mulher trans a autogynephilia. Autoginefilia refere-se a ideia de que mulheres trans desejam a transição, não devido a decorrentes de disforia de gênero, mas sim porque ela está sexualmente excitada com a ideia de ter um corpo feminino. Essa ideia, desenvolvida pelo estabelecimento médico que procurou retratar pessoas trans doentes mentais e identidades trans como ilegítimas, não pode deixar de ser evocada pela patologização da declaração de uma identidade de gênero como “erotizar“ gênero. Em certo sentido, ela serve ao mesmo propósito: negar a legitimidade de identidades de gênero trans.

Materialismo-Mecânico e Trans Inclusão Oportunista

Alyx insiste que gênero é definido exclusivamente como é percebido por outros, num acordo entusiasmado com o patriarcado. Gênero, ela afirma, é algo que a sociedade nos dá, além de nosso controle. E retratar esta obra como “um acompanhamento do tipo” à sua obra anterior, “Pessoas Trans e a Dialética do Sexo e Gênero”, presumivelmente, ela ainda considera que é parte de um esforço para construir um feminismo tanto dialético quanto “não- transmisógino“. Ao declarar gênero como construção de uma sociedade em que pessoas não possuem agência social (i.e., materialismo mecânico) e insistir que identidades trans são internalizações inválidas de opressões patriarcais, ela certamente sucede em perder completamente o ponto.

Alyx é uma contradição. Ela afirma que quer construir um feminismo que seja “não-transmisógino”, enquanto ao mesmo tempo ela diz coisas como a seguir:

Nós precisamos descobrir como abordar identidade de gênero como bobagem sem marginalizar pessoas trans. Dar uma resposta apropriada a essa questão está fora do âmbito deste escrito, mas uma resposta preliminar é que ela seria geralmente ultra esquerda (com consequências de direita , como todos os ultra-esquerdismo), para começar a falar sobre como identidade de gênero é besteira em um contexto político do dia-a-dia, dado que pessoas cis não as veem possuindo uma identidade de gênero, então em seus olhos isto seria nada além de um ataque a pessoas trans.

O que Alyx falha em perceber é que falar sobre “identidade de gênero ser bobagem” é ultra-esquerda em todos os contextos políticos porque gênero não é bobagem. Tal afirmação não pode ser interpretada como algo diferente de um ataque contra pessoas trans porque isso é exatamente o que ela é. Você não pode afirmar que quer incluir pessoas trans enquanto simultaneamente diz que a base inteira do próprio entendimento dessas pessoas é “bobagem”. A inclusão de mulheres trans no “feminismo” de Alyx é nada mais que uma exceção especial esculpida através de um feminismo radical para o auto-ódio contra mulheres trans, deixando seus pressupostos subjacentes fundamentalmente transfóbicos firmes no lugar.

“Fora das Leis de Gênero”: Você Não É Real, Mas Eu Apenas Roubarei Seu Termo Para Dizer Que Eu Sou

Para os “foras das leis de gênero”. Além de serem apropriadas do trabalho de ativista não-binário Kate Bornstein, o conceito de “fora da lei de gênero” de Alyx, a categoria de pessoas lidas nem como homem e nem como mulher pela sociedade, parece ser um pouco mais do que remarcar o conceito de “genderfreakhood”, mencionado em “Dialéticas”. Contudo, onde em sua primeira obra ela exclui pessoas não-binárias por simplesmente falhar em reconhecer suas existências, ela tem uma linha dura nesta aqui:

E sobre pessoas trans não-binárias, aliás? Onde eles se encaixam neste modelo de três gêneros? O que eles estão dizendo quando dizem que são não-binários? No que eles baseiam suas declarações? No que eles podem se basear? Eles estão dizendo isso em reconhecimento do lugar que a sociedade os designou na hierarquia de gênero? Não, eles estão dizendo que são não-binários porque eles dizem que são não-binários, porque eles se identificam como não-binários, e gênero é um fenômeno subjetivo. Em outras palavras, erotização de gênero. Então se pessoas não-binárias são “não-binárias”, não é devido à suas identidades, mas sim na medida em que eles são colocados fora do binário pela sociedade (i.e., o grau em que estão fora das leis de gênero).
Claro que reivindicar uma identidade como “agênero” pode fazer um alvo estar fora das leis de gênero, mas isto não implica que “agênero” realmente exista a partir de um ponto de vista não-erótico. Estou tentando não trazer pessoas não-binárias aqui, aliás. É apenas que enquanto uma vasta maioria de pessoas dizem que são “homens” ou “mulheres”, envolvidos em tanto eroticismo de gênero quanto pessoas não-binárias estão, “mulheres” e “homens” coincidentemente calham a existir a partir de um ponto de vista não-erótico, e de um modo geral as pessoas que se identificam como um dos sexos binários também tendem a verdadeiramente (e coincidentemente) serem seus gêneros a partir de um ponto de vista não-erótico.

Apenas para deixar absolutamente claro o que está sendo dito aqui entre todos os equívocos, vamos ver o texto que eu negritei na íntegra:

Claro que reivindicar uma identidade como “agênero” pode fazer um alvo estar fora das leis de gênero, mas isto não implica que “agênero” realmente exista. Estou tentando não trazer pessoas não-binárias aqui, aliás. É apenas que “mulheres” e “homens” coincidentemente calham a existir, e de um modo geral as pessoas que se identificam como um dos sexos binários também tendem a verdadeiramente serem seus gêneros.

Eu posso ser acusada de seletivamente citar Alyx aqui, mas este exercício é apenas necessário porque Alyx escreveu seletivamente, em primeiro lugar. Tendo estabelecido que ela considera o “ponto de vista não-erótico” a ser o correto, toda a menção neste parágrafo citado serve como um simples propósito: suavizar o que ela realmente está dizendo, que pessoas não-binárias não são reais. Eu não interpretei mal seu significado, ao contrário, com seu equívoco, ela mal interpretou a si mesma.

Cuspindo diretamente no rosto da pessoa que criou o termo “fora das leis de gênero” para descrever seu próprio sentimento de que elx (aqui a autora usa o pronome neutro em inglês ze) não era nem homem e nem mulher, Alyx afirma:

Mulheres trans talvez sejam as maiores foras das leis de gênero. Ninguém gasta um segundo do seu dia nos chamando de “macho”, embora ninguém possa ignorar a chance de nos tratar como qualquer coisa, menos homens (uma forte evidência apontando ao fato de que sexo é uma base institucional ao gênero). Eu acho que o grau em que cada mulher trans é “transgênera” pela sociedade é geralmente o grau em que elas são “fora das leis de gênero” da sociedade. As mulheres trans que enfrentam maior transmisoginia (porque elas são lidas mais como trans e menos como cis) são mais “fora das leis” e menos “mulheres” do que mulheres trans que sofrem menos transmisoginia. Isso também se aplica na medida em que se desvia do culto à heterossexualidade. Homens bissexuais são mais “fora das leis de gênero” e menos “homens” propriamente ditos do que homens héteros. Mulheres lésbicas são mais “foras das leis de gênero” e menos “mulheres” propriamente ditas do que mulheres hétero, e assim por diante. As políticas queer são as políticas dos foras das leis de gênero.

Esse parágrafo é estranho de se ler. “Mulheres trans talvez sejam as maiores foras das leis de gênero”, ela afirma, pulando esse exato grupo de pessoas cujo o termo “fora das leis de gênero” foi um termo primitivo a ele. “Ninguém gasta um segundo do seu dia chamando [mulheres trans] de ‘macho’.” Com o uso da frase “um segundo do seu dia”, ela claramente não apenas acredita que este argumento é verdadeiro, como ela necessita enfatizá-lo. Como qualquer mulher trans que teve problemas com TERFs (feministas radicais que excluem mulheres trans) pode afirmar, isso não é apenas mentira, como é uma piada. Existe um grupo de pessoas que gastam muitos segundos de muitos dias não apenas chamando mulheres trans de “macho”, “piroco”, mas ameaçando-as e tentando obter suas informações pessoais e arruinar suas vidas. Compreensivelmente, porém, Alyx não pode querer dar a entender que suas amigas feministas radicais têm feito nada de errado, então ela vê o ajuste para pular isso também.

“Não-Trinário”: Orientalismo Disfarçado de Inclusão

As coisas começam a ficar bem estranhas quando Alyx tenta aplicar suas teorias sobre “foras das leis de gênero” para culturas não-ocidentais com mais de dois gêneros socialmente reconhecidos.

Note que quando nós falamos sobre “não-binários”, seria eurocêntrico tentar aplicar este termo para sociedades/contextos que possuem mais de dois gêneros. “Não-binário” só se aplica em uma sociedade/contexto onde há um gênero binário que define se define contra si mesmo; é um termo relativo para um conceito relativo. Se uma dada sociedade tivesse gênero X, Y e Z, então o equivalente ao termo “não-binário” naquela sociedade seria “não-trinário”. Todos os três gêneros, X, Y e Z existiriam a partir de um ponto de vista não-erótico dentro daquela sociedade, apenas porque é assim como as pessoas naquela sociedade poderiam ser lidas, significando que estes gêneros são posições objetivas dentro de uma hierarquia de gênero daquela sociedade/contexto. O único requisito real para o patriarcado é que hajam no mínimo dois gêneros.

Vamos por partes.

Com o conceito risível de “não-trinário”, Alyx parece estar usando a tropa orientalista do Nobre Selvagem. Seu ponto de vista sobre o papel de três gêneros em sociedades não-ocidentais que os têm é irremediavelmente idealista e elogia sociedades que reconhecem três ou mais gêneros como inerentemente “menos patriarcal“. Por um lado, uma vez que a ideia do terceiro gênero é para cobrir as pessoas que não se encaixam em outros dois, eu quase posso garantir que existem exatamente zero pessoas “não-trinárias” no mundo. Em toda a probabilidade, ninguém se identifica de tal maneira e ninguém é tratado de tal forma, falhando a definição de gênero de Alyx e a própria definição do gênero. Ela também parece pensar que pessoas de um terceiro gênero são quase tão válidas quanto as outras duas:

Uma medida aproximada de quão patriarcal qualquer sociedade dada é pode ser encontrada no tamanho relativo de pessoas foras das leis de gênero versus os gêneros oficialmente sancionados (isso não se aplica em todos os casos, mas deve ser verdade num modo geral). Em algumas sociedades, os gêneros jurídicos tomam muito mais espaço relativo comparados aos foras das leis de gênero, o que significa que menos pessoas estão forçadas a ficarem foras das leis, e mais pessoas podem existir como menos oprimidas juridicamente (se tratando de gênero). Outros tipos de sociedades menos patriarcais, ao invés de terem os originais gêneros jurídicos tomando mais espaço, terão mais gêneros jurídicos, com o mesmo resultado final — que a sociedade é mais complacente sobre a diferença de gênero, porque a gama de posições fora das leis de gênero dentro da hierarquia de gênero é maior.

Ter mais “gêneros jurídicos” não significa que a sociedade tem uma diversidade de gênero mais complacente, tampouco que reconhece suas existências. Pessoas com três gêneros, como nativos-americanos com dois espíritos e hijras indígenas enfrentam opressão e discriminação por sua identidade de gênero, assim como pessoas transgêneras no Ocidente. “Gênero Z” não pode ser considerado a estar mais ou menos nos mesmos termos dos Gêneros X e Y, simplesmente por não corresponder à realidade material de nenhuma sociedade existente.

Também é interessante considerar a ideia de Alyx de que “o único requisito real para o patriarcado é que hajam no mínimo dois gêneros”. Nem mesmo a opressão com base no gênero ou a execução de uma construção, bem como é exigido pelo sexo, parece. Todos estes estão naturalmente implícitos no próprio conceito de gênero, de acordo com o pensamento de Alyx . O problema, é claro, é que o pensamento de Alyx é errado.

“Reforma de Gênero” e o Mito da Linguagem de Classes

Alyx começa o fim de sua obra com uma ótima pitada de transfobia sem sentido:

Em última análise, transformando gênero em uma questão subjetiva, tornando em algo baseado não na sociedade, mas em si mesmo e em seus sentimentos, é nada além de misoginia. “Mulher” e “homem” são termos científicos, mas quando erotizamos gêneros, confundimos isso. Acabamos confundindo a funcionalidade do patriarcado, naturalizando gênero, e caindo num individualismo capitalista. Erotizar gênero inevitavelmente nos leva ao reformismo, porque se gênero é identidade, não algo causado pelo patriarcado, então “gênero é uma ocorrência inevitável porque deve ter existido antes do patriarcado”, e então o melhor que podemos fazer é “reformar o gênero, melhor do que se livrar dele”.

Transfeministas não dizem que gênero não é baseado na sociedade. Aqui Alyx está propondo que o sistema de gênero é uma “linguagem de classes”, outra ideia criticada por Stalin:

Nossos camaradas aqui estão cometendo no mínimo dois erros.
O primeiro erro é que confundem linguagem com superestrutura. Eles acham que desde que superestrutura tenha um caráter de classes, linguagem também deve ser uma linguagem de classes, e não uma linguagem comum a todo povo. Mas eu já disse que linguagem e estrutura são dois conceitos diferentes, e um marxista não deve confundi-los.
O segundo erro destes camaradas é que eles concebem uma oposição de interesses entre a burguesia e o proletariado, uma feroz luta de classes entre ambos, como significado de uma desintegração da sociedade, como uma ruptura de todos os laços entre as classes hostis. Eles acreditam que, desde que a sociedade tenha desintegrado e não haja mais uma única sociedade, apenas classes, uma única linguagem, uma linguagem nacional, é desnecessária. Se a sociedade se desintegrar e não houver mais uma linguagem comum a todos, uma linguagem nacional, então o que restará?Restarão classes e “linguagem de classes”. Naturalmente, toda “linguagem de classes” possuirá sua gramática de classes — uma gramática proletária ou uma gramática burguesa. Fato que estas gramáticas não existem em lugar nenhum. Mas isto não preocupa estes camaradas: eles acreditam que essas gramáticas aparecerão no caminho.
Em uma época, haviam “marxistas” no nosso país que afirmaram que as estradas de ferro que nos restaram após a Revolução de Outubro foram ferrovias burguesas, que seria impróprio para nós, marxistas, usá-las, que eles deveriam ser destruídas e terem construídos novas, proletárias ferrovias. Para isso, eles foram apelidados de “trogloditas”.
Escusado será dizer que uma visão tão primitiva — anarquista da sociedade, das classes, da linguagem não tem nada em comum com o marxismo. Mas , sem dúvida, essa visão existe e continua a prevalecer nas mentes confusas de alguns de nossos camaradas.

Ao criticar o “reformismo de gênero”, Alyx é como os “trogloditas” que insistiram que as ferrovias eram burguesas, que elas deveriam ser destruídas e substituídas por ferrovias “proletárias”. Contra a ideia de “reformar” a linguagem do sistema de gênero, Alyx propõe destruí-lo inteiramente. Camarada Stalin está claro de que não há espaço para este tipo de “revolução”:

De fato, que necessidade há lá, depois de cada revolução, para a estrutura já existente da língua, seu sistema gramatical e estoque básico de palavras, de destruí-la e substituí-la por novas, como é geralmente o caso com a superestrutura? Que objeto haveria na chamada “água”, “terra”, “montanha”, “floresta”, “peixe”, “homem”, “andar”, “fazer”, “produzir”, “trocar”, etc? Não água, terra, montanha, etc., mas outra coisa? Que objeto haveria na modificação de palavras numa linguagem e combinação de palavras em frases, seguindo não a gramática existente, mas uma gramática completamente diferente? O que a revolução ganharia a partir de uma agitação na linguagem? A história em geral nunca faz nada de qualquer importância sem que haja a necessidade para isto. O que, uma pessoa pergunta, pode ser a necessidade para uma revolução linguística, se foi demonstrado que a linguagem existente e sua estrutura estão fundamentalmente bastante adequadas para as necessidades de um novo sistema? A velha superestrutura pode e deve ser destruída e substituída por uma nova em um curso de poucos anos, com o propósito de dar espaço livre para as forças produtivas da sociedade; mas como pode uma linguagem existente ser destruída e uma nova ser colocada em seu lugar num espaço de poucos anos sem causar anarquia à vida social e sem criar a ameaça de desintegrar a sociedade? Quem, além de Dom Quixote, pode se enfiar nesta tarefa?

De fato, seria “ultra-esquerda”, como Alyx observou, ao propor esta “revolução” de gênero. Nosso inimigo não é o gênero por si próprio, mas o jargão patriarcal da linguagem de gênero, o uso de um sexo coercivamente designado ao nascer para designar um gênero e um papel social rígido acompanhando-o para impor uma divisão sexual do trabalho. Enquanto feministas “radicais” reacionárias continuam nos dizendo que as ferrovias são burguesas e devem ser destruídas, transfeministas proletárias estarão reparando os trilhos e extendendo-os, para permitir viagens para lugares antes inacessíveis.