Missão de Santo
Há muitos anos não parava meus dias para assistir novela até que o Fantástico exibiu uma reportagem promocional sobre Velho Chico. As belas imagens e tomadas do famoso rio me convenceram a ver no que daria a nova produção do horário nobre. Fiquei encantada com as cenas, trilha sonora, posições de câmera, cortes, cenários, figurinos, película. Algumas técnicas bastante ousadas para o padrão Globo. Confesso que, nos primeiros capítulos, o enredo a mim pouco importava. Admirava a obra ficcional pela bela técnica e elenco incrível.
Passada a primeira fase da novela, o roteiro finalmente havia engrenado para mim. A vida do sertanejo, as crenças populares da população ribeirinha, a política dos coronéis, formas de produção sustentável, respeito à natureza, a luta de classes entre pequenos agricultores e grandes latifundiários. O rio São Francisco sempre conduzindo o curso da história de personagens construídos para mostrar ao resto do Brasil a importância da água para o futuro da humanidade.
Ao longo da bela narrativa, aprendi sobre a crença popular nos “encantados” e na lenda do olho d’água. Uma personagem indígena e raizeira ensinou que essas entidades são responsáveis pela proteção ao rio, ou seja, pelas forças sobrenaturais que atuam na região. O olho d’água seria o “desconhecido” que vive no fundo do São Francisco, culpado pela morte por afogamento de quem se aventura pelas misteriosas correntezas. Há ainda a crendice na passagem do “Gaiola Encantado”, embarcação que atravessa o rio transportando as almas que ali se perderam.
Miguel: Tem muita coisa na vida da gente que não dá para entender direito.
Santo: Nós não estamos falando de terra não né?
“Meu filho, tem coisa na vida que não é para entender, não, só para viver mesmo”, disse Santo dos Anjos, personagem de Domingos Montagner, a Miguel, seu filho na ficção. A cena foi ao ar na véspera da trágica morte do protagonista, poucas horas após o término das gravações da novela, em Canindé do São Francisco, em Sergipe. Colegas de elenco disseram que a equipe comemorava o fim de um trabalho épico. Imagino que após uma sensacional participação no horário nobre, com entrega e profissionalismo, o ator tenha decidido se banhar no rio em agradecimento. Eu também faria o mesmo.
A fatalidade se confunde agora na mente dos telespectadores com a recente história de seu personagem, que sofreu um atentado e acabou sendo levado pelo rio, no qual foi encontrado vivo por índios de uma tribo da região. Lembro bem da cena em que o personagem se joga na correnteza e, poeticamente, a imagem se abre para focalizar a dimensão do majestoso São Francisco em contraponto à pequenez do ser humano.
Nos capítulos seguintes, as coincidências são ainda mais devastadoras: a personagem de Camila Pitanga, Teresa, que estava com Santo pouco antes de seu desaparecimento, promove uma busca desesperadora ao par romântico pelas águas do rio, gritando seu nome, enquanto outro personagem mergulha perto de pedras, em local conhecido como sumidouro, na esperança de encontrar o protagonista vivo ou morto. A região, segundo o ribeirinho, tem seus mistérios e é preciso respeitar o “tempo” do rio.
Penso que contar histórias tão sensíveis e cercada de misticismos é algo que embriaga emocionalmente qualquer ser humano. A equipe de produção da novela mergulhou literalmente nas águas do rio e, de cabeça, na vida das populações ribeirinhas. Uma imersão tão grandiosa que transforma todos os envolvidos. Com Domingos não deve ter sido diferente. Ouvi dizer que sua trajetória profissional começou no circo, que foi um artista completo. Pelo que acompanhei em Velho Chico, parece mesmo ser verdade. Sua capacidade de interpretação me fez sorrir e também me levou às lágrimas em diversos momentos.
Não acredito em coincidências. A vida de uma pessoa não pode ser reduzida a acontecimentos aleatórios. Tudo precisa ter uma razão, um sentido. Prefiro pensar que Domingos Montagner morreu para dar ainda mais significado a uma grande obra ficcional. Imagino que o nobre propósito seja fazer os brasileiros olharem com mais seriedade e respeito para o rio São Francisco, que banha uma imensa parte do sertão nordestino, cuja preservação é fundamental para a vida das próximas gerações. Se assim for, a missão de Santo, sem dúvida, foi cumprida com excelência por Domingos.
Descanse em paz.