Sobre os meus cabelos

Esses dias fez um ano que eu assumi o meu cabelo. Assumir é uma palavra estranha, né? parece que você tem um segredo, e precisa de certa forma revelar e dar satisfação aos outros.

Mas, de certa forma foi assim que eu me senti. Como se há um tempo eu tivesse escondendo uma parte de mim que eu não gostava (“jura que seu cabelo é enrolado? parece natural” — é o que eu mais ouvia quando eu revelava meu segredinho) e de repente, tchanam: “oi gente, essa aqui sou eu, na verdade”. O que pra muitos parece uma questão de estética, pra mim é algo mais profundo. Tem algo de liberdade e poder.

O processo de me sentir livre não teve fim no dia que eu cortei a parte lisa do meu cabelo, que eu metia química há 10 anos. E nem começou no dia que eu, deitada na minha cama do albergue em uma viagem sozinha, me sentindo inteira e feliz, decidi que eu podia me sentir bem com o cabelo que tenho.

Foram meses de entender que, depois de cortar essa parte que não é minha, eu não precisava arrumar o meu cacho com baby liss pra ele ficar comportado. Nem dar uma esticadinha de leve na raiz, pra não ficar alta. O meu cabelo é do jeito que ele quiser. E minha raiz é linda assim, enrolada, alta, livre. Foram tempos de desmistificar o “arruma o cabelo, menina. faz um rabo de cavalo!”, o famoso “cabelo ruim” e algumas piadinhas da fatídica época de escola, que baixam a auto-estima de qualquer um. (Lembro bem de ter uns 10 anos, já nessa idade me sentir feia por ter o cabelo enrolado e pensar “pelo menos eu sou engraçada”. compensações infantis).

Foram tempos de me descobrir, desfazer preconceitos dentro de mim e aceitar a minha raiz, literalmente. E sigo me descobrindo. E sigo engraçada também, quem quiser vem cá que eu faço umas piadas ótimas.

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