Carta ao meu filho, filhos do meu filho, velhos dos velhos conhecidos, pessoas do futuro.

Carta ao meu filho, filhos do meu filho, velhos dos velhos conhecidos, pessoas do futuro

Queridos, estamos em 2016. Se você já foi uma criança e cresceu, pode ouvir que o mundo de hoje é bem diferente.

Deixa eu te contar como estou vendo esse mundo agora e espero que no futuro tudo tenha valido a pena. Quando eu era criança meu pai me carregava nas costas e a gente ia para as ruas gritar por liberdade. Me contam que quando os adultos dessa época eram crianças foi assim também, e os avós disseram a mesma coisa e assim por diante desde antes dessas terras pertencerem a realmente alguém. E talvez antes disso, mas enfim. É por isso que eu pedia que vocês prestassem atenção nas aulas de história. Porque quando tiver que confrontar os fatos, vai saber que aquilo é a visão de alguém e não a sua, juntando todas as peças é que você observa e pondera.

O futuro sempre nos dá essa possibilidade. Podemos olhar o passado pelo presente. E esses dias aqui para aos adultos tem sido difíceis. 2016. Não estudamos o suficiente. Mesmo com a internet ajudando. Mesmo a gente podendo escrever errado e uma fita vermelha dizer a você que está errado. Clica com o direito e corrige. Baba. A gente fala bem português. Escreve razoavelmente bem. Temos ídolos cultos também, a música brasileira é uma delícia, a gastronomia criativa e iniciante, as belas terras, os seres alegres. Conseguimos nos livrar da escravidão. Ao que parece. Conseguimos sair das fazendas e buscar trabalho nas cidades. Vários serviços a fazer. Temos escolas, falta escola. Temos ruas, falta educação. Tem frango caipira, tem frango orgânico, tem salmão de granja. Nem o pão do futuro pode ser igual ao pão de agora. Eles mudaram a farinha do povo. O povo, que plantava trigo, foi pra cidade. Come na cidade a farinha que não veio do povo. O povo que cozinha o que não come e que come o que a máquina cozinha.

A máquina é que a gente não entende. Quem comanda a máquina não é povo? Perdemos o fio da máquina. Nos desconectamos. Ficamos contentes com as batalhas e esquecemos da guerra. O olho da máquina, maior do que a barriga do povo. Perdoe pela filosofia barata. Foi o que sobrou dos estudos meio pública, meio privada. Não só as escolas vivem o dilema. São da máquina ou são do povo? Mas as escolas não nos ensinaram a ser do povo. Vivemos em um presente que brigamos dentro da mesma espécie. Sugere algum outro animal que faça isso entre si, desta forma, tão tecnológica e organizada. As formigas, aqui em casa, semana passada comeram toda a roseira. Tava linda e não deixaram nem sequer o botão rosado que ia nascer. Que raiva das formigas! Durante a madrugada, as danadinhas se organizaram. Mesma espécie trabalhando para a sobrevivência. Sorrateiramente comeram tudo, sem sequer deixar rastros. Já teve até filme Disney falando sobre algo assim e a gente não aprendeu e não leu os sinais. Geral aqui brigando por siglas e não por sobrevivência.

Não sei como vocês lidaram com ostentação e mídia nos tempos do futuro, isso aqui chega a ser engraçado até. A gente que cresceu só com a imaginação do papelão e os primeiros radinhos com microfone e TV na borda de madeira não vai saber lidar com a tecnologia daqui tantos anos. Pulamos essa parte.

Vamos direto ao assunto (direto, hahahah!) quero saber se todos os meus esforços valeram a pena. Se você sabe que precisamos culturalmente, rotineiramente, cotidianamente, habitualmente, sermos amorosos, educados e respeitosos uns com os outros?

Qual foi a época que as pessoas se perguntaram? Quando percebemos que somente cada um fazendo sua parte a coisa começaria a andar? Chega o momento que se você não doar algo que tem, seja um sorriso, uma meia, um copo de água, um abraço, uma aula, um grampeador, um shorts, um papel, uma árvore, um conselho, um tempo, um dinheiro, um terreno, um esparadrapo…. um pedaço de si, seu sangue, sua coragem. Enquanto não nos doamos uns aos outros, não tem o que ser feito.

O cobertor chamado terra supostamente redondo e curto tinha limites. Quentinho.

A frase era “se organizar cabe todo mundo”. Demorou, muito. Gerações foram perdidas. Músicas foram esquecidas, livros foram queimados, pessoas foram agredidas. Ficamos em um looping eterno onde naquela época, tudo parecia durar para sempre e mais do que isopor. Um dia se puder me conta exatamente quando foi que a batalha que estamos travando agora vai dar certo. Parece aqui que vai demorar um bocado mais do que eu acreditava. Então, mesmo quando ficar bem velha, ainda devo me perguntar quanto tempo mais até que eles percebessem?