Rascunho de um trecho de um talvez-quase-futuro-romance que eu escrevi mais como desabafo do que como história

Uma vez, no colegial, eu e a Nat saímos correndo para pegar o ônibus na esquina da escola, porque precisávamos chegar no meu prédio antes do menino bonito do 14o andar. O plano era que ele me visse conversando e rindo, toda despojada, e viesse puxar assunto, perdidamente apaixonado por mim (ele se mudou uns 6 meses depois sem nunca ter trocado uma palavra comigo, é claro).

Corremos muito para pegar o ônibus verde que passava, eu tinha certeza de que aquele era o que ia para casa. Chegando no ponto, ofegantes, começamos a rir e nos lamentar por termos corrido tanto para pegar um ônibus que não era o nosso.

Ouvindo nossa conversa, um senhor sentado no banco do ponto se aproximou e disse, a voz desgastada pelo tempo, como se estivesse prestes a despejar sobre nós toda a sabedoria do universo:

- O primeiro ônibus que passa nunca é o que a gente precisa pegar.

No que ele terminou de falar, começamos a rir mais. Lembro de ficar sem ar, o estômago tomando pontadas toda vez que o som de uma gargalhada ficava engasgado. O senhor saiu de perto falando alguma coisa sobre maconha.

Essa frase sem sentido virou piada entre mim e a Nat, e sempre a soltavamos nos momentos mais inoportunos, nunca falhava em nós fazer chorar de rir. Mas nós últimos tempos pensar nessa frase não me faz ter vontade de rir, e já não me parece mais tão sem sentido quanto quando eu tinha meus 15 anos, quando nós só estávamos com pressa para cumprir um plano que já sabíamos que jamais funcionaria.

Com 25, vamos correr para pegar o ônibus errado, pensando ser o certo, mais vezes do que podemos contar. Às vezes, vamos nos arriscar e subir no errado mesmo assim, já que corremos tanto para chegar até lá, ou já que esperamos tanto e comemoramos quando vimos um ônibus parecido com o nosso lá longe, se aproximando. “Quem sabe dessa vez ele desvia o trajeto? Quem sabe tem um ponto que eu não conheço, perto de onde eu quero chegar?” E subimos, olhando na janela, otimistas. Pagamos o cobrador e nos acomodamos assim que vaga um lugarzinho. Até que o motorista começa a desviar muito da nossa rota. Mais. E mais. E mais e mais e mais e mais e chega no ponto em que não reconhecemos mais as ruas. Insistimos mais um pouco, mas alguns minutos - ou horas - depois bate um desespero e descemos onde quer que estejamos. É um lugar desconhecido, mas na cidade que conhecemos. Uma hora ou outra vamos chegar onde queríamos, é claro que vamos. Temos que chegar. Né? Mas vai demorar e ser tortuoso. Se chegarmos. A cidade é grande. E a pressa de antes foi tão absolutamente em vão. E não é todo mundo que pode simplesmente pagar um táxi que vai cortando as ruas e seguindo o Waze para não ter erro de que uma hora vai-se chegar em casa - eu certamente não podia.

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